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África 2017 – Dia 5 – Bissau a Bolama

O meu relógio natural acordou-me cinco minutos antes das seis da manhã e do despertador preparado no telemóvel. Lá fora é de noite. As primeiras pessoas iniciam um novo dia. Vamos andando para a estrada, não demora até passar um táxi e se fazer o negócio para o porto. 1000 CFA.

Quando lá chegamos vejo logo que viemos cedo de mais. Há quatro ou cinco homens sentado à entrada, mas nada mais na escuridão do cais. Bem, se me dizem para estar bem cedo pela manhã, eu estou. Mas agora teremos que esperar.

Sentamo-nos num banco. O dia clareia. As primeiras vendedoras começam a montar as pequenas bancas. E então começam a chegar os passageiros, os companheiros de viagem.

Não está por ali nenhuma canoa. Aparentemente. Mas afinal encontrava-se, tão baixa, encravada no lodo da maré que nem demos por ela.

A água do Gêba vai subindo. Ali perto, dois pescadores fazem um arrasto manual. Enquant um segura a base da rede o outro desliza pelas águas, em semí-circulo, dirigindo-se depois para o companheiro e ambos puxam a rede e vêem o que lhes trouxe a sorte.

Mais passageiros. O porto enche-se com a sua vida própria. Chega uma pick-up com a caixa carregada de gente. Mas temos que continuar a esperar. O Minervino vai recolher informações. Parece que ultimamente só é aceite carga na canoa mas naquele dia a capitania dá sinais de autorizar o transporte de passageiros. É preciso aguardar, contudo.

Fala-se numa partida às 10 horas. Mas pelas nove e pouco vejo que estão a ser distribuídos coletes de salvação às pessoas que aguardavam no cais. Luz verde para Bolama.

Embarcar – e mais tarde desembarcar – foi uma pequena aventura. Não há portaló ou prancha. Também por isso é preciso esperar pela maré certa, para que as pessoas possam saltar para a embarcação com mais ou menos condições.

O Minervino vai primeiro, passo-lhe a mochila e salto para o tombadilho, caminho até à outra ponta e apoiando-me na pilha de carga desço para o compartimento. Não  há propriamente lugares para os passageiros se sentarem. Uns estendem-se sobre sacas e caixotes que estão no fundo do porão, outros, como eu, sentam-se nas vigas estruturais e nos bordos da embarcação. Há um oleado que cobre tudo e que será levantado quando começamos a navegar, deixando entrar a luz, ar e a vista envolvente.

 

Zarpamos às 9:40 e enquanto nos afastamos de Bissau o meu pensamento vai para os homens da gerações anteriores à minha, que como eu começam a envelhecer mais depressa, testemunhos que se escoam, que ainda ontem estavam ao meu lado, nos meus anos de Marinha, contando as suas aventuras e memórias como se fossem do dia anterior, mas que hoje vão caindo, vergados pelo tempo, pelo passo natural das coisas.

Penso especialmente nos Fuzileiros Especiais, que naturalmente conheci na Marinha. Nos seus pensamentos e preocupações de cada vez que deixavam aquele porto seguro para trás, para entrar na solidão dos rios guineenses  em operações de socorro urgente ou patrulhas de rotina.

A viagem decorre lenta. São umas três horas para vencer os 40 quilómetros até Bolama, mas são 40 quilómetros muito custosos, sentado numa viga de madeira. Mas pronto, faz-se. Não é mais desconfortável do que um banco de avião. Não é estofado mas é espaçoso.

Bolama à vista, marcada pela chegada ao farol, uma estrutura que emerge da água estabelecendo um ponto de navegação. E logo depois a cidade, uma designação generosa em honra ao seu passado histórico.

Manobras de amarração e o desembarque faz-se de forma quase acrobática, com os passageiros a colocarem um pé num paredão vertical do cais, e a estender a mão para receber a ajuda dos que estão na plataforma.

Logo ali encontramos o José Luis, ou “Zé” para os amigos, e que na realidade é um amigo de juventude do Minervino que me fala das loucas noites a dançar na discoteca e a acabar em casa deste Zé, onde dormia para manhã adentro, antes de regressar a casa, a uns dois quilómetros de distância, junto da praia de Ofir.

O Zé tem algumas cargas para levantar que vieram na canoa, mas tem tempo para me mostrar o que resta do restaurante Marginal e da sua piscina. Depois deixa-nos em sua casa, que também é uma venda e um bar para conhecidos, ou algo assim. Deixo lá a mochila e o telemóvel, que vai para recarregar e vou dar uma volta por Bolama, com o Minervino.

Não sei como descrever Bolama. É um espectro do que foi, uma fantasma nascido do passado, uma comunidade que vive ou sobrevive sobre as ruínas do Império. Em São Tomé fala-se do património perdido das “Roças”. Bolama é uma mão cheia de “roças” num pequeno espaço. Há um edifício da alfândega, uma monumental câmara municipal em total ruína, um cinema construída numa outra época e muitas casas, que certamente contam histórias, pelas suas paredes, pelo estuque, pelas telhas.

Vejo a igreja, o coreto no parque onde pastam cabras e vacas, a discoteca que já não existe, falamos com pessoas, gente que conhece o Minervino ou, melhor, a sua família. Nada muda, é como visitar um monte alentejano e começar a falar de primos, tios e pais. Memórias, laços de família que se definem. Dou muitos apertos de mão, muitos “como vai senhô, tudo bem, muito obrigado”.

Bolama é mais fresco do que Bissau mas mesmo assim, quente, e quando vejo uma esplanada com mesas da Sagres, não tem como resistir, lá bebo uma mini e de repente chega o Zé que está despachado. Falamos ali de onde dormir, e acontece que o dono da esplanada tem também quartos para alugar. Fica acertado o preço em 4.000 CFA.

Agora vamos de novo a casa do Zé, na realidade ao seu recinto exterior. A mulher dele serve-nos um delicioso almoço de arroz com carne, talvez de cabra, com um tempero maravilhoso. O Zé põe-me uma cerveja à frente, que não recuso. Comemos com gosto ao som de música africana e na companhia de um dos marinheiros da canoa que ali está também.

Vamos dar mais um passeio e deixar as coisas no quarto, uma coisa modesta: electricidade, talvez, ao serão, água corrente, não… um balde de água e uma casa de banho para todos. Na divisão está um calor do inferno. Não vai ser fácil dormir.

A tarde está a chegar ao fim, vamos andar um pouco mais, até ao final de Bolama. Passamos por dentro do hospital. Em Bolama há um médico por 11 mil habitantes. O trabalho médico é feito por enfermeiros. Ali é um local onde uma pessoa não quer ser picada por um mosquito. A malária espreita.

Conhecemos duas missionários brasileiras que nos convidam a conhecer a comunidade onde vou também conhecer o irmão Maciel. Ficamos todos um pouco à conversa, mas com o fim do dia os mosquitos chegam e auspiciosamente os brasileiros tinham acabado de referir a intensa presença de malária por ali. Está na hora de ir ao quarto passar o repelente.

Já é de noite e nada de gerador a providenciar energia. Ficamos ali os dois, o Minervino e eu, a germinar energia negativa, até que desistimos. Vamos a casa do Zé ver se recuperamos os nossos telemóveis que tinham ficado à carga em casa de alguém conhecido.

Ele vai então buscar o nosso equipamento e ficamos por ali, no recinto mais ou menos público do Zé. Está lá o marinheiro de antes, mas chegam outros elementos da tripulação. Bebo uma cerveja e aprecio o ambiente maravilhoso. A música africana enche o espaço, os homens falam entre si. Grande momento.

Por fim chegam os nossos telemóveis. Já estava a ressacar. Dali vou para o quarto, descansar, carregar os dispositivos na electricidade que já está disponível. O Minervino enrola uma ganza, vai até ao porto fumar, ter o seu momento de repouso e eu fico a gozar a tranquilidade relativa da solidão, com um som africano que nunca cessa, de cigarras nas árvores, de vozes ali ao lado que me embalam enquanto passo pelas brasas.

O Minervino regressa mas estou mesmo cansado e, de forma geral, saturado de companhia. Despeço-me e adormeço. Acordo a meio da noite, reparo que a porta está aberta e já não consigo dormir profundamente. Sempre com medo que alguém entre no quarto e surripie alguma coisa,  especialmente a mochila, que está pronta para seguir pela manhã, e portanto especialmente valiosa.

Cheguei a pensar em ficam em Bolama uns dias, a trabalhar e repousar, a usufruir da solidão, que para mim se torna tão desejada depois de alguns dias com companhia. Mas teria que ficar demasiados dias, tirando Domingo só há barco garantido para Bissau na Quarta-feira e coloco a ideia de lado.

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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