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África 2017 – Dia 8 – Bissau, Cacheu, Canchungo

Que dia tão preenchido! Acordei cedo, bem antes da hora necessária. Por razão alguma, o meu corpo simplesmente não quis dormir mais.

Tudo preparado, saímos para a estrada. Os toca-toca estavam muito concorridos, muito acotevelanço para o meu gosto. O Minervino bem me chamou, por uma, duas vezes, mas eu repeti: demasiada gente. Mandei-o seguir, eu ia apanhar um táxi. Ele ainda disse que nos encontrávamos lá mas cortei-lhe a intenção. Já chegava de protecção!

Ironicamente entrei no toca-toca a seguir. Confirmei com o meu vizinho se estávamos a chegar ao Enterramento e se era ali a Paragem Central. Era. Logo dois gritam em uníssono “Paragem”, creio que não para assinalar a paragem do Toca-Toca mas para fazer saber que na paragem da Paragem era para parar.

Aproveitei para perguntar a direcção da estação. E caminhei. Ainda eram umas centenas de metros, plenos de vida, com carrinhas a sair para todas as partes do país, vendedoras, pessoas a caminhar. Ali perto há o Hospital Militar, que intensifica o movimento.

É simples. Em príncipio há logo alguém que nos pergunta para onde queremos ir. Senão, tomamos nós a iniciativa e colocamos a questão. No meu caso era o Cachungo. Logo me apontaram na direcção certa. E na Guiné é assim: perto do ponto de partida para o destino pretendido há uma pequena banca e ali compra-se a senha para o transporte que depois se apresenta ao motorista. Simples. Paguei 1150 CFA. O senhor indicou-me a viatura, instalei-me, no lugar errado, e pouco depois fui transferido. O meu lugar é à frente.

A viagem é mais suave e rápida do que esperava. Há algumas paragens para controle policial, sendo que logo na primeira, à saída de Bissau, toda a gente tem de sair da carrinha para mostrar identificação.

A estrada não está em condições assim tão más. Existem buracos, sim, mas o jovem condutor, certamente muito habituado aquele percurso, sabe como pode passar entre eles e quais podem ser ultrapassados de prego a fundo, apenas com uma vibração da viatura.

O rapaz conduzia bem, eficiente e profissional, rápido sem desvarios. O meu lugar à frente era relativamente confortável e num instante estava a desembarcar na “Paragem” do Cachungo, encontrando logo o carro para o Cacheu e repetindo a operação de comprar uma senha na mesa ali próxima, que no caso custou 500 CFA.

Há que esperar que a lotação da viatura esgote. Esta é um bocado mais velha, mas nunca deixo de me espantar quão confortáveis e rápidas carros bem velhos e com aspecto de estar a cair aos bocados podem ser. Este, como vi depois de arrancarmos, tinha era um problema: quando ia devagar ou estava parado com o moto em funcionamento era uma verdadeira câmara de gás.

O condutor era um rapaz simpático – fenómeno raro na Guiné – de gorro de lã (sim, leram bem, de lã, com aquele calor abrasador). Adorei este trajecto. Estava menos calor do que esperava e com as janelas todas abertas, indo bem junto a uma delas. Neste primeiro contacto com o país para além da capital estou a ficar com a impressão de que a Guiné tem uma densidade demográfica bem reduzida. Raras foram as aldeias passadas, mas vi muito campo.

Quando passavamos junto a um aglomerado de casas via sempre um poço comunitário, uma ou duas pequenas lojas e, claro, as habitações. Algumas tradicionais, em madeira e colmo, outras construídas no estilo português, com telhados de zinco amplos e, em certos casos, um alpendre todo em redor do imóvel.

Várias vezes parámos para largar ou recolher passageiros e encomendas. E a partir de certo momento vou com o banco só para mim e sinto-me muito bem.

Chega o casario do Cacheu, que se inicia umas centenas antes do núcleo histórico, localizado junto ao rio com o mesmo nome. Cacheu é um lugar estranho e, para mim, pouco agradável. Quando saí olhei em redor e não me pareceu nada de interessante. Perguntei ao condutor se havia por ali alguma pensão ou quartos para alugar. Ia perguntar, o que fez, ao gordo que vendia os bilhetes para regressar a Canchungo. Peço desculpa pela palavra mas o tipo era um arrogante, desagradável e irritante. Lá veio, à minha frente, pimpão. Suspeito que em buscar de uma comissão.

Apresentou-me a um homem que de facto tinha quartos para alugar. Por um preço lunático! 15 Euros por um quarto interior, sem água corrente e sem electricidade. Que tinha um gerador mas com um cliente apenas não podia pôr a funcionar. Pois então que lhe fizesse bom proveito. Disse-lhe que sendo assim ia regressar ao Canchungo. Ah e tal, o vizinho tinha electricidade, podia carregar as coisas lá. Não. Ah pois, se pagasse arranjava-se o gerador e tinha “power” pela noite dentro. Não. Vou voltar a Canchungo. Não disse, mas pensei, que a ganância pode resultar mal.

Mas para já ver o que há a ver por ali. O que não é muito. Ali onde a estrada encontra o rio há um padrão português vandalizado. Uns quantos edíficios coloniais. Pergunto a um senhor amável onde fica o forte. Nãopercebe. A fortaleza. Ah sim, a Fortaleza da Amura. Por ali. Obrigado.

Vou. Está um calor verdadeiramente infernal, é o pico do dia. Há obras. Muita obras se fazem aqui. Vejo uns bungalows que parecem ter sido interrompidos a meio da construção, mas devem-no ter sido durante uma renovação, porque só podem ser os que uma edição antiga do Lonely Planet aconselha. Vejo também o que penso ser um hotel em construção que também era mencionado nesse guia. E continua em obras.

O forte está ali à frente. É uma coisa minúscula, parece mesmo de brincadeira, uma espécie de cenário construído para Paintball. Tiro umas fotos e um tipo mostra-me a chave. Pergunto se posso ver por dentro. Claro, terei é que pagar alguma coisa. Qual coisa? Mil Francos. Nem pensar. Quinhentos? OK, fazemos negócio.  Entro para tirar umas fotos. Lá dentro está o que resta da estatuária colonial, que inclui o descobrido da Guiné e Hermenegildo Capelo, entre outras. É um local burlesco, ou pelo menos foi como o senti.

Ali perto há qualquer coisa em memória da escravatura. Um memorial, ou um museu, ou ambos. Novinho em folha. Tanto dinheiro num país com  tantas necessidades para ninguém visitar. Eu não visitei, porque não tenho paciência para o tema, mas quantos pessoas virão aqui, a este que foi um importante ponto de embarque de escravos para o Brasil?

Bem, agora entender-me com o gordo. Quando é a carrinha para voltar? Ah e tal, lá para as dezasseis. Como é!? São onze e meia. Pois. Nunca saberei se a minha recusa de ficar teve algo a ver com esta atitude, mas na realidade não é relevante. Lá fiquei ali sentado, à sombra. Foram chegando outras pessoas e comecei a duvidar que aquilo das horas fosse a valer.

Mais pessoas. Ao meu lado um jovem que falava português, uma coisa preciosa fora de Bissau. Junta-se mais gente. Um traz um porco dentro de uma saca. Chegam e vão carros que me parecem os que fazem a rota mas a verdade é que ninguém entra. Por fim lá chega um, muitissimo velho, e entramos todos, ficamos bem apertados e de regresso ao Canchungo eu vou.

OK, desta vez verei mais do que a “Paragem”. Tinha feito alguma investigação e recolhido o nome de um Aparthotel que parecia servir. O problema é que colocaram mal a localização no Google Maps e aqui o Ricardo lá andou para trás e para a frente, com a mochila e o imenso calor que se sentia. Foram 2 km da paragem até ao pretenso local do hotel, perguntar, perguntar. Um apontou-me outro hotel, mesmo no cento, com muito mau aspecto. Outros não conheciam. Encontrei um rapaz que sabia onde era, disse-me que podia apanhar um táxi que qualquer um conhecia o Hotel Napalach. Táxi o tanas, ainda para mais agora tinha uma ideia da direcção a tomar.

Lá foram mais uns dois quilómetros, vi uma placa a indicar ohotel mas pelo sim pelo não confirmei comdois camaradas que descansavam ali sobre uma esteira. Calha que eram dois bacanos do… Barreiro. Guineenses sim, mas do Barreiro… fiquei logo ali à conversa, sentei-me na esteira deles, disse que tinha feito tropa lá, na Escola de Fuzileiros, perguntei onde podia ver o futebol mais tarde. Falaram-me  de um salão para o efeito ou então iamos ver lá onde eles estavam a ficar que havia TV com satélite. Combinei ir descobrir o hotel, cuja localização confirmaram, e voltar ali antes das quatro (a hora a que segundo o gordo do Cacheu eu haveria de estar a sair daquele fim de mundo).

Meti por um trilho de terra batida, de poeira batida, aliás, uma espécie de areia fina, que depois alargava. Vizinhança agradável. Junto a um poço um tipo tirava água. Perguntei-lhe se estava a ir bem, responderam outros dois que estavam do lado oposto da estrada. O hotel era já a seguir aquela casa ali.

Cheguei. O preço confirma-se: 5.000 CFA. Wow! Um quarto só para mim! Com casa de banho e, surpresa, electricidade! Que sonho! Gosto! Fico sim! Venho cheio de sede, a senhora que me recebeu manda uma miúda comprar-me duas latas de Fanta e uma garrafa de água.

Vou tomar o banho com a habitual técnica do copo que se usa para nos regarmos de água, descanso, e bem preciso. Bebo aquilo tudo. Canchungo não me agrada muito mas estou capaz de ficar ali dois dias, para recuperar energia e trabalhar.

Lá vou ter com os barreirenses, atrasado e apanho-os de saída. Mandam-me procurar o salão, que depois vão lá ter. Vou até ao centro. Canchungo é um lugar triste, interessante na sua tristeza, com habitantes crispados, mal-humorados, antipáticos.

Andei por ali. Da praça central sai uma rua larga, ao longo da qual há imenso comércio e uma quantidade descomunal de lixo. As pessoas aqui quando vêem uma câmara fotográfica, mesmo que bem baixa, começam logo com desvarios. Fui até lá acima, atrevi-me a tirar fotos à igreja e a uma torre de água, e já a ousadia me custava uma abordagem… o que é está a tirar fotos, etc etc, blah blah, terminado com um “não diga que é português” e a pergunta veio num tom que me fez pensar ser mais aconselhável tornar-me cubano rapidamente.

Não sei se foi um truque ou se a jogada me saiu ao contrário, porque o homem – já com certa idade e um verdadeiro farrapo – se apresentou como antigo comandante português. Ou seja, se fosse verdade, inimigo dos cubanos. Mas a agressividade não subiu e acabou por seguir caminho.

Comprei amendoins, “mankara”, em creoulo. E bananas. E bolos. A uma moça jovem atrevida. Fui estrada acima, comprei yogurtes e leite com banana numa loja de um tipo surrealisticamente antipático, como se me servisse os produtos porque era obrigado por lei e apenas por isso.

Sentei-me a comer amendoins num banco, perto de pilhas de lixo que ardiam enquanto porcos chafurdavam em buscar de algo interessante. Em frente há uma loja de materiais de construção com um branco que parece saído dos anos 70. Um camião de caixa aberta cheio de gente aguarda ainda mais gente para seguir viagem.

Mais à frente uns moços perguntaram se tinha encontrado o que procurava. Disse que sim, mas que agora bom mesmo era poder ver o jogo de bola. Ah mas isso há um salão mesmo ali. Chamarm outro para me indicar e de facto era a uns 20 metros. O salão é um barracão amplo com bancos corridos de madeira como numa igreja e uma enorme televisão, onde está a passar o Besiktas – Porto. Pago 100 CFA para ver. Não imagino como podem compensar qualquer investimento assim, mas por mim tudo bem. Vejo a primeira parte e depois vou-me embora, o jogo estava a correr mal e assim não chegaria depois do cair da noite.

Soube-me muito bem. Até gostei de conhecer o dono daquilo que me veio cobrar a noite, porque a senhora não tinha troco dos meus dez mil. E dormi maravilhosamente! Nem precisei da ventoinha. Além disso, depois de umas cinco o seis, cheguei à conclusão que tinha matado todas as melgas do quarto, que estava protegido por redes mosquiteiras.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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