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África 2017 – Dias 11 a 15 – Cap Skirring

Vir a Cap Skirring não estava de todo nos meus planos. Um local turístico, cuja praia era basicamente a única atracção. Portanto, o estereótipo dos lugares que evito quando ando por aí pelo mundo. Mas dei comigo em Ziguinchor, capital da região potencialmente separatista de Casamance sem sítio para ficar. Os poucos hotéis económicos estavam cheios e tive que pagar 40 Euros para passar a noite. Quase por especial favor, porque tinha havido um cancelamento, e apenas por uma noite.

Era cedo para seguir para Dakar, não tinha grandes ideias sobre o que fazer entre a Gâmbia e a capital do Senegal e também não estava excitado com a ideia de passar mais do que um dia naquele pequeno país.

Houve uma série de astros que se alinharam portanto para me colocar em Cap Skirring. Para além do que indiquei, houve também a descoberta de um simpático lugar para ficar, mesmo em cima da praia, por 15 Euros diários. Reservei duas noites. Logo se veria.

E fiquei. Essas duas e mais duas. Quatro noites que deixam doces memórias, de um tempo pausado, aproveitado para repousar, ouvir o mar, beber cerveja e trabalhar.

Gostei de tudo. Da minha meia cabana, da Internet fiável e rápida, dos jantares servidos de forma personalizada, do proprietário do estabelecimento, do ambiente familiar oferecido por toda a extensa equipa de pessoal.

Nestes quatro dias dei longos passeios pela praia. É um areal amplo, muito plano, banhado por água tépida. São quiómetros quase sem se ver vivalma, apesar de estarmos já na época turística e de ser considerado um dos locais do Senegal para passar férias.

Na realiade, há mais vacas e bois na praia do que humanos. Alguns tentam fazer negócio com os europeus: mostrar o artesanato produzido, divulgar o seu restaurante. Numa só tarde recebi três propostas para fumar ganzas, outras tantas para ir a festas. Enfim, programas sugestivos que são oferecidos sem grande insistência. Os “chatos” aqui são tão pouco chatos que nem se consegue simplesmente ignorá-los. Damos connosco à conversa, e apenas pelo breve instante que é necessário. Depois, deixam-nos, sem problema.

Li muito. Fiz pouco. Trabalhei alguma coisa. Era o que eu precisava depois de quase dez dias de viagem em condições mais precárias, com algum stress em alguns momentos. Em Cap Skirring tudo foi perfeito.

Deliciei-me com as enormes garrafas de cerveja Gazelle, de quase um litro, por 1,50 Eur. Com o jantar, quase sempre de frango (quem me manda não gostar das maravilhas do mar que abundam por ali…).

Aproveitei para lavar as minhas roupinhas de forma mais cuidada,com uma barra de sabão que comprei na  mercearia. Ouvi francês até à exaustão, vi o Valência – Barcelona na TV, segui os resultados da bola em Portugal.

Tornei-me amigo do Papa Vieux, o dono do “encampment” um homem de uns 40 anos e porte imponente que irradia liderança. Na época, proprietário de estabelecimento hoteleiro, fora de época web developer, dividido entre Cap Skirring, Ziguinchor e Dakar.

Foi ele que me contou que aquele local foi o primeiro a servir os turistas em Cap Skirring, construido no terreno comprado pela falecida bisavó nos anos 80.

Descobri a aldeia no terceiro dia. Levantei dinheiro, encontrei um barbeiro, descobri uma padaria, comprei fruta, amendoins, compota, coisas que precisava para encher o estômago entre o pequeno-almoço e o jantar tomado no alojamento.

Como tudo em Cap Skirring a aldeia é simpática. Tem os seus locais para estrangeiros mas ao mesmo tempo todo o ambiente local que se possa desejar. Gostei do supermercado que encontrei à entrada da aldeia e de comprar um saco considerável de amendoins por quase nada. E de escolher as bananas que também pouco custaram.

Regressei satisfeito. Era uns 2 km para cada lado, um passeio que fiz duas vezes. No dia seguinte regressaria, para  descobri que ao meio-dia a praia de aldeia está cheia de vida, quando os barcos voltam da faina. É a loucura, o paraíso do fotógrafo. Ninguém se preocupa que o branco esteja ali de câmara em punho. É uma das coisas que adorei por estas paragens, esta aliança equilibrada entre o Senegal genuíno e a habituação a um turismo não destrutivo que existe na região. As pessoas são simpáticas. Algumas falam-nos educadamente. Poucas nos falam com uma segunda intenção. Outras ignoram-nos sem hostilidade.

Os dias em Cap Skerring foram de facto dias felizes e tenho o local como um sítio a regressar, quando um dia voltar a ter férias de não fazer nada, porque não, ou combinando com uma expedição em África mais cansativa.

O aspecto de Cap Skirring que pode ser mais aborrecido é a região de Casamance se encontrar isolada do norte do Senegal pela Gâmbia. Pode-se ir à volta, sim senhora. São é oitocentos quilómetros, que se farão num dia com muito esforço e esperando um milagre. Senão, é lidar com as autoridades de fronteira da Gâmbia e pagar o visto. É assim: um passaporte tão bom como o português, mas a Gâmbia parece não gostar da extremidade ocidental da Europa. Só há três países europeus cujos cidadãos têm que pagar para visitar o país: Portugal, Espanha e França. 3.000 Dalasi. Mais de 50 Euros.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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