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Argélia 2018 – Dia 5

Segundo e último dia completo em Ghardaia. E a começar tal e qual como o anterior, com o Abdou a chegar cedo de mais e a forçar um despertar em acelerado para o pequeno-almoço.

De manhã íamos visitar Eteouf. Mais uma vez aquele caminho até ao eixo rodoviário principal, um verdadeiro caminho das Arábias que me fascinou e nunca cansou, mesmo depois de ter passado por ele mais de dez vezes.

Em Eteouf, a manobra do costume: parquear e posto de turismo. À entrada da cidadela encontramos um dos homens da associação. Pensava que seria o nosso guia mas depois de transpormos o portão e entrarmos de facto no núcleo histórico entramos no tal posto e aí vejo um homem de muita idade que lê um livro que mantém a uns cinco centímetros dos olhos.

Conversamos um pouco, apresentações e essas coisas básica e pronto, está na hora de irmos à visita. O homem que encontrámos lá fora indica ao que estava a ler que seria ele a vir connosco e esse outro faz um ar surpreendido, como quem diz “ah sou eu!?” e seguimos lá para fora.

O tipo é um figurão. De robe branco, sempre com o capuz colocado, fala de forma dramática, com muitas exclamações, como se estivesse sempre irado, quando na realidade não o está nunca. Semicerra um dos olhos enquanto fala, o que acentua ainda  mais o seu carácter.

Começamos pela praça principal, que nestas cidades se encontra junto à entrada, no nível mais baixo de localidades que sobem colina acima, com a mesquita no topo. Seguimos por um emaranhado de ruas. É uma visita rápida, a mais rápida das três guiadas que fizemos.

O guia fala inglês. Viveu na Alemanha, foi mecânico de aeronaves, deve ter tido uma vida plena, e agora está de volta, a este encantador fim de mundo. Conta-nos a história de Cristiano Ronaldo, sem revelar que é dele que está a falar até chegar ao fim, e foi engraçado porque de facto não entendi até ele dizer, apesar de conhecer o seu percurso.

Devo dizer que das quatro visitas às aldeias históricas do vale esta foi a que gostei menos. A personalidade do guia mexeu um pouco com a experiência. Não é que fosse mau, mas os outros eram melhores. E foi tudo muito depressa… vai acima, vai abaixo, e está acabado. Basicamente caminhámos desde a praça até à zona da mesquita e depois para baixo, só com uma paragem.

Dali fomos até um ponto alto, onde tínhamos estado na véspera, mas onde é preciso ir de manhã para melhor se aproveitar o potencial fotográfico. Tem a ver com a posição do sol, que não pode estar por detrás. Dali se avista toda a cidade, e é uma visão maravilhosa. Ao pôr-de-sol também, mas por essa hora apenas os nossos olhos conseguem lidar com a luz, a câmara nem por isso.

A seguir fomos a casa. De caminho o Abdou lembrou-se de algo, daquelas coisas que ele faz sem parar, matutar como entreter melhor e oferecer os melhores momentos aos seus convidados. De facto ficar com este tipo foi uma imensa mais valia para a experiência de visitar Ghardaia.

Portanto, dizia eu, parou o carro, disse para esperarmos, desapareceu para voltar a reaparecer e dizer que tinha uma coisa que podia ser interessante para vermos. E a coisa interessante era um curral de cabras cheio de animais simpáticos e curiosos. O dono trabalhava ali sozinho. Tratava de tudo. As tarefas eram tantas que nem tinha tempo para fazer queijo. Só tirar o leite e tratar das cabrinhas.

Depois desta paragem, digamos, fora de comum, fomos almoçar. O Abdou tinha encomendado um prato especial, feito apenas para nós em casa e servido na mesa de uma pastelaria que coisas deliciosas. Mais uma refeição fabulosa, depois de uma longa e muito justificada espera. É o preço a pagar pela comida de qualidade, verdadeiramente caseira.

Enquanto esperávamos íamos bebendo copos de uma deliciosa bebida refrescante feita a partir de uma selecção de ervas. Por fim veio. Uma coisa fabulosa, uma espécie de lasanha, se precisar de comparar com algo conhecido. Ou de duas pizzas muito finas com camadas de recheio em cada uma delas. É ver a imagem acima. O gosto, esse, é impossível de descrever com palavras mas fica a garantia que era soberbo!

Depois de me empanturrar com aquilo comprámos bolos para sobremesa e já a pensar também na ceia e pagámos. O preço foi mais uma vez surreal. Acho que por tudo aquilo deu uns 3 Euros a cada um.

Estava na hora da soneca da tarde. O Abdou conduziu-nos a casa e desapareceu para a sua própria soneca, com a promessa de voltar mais tarde para nos levar à última visita guiada desta passagem pelo Vale de M’Zab. Os dias de Ghardaia estavam a chegar ao fim. Foram apenas dois, mas muito intensos. Contudo, para o fim estava guardado o melhor bocado.

Estacionámos mesmo junto aos portões de Béni-Isguen. A cidade de Abdou. Entrámos e, logo ali do lado direito, estava o posto de turismo. O guia não tinha ainda chegado. O Abdou tinha que ir a casa e ficámos ali sentados, à espera.

Veio o guia mas não o Abdou. Íamos iniciar o passeio quando chegam duas francesas que educadamente tentam “roubar” a nossa visita em termos linguísticos mas o guia, fiel ao combinado, e depois de nos perguntar se falávamos francês, se manteve intransigente: a visita naquele dia era em inglês. Depois chega mais uma moça, que vim a saber trabalhar na embaixada austríaca em Argel e como tal vinha com um guarda-costas da polícia argelina. Juntou-se-nos. E enfim, o Abdou regressou. Estava formado o grupo para partir à descoberta de Béni-Isguen.

Depois de passarmos por um par de vielas chegamos a uma praça onde está a decorrer um mercado. Um mercado de velharias. Fabuloso! Só lamento não ter podido captar imagens de tudo aquilo. A praça do mercado está rodeado de casas, algumas com arcadas, e em frente dessas fachadas sentam-se homens que observam.

As estrangeiras tentam obter autorização deles para os fotografar, mas os homens afastam-se como que empurrados por uma força magnética.

Ouvimos as explicações do guia. Este será de longe o melhor guia dos três. Jovem e educado, fala um inglês fluente, é uma fonte de conhecimentos e dá imenso gosto ouvi-lo e conversar com ele. É o director da associação, da comunidade. O mercado funciona em sistema de leilão, os bens expostos são tão interessantes como o conjunto do evento.

Subimos um pouco, vamos evoluindo pelas ruas que trepam pela colina. O grupo é bom, gente simpática e interessada, acho que todos gostámos, incluindo o próprio guia.

Ele tem muito para nos explica. Fala da comunidade Mzabita, da cidade, dos costumes, da arquitectura, dos pequenos detalhes. Fala de muita coisa, até das razões que levam as pessoas ali a ter horror a fotografias: parece que antes da Guerra Civil, quando vinham muitos turistas, as pessoas perceberam que as imagens que lhes tiravam eram expostas publicamente e era isso que as horrorizava.

Chegamos ao topo. Há uma praça onde decorre uma partida de futebol. Está tudo óptimo! A luz, a  temperatura, o céu azul pintalgado de nuvens, o charme misterioso do local, a boa companhia e excelência do guia.

Ali subimos ao alto da torre mais elevada. São vários lances de escadas e de lá de cima a vista é uma loucura. Avista-se toda a cidade que nos envolve e, mais perto de nós, as ruazinhas da cidadela, os rapazes que jogam futebol. Num amplo terreiro um pouco mais afastado dois meninos brincam também com uma bola. São três pontinhos no espaço, temperados com a luz dourada do sol que se vai deitando.

Daquela torre parece avistar-se o mundo e vou rodando, vendo em todas as direcções. É tempo para descontrair, para conversar relaxadamente, colocar mais perguntas ao guia, brincar um pouco.

Vimos para baixo. O jogo de bola já acabou. Descemos calmamente, sempre falando animadamente. Havemos ainda de ver o pequeno museu instalado na própria casa do posto de turismo, uma colecção muito interessante, integralmente doada pelos elementos da comunidade.

Foi mesmo fechar com chave de ouro esta visita pela zona de Ghardaia! A noite começa a cair. Vamos beber um chá na ampla esplanada que existe às portas da cidade. Ali perto, num amplo espaço, um mar de carrinhas aguarda já pela manhã: será o grande mercado. Pela montanha acima há grupos de pessoas que trepam para ver o pôr-do-sol.

Preparamos o regresso a casa. O Abdou pára a carrinha próximo de casa dele e vai buscar o jantar, encomendado à esposa que, claro, nunca conheceremos.

No espaço exterior da casa o Salah está a petiscar com um grupo de amigos que saudamos de longe. Entramos. Passado um bocado os outros dispersam e o Salah junta-se a nós. Por essa altura já tínhamos jantado, a massa preparada com molho de tâmaras que degustámos de forma comunal, a partir de uma só tigela.

Aparece um amigo deles, também Couchsurfer, com excelente inglês, que trabalha num hotel, no maior hotel da região. Passa-se um serão muito agradável, a beber chá, preparado da forma tradicional. É a última noite. No dia seguinte ainda de madrugada iremos para o aeroporto, em direcção à próxima paragem: Constantine.

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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