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Canárias 2010: 18 de Janeiro, Fuertventura

 

Para este dia estava guardado o prato maior: Cofete, quase na extremidade sul da ilha. Era o plano para a véspera, adiado pela hora adiantada a que nos conseguimos pôr a caminho. Mas comecemos pelo início, com uma paragem inesperada nas salinas de… Las Salinas. Trata-se de um complexo de extracção de sal ainda em funcionamento, que alberga um museu sobre essa actividade que se pode visitar. Para grande surpresa, descobrimos que seria necessário pagar um bilhete para entrar no recinto das salinas, apenas do museu se encontrar num edifício lá num cantinho. Ora pagar bilhetes, tirando casos muito excepcionais, é, por assim dizer, contra a minha religião. Então vai de andar em redor, para ver do exterior e tirar umas fotografias. E de tanto andar (na realidade apenas uns 150 metros) descobrimos que a vedação apenas cobre parte do recinto. Nem queria acreditar no que estava a ver. É possível entrar no recinto sem pagar bilhete, e de forma perfeitamente lícita. Nada de avisos ou barreiras. Está pura e simplesmente aberto para quem quiser entrar. E assim foi. Atravessámos o espaço até chegar ao ponto onde se encontra exposto, suspenso sobre uma estrutura, o esqueleto de uma baleia que deu à costa há algum tempo. O Tibor já nos tinha falado desta situação, mas tinhamo-nos esquecido e de qualquer modo não fazíamos ideia que era aqui que se encontravam os restos mortais do animal. Nas salinas uma pequena equipa de trabalhadores exercia o ofício, e fomo-nos retirando pelo mesmo ponto por onde entrámos.

 

 

Conduzi sem parar até à localidade de Costa Calma. A estrada é ampla, nem asfaltada. Dá gosto. Considerando que é o principal eixo turístico, que permite ao caudal de turistas, sobretudo alemães, que chega ao aeroporto e pretende atingir os complexos do sudoeste da ilha, não é de espantar que seja a via mais privilegiada de rede rodoviária de Fuerteventura.

Gostei de Costa Calma. É um espaço puramente dedicado aos turistas, sem qualquer vida nativa. Mas está bem arranjado, com gosto. Muitas palmeiras e um ambiente agradável. Dentro do género, do melhor que se pode ver por esse mundo fora.

Logo depois inicia-se um trecho de auto-estrada que conduz até Morro de Jable, uma cidade artificial, construída de raiz para albergar os visitantes. Sai da via rápida assim que pude. Queria dar uma vista de olhos à costa, e desenvecilhar-me daquele espartilho de modernidade era imperioso. Encontrei uma saída, conduzi uns quilómetros mais e dei por mim num local com uma vista fabulosa sobre as praias de águas transparentes, lá em baixo, onde um número razoável de banhistas gozava do clima único que se fazia sentir. Tempo de Verão no Inverno não é para todos. Ali mesmo à beira, o testemunho de que nem tudo é ouro na indústria hoteleira: um enorme complexo jaz abandonado, morto antes de nascer, meros vultos de betão armado que certamente fariam as delícias de muitos, não tivesse algo corrido mal.

 

 

Fomos até lá abaixo à praia. Havia uma geocache para ser encontrada, o que não se revelou nada simples. Estaria escondida a meia encosta, mas a zona era pedregosa e muitos eram os esconderijos possíveis; para agravar as coisas, os esquilos habitavam aquelas paragens, e meter a mão em buracos entre as rochas não era nada convidativo. Aqueles roedores têm dentes afiados e não gostam nada de invasões domiciliárias. Heis que se não quando uma figura bizarra começa a fazer-nos gestos a partir da praia. Parecia indicar-nos a localização do que procurávamos, e ficou satisfeito quando nos detivemos junto a uma rocha de dimensões consideráveis. Era um local onde já havia procurado sumariamente e hesitei um pouco. Ora então começa a sinalizar que deveria enfiar o braço bem lá para dentro. E eu nada convencido, já a imaginar a cabeça de um dedo arrancada à dentada. Mas lá arrisquei, e a recompensa foi imediata. Ao abandonar o local a mesma figura chama-nos freneticamente. Ok… é justo… depois de uma ajuda preciosa podemos dar dois dedos de conversa. Só que a figura era um turista alemão que ali estava com a esposa… tal como vieram ao mundo. E curiosos como tudo sobre aquelas actividades de volta das pedras. Sobre a nudez, nada a assinalar. Em Fuerteventura é aceite como normal a práctica do nudismo em qualquer praia. Lá explicámos o que era o Geocaching, uma ideia que despertou aceso interesse por parte do inesperado ajudante. É que todos os dias iam para aquele ponto da praia e assistiam às andanças encosta acima, de forma que a curiosidade ia crescendo. Coube-nos a nós saciá-la.

 


 

Antes da grande aventura houve ainda tempo para se subir a um ponto alto, de onde se pode ver a globalidade de Morro de Jable. Devo contudo reconhecer que a ideia que se tem não faz jus à realidade. Lá de cima parece um mero conjunto de empreendimentos, mas depois, ao atravessá-lo, o espaço ganha outras dimensões, assume contornos de cidade. Como em todos os locais que visitámos encontramos um perfeito balanço no número de gentes. Animação quanto baste, sem uma multidão em todo o lado.

 

 

Acaba Morro de Jable e acaba a estrada. É agora. Nas Canárias, quando se aluga um carro, consta no contracto que não se pode deixar o asfalto. Claro que se o fizermos não cai o Carmo e a Trindade nem mandam a polícia atrás de nós. Agora, claro, se as coisas derem para o torto, não há seguro para ninguém. Uma avaria? O reboque é por nossa conta e é melhor que nem comentemos nada com a empresa de alugueres. Uma batida? Ai é que estamos fritos. Fica tudo por nossa conta. E depois há sempre os pequenos inconvenientes, como um pneu furado, que tendem a acontecer quando se roda em terra batida. Portanto, abandonar o asfalto é sempre um risco, e o coração parece que bate mais depressa quando descemos uma rampa de terra batida até uma praia. Só que para se ir a Cofete, não são umas centenas de metros “off-road” mas sim uns 17 km em estradas de terra batida! Ai desgraça, se algo corre mal… mas é impossível resistir. Eu sabia que teria que desafiar a sorte e levar o carro por aquele caminho. Antes da viagem tinha andado a inquirir, por fóruns de viajantes na Internet. A maioria das pessoas disse que era loucura, que a estrada era miserável, perigosa mesmo. Li do piorio sobre esta minha presunção, mas também aprendi que havia muitos turistas a fazer o trajecto em carros alugados. E fiz aquilo que sabia que iria acontecer: fui.

 

 

Com esta situação consolidei uma lição que já tinha aprendido: não confiar em testemunhos de turistas. Geralmente são marcados pela cultura do medo e da complicação. É para esquecer. As estradas de terra batida são quase auto-estradas. Fazem-se com a maior das facilidades, em velocidade de cruzeiro, e a utilização de um veículo 4×4, como tantos sugeriram ser essencial, é perfeitamente leviana. Qualquer ligeiro ultrapassa aqueles percursos, muitas vezes em terceira e até em quarta velocidade. é impossível surgir um problema causado pela natureza do terreno, o que não anula a possibilidade de um incidente casual, que tanto poderá suceder ali como no asfalto.

 

 

Os primeiros quilómetros são em terras planas, mas com muitas curvas. Do lado do mar estende-se um manto estranhamente verde, cor rara em Fuerteventura, que parece transportar-nos para terras da Irlanda. No oceano um veleiro navega, calmamente, visível durante muito tempo. Há uma quantidade de tráfego enorme, em ambos os sentidos. A poeira levanta-se e mal tem tempo de assentar antes da passagem de outro veículo. É melhor manter os vidros fechados. À beira da estrada encontramos uma ou outra casa ao abandono, talvez quintas de outros tempos que agora ostentam “graffitis” nas suas paredes. Penso nas histórias que aquelas construções teriam para contar, se falassem… e se alguém parasse para dois dedos de conversa.

 

 

Chegamos a uma bifurcação. Para a esquerda, Puerto de La Cruz, o fim da ilha, o seu extremo remoto. Para cima e para a direita, Cofete, o nosso destino. Sinto um receio expectante, porque me disseram que daqui para a frente é que era a doer. Mas não. Há uma primeira rampa com solo mais solto, mas logo a qualidade do piso volta aos padrões de qualidade que tinha apresentando até então. Agora é sempre a subir. Passamos por 3 ou 4 alemãs (suponho eu, considerando o monopólio que o mercado alemão tem nestas paragens) que caminham vestidas quase a rigor, no meio do nada. Desconcertante. E então chegamos. Não a Cofete, que para tal ainda faltam 7 ou 8 km. Mas ao topo da montanha. Daí em diante será a descer, mas tudo perde relevância diante da vista que se nos oferece naquele ponto.

 

 

A costa de Cofete estende-se a perder de vista, até onde os olhos alcançam. As vagas alterosas fustigam a praia, num ataque constante. E atrás, uma quase vertical parede de rocha, a subir, a subir muito, intransponível para quem por aquele lado pretender chegar ao oceano. Estamos no céu. Encontrei o segundo lugar mais belo que já vi na vida. É ali. No alto, antes de se descer para o lugarejo de Cofete. Poderia ficar horas a olhar, a absorver cada ponto daquele panorama, mas caio em mim e, apercebendo-me que o tempo não pára, forço-me a reentrar no carro.

 

 

Todo o caminho descendente é deslumbrante. Porque há medida que os quilómetros passam, a perspectiva e o sentido de escala vão-se alterando. Cada vez mais baixo, o mar vai ganhando forma e os casebres tornam-se visíveis. Chegamos a Cofete, mas passo ao largo, decidido a chegar à vila Winters, um par de quilómetros mais à frente. Esta misteriosa vivenda, de grandes dimensões, terá sido construida por um alemão, o senhor Winters, nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. Aparentemente este homem pretendia iniciar uma cultura de vinha naquela parte da ilha, mas poucos acreditam que esse projecto não fosse uma fachada para algo mais: existem sinais claros de que Winters foi na realidade um agente alemão, e que, a partir daquela posição remota, oferecia apoio aos submarinos que sulcavam as águas. Existem algumas teorias mais rebuscadas, que passam pela existência de submarinos ainda hoje escondidos nos canais subterrâneos abertos pela lava, ou pela utilização da vila Winters após a guerra, como ponto de passagem de fugitivos nazis em direcção à América do Sul. Contam-se imensas histórias, umas mais plausíveis do que outras, mas parece ser consensual que algo de extraordinário se passava ali. E não é complicado imaginar um submarino a emergir naquelas águas, depois, um pequeno bote a vir a terra. As gentes de Cofete a manter o segredo, fiéis ao seu patrono e empregador. Que tão popular era junto daquela comunidade que hoje tem uma pequena estátua junto às casas que ainda são habitadas.

 

 

Ainda pensei conseguir o pleno e conduzir o carro mesmo até à vivenda, mas desisti. Não que não fosse fisicamente possível, mas achei melhor não brincar com a sorte, porque o caminho era de facto complicado, com alguns regos fundos e muita pedra solta. Há quem o faça contudo. De qualquer modo, de onde desisti até à casa foi uma caminhada curta e fácil. Aparentemente existe um caseiro que a troco de algumas moedas está disposto a mostrar o interior da misteriosa habitação, mas se é verdade, naquele dia não se deixou mostrar. De forma que nos limitámos a contornar o edifício, observando detalhes e imaginando o que ali se terá passado e quem terá pisado aquelas mesmas pedras.

Depois, foi regressar a Cofete e experimentar o café-restaurante local. Tão castiço, mesmo considerando que talvez a maioria dos seus clientes são turistas. Não perdeu contudo a identidade e mantém o carácter genuíno, a atmosfera familiar. Sentámo-nos um pouco na esplanada, a pensar que gentes viveriam ali e porque se manteriam num local tão remoto.

 

 

A viagem de regresso fez-se sem incidentes. Tive que parar uma vez mais no alto, para me despedir de coração daquela costa tão bela como nunca vi nenhuma. Depois, o longo percurso em terra batida, tecnicamente simples mas fisicamente cansativo. Abastecemos de gasolina em Costa Calma, e vi o pôr-de-sol num local mágico, encontrado graças a uma “cache”, perto de um empreendimento que poderá encontrar no Google Earth sob o nome Los Verdes.

Antes de chegar a casa, já noite feita, houve ainda tempo e vontade para uma breve incursão a uma área turística, a sul do aeroporto, não muito longe de Puerto del Rosario. Caminhámos num simpático passadiço junto à praia. O serão estava perfeito. Uma ou outra pessoa andava por ali, a passear os seus cães. Experimentámos andar brevemente pela areia, e procurámos o abrigo de um daqueles engraçados círculos feitos de pedras que protegem os veraneantes da “fuerte ventura” que deu o nome à ilha. Depois, metemos ainda o nariz numa marina, pequena mas jeitosa; um restaurante com uma bela esplanada estava meio cheio. Sentia-se alegria e animação. O grelhador estava repleto de peixe a assar sobre as brasas. E, por fim, a última aventura antes do regresso a casa: mais um passeio junto ao mar, que, à luz do luar, nos mostrou uma lagoa natural entre as rochas. Estamos em Janeiro e estes percursos têm pessoas, caminhando como se se tratasse de uma cálida noite de Agosto… que é o que parece ser.

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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