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Cuba 2014 – Dia 0 – Portugal

Como um filho da geração da Guerra Fria, Cuba ocupa um belo espaço no meu imaginário. Até há uns anos, era apenas um país distante com uma história curiosa, liderado nas últimas décadas por um bando de barbudos meio-loucos que colocaram os soldados da sua terra em rota de colisão com os meus patrícios lá pelas planícies de Angola. Cuba evoca-me aquele momento em que o Planeta se acercou mais de uma auto-extinção absurda, evitada in extremis por Kennedy e Krutschev.

Mas isso tudo foi há já muitos anos, e nos tempos mais recentes, tendo-me tornado viajante, cada pensamento dedicado a Cuba tem acabado invariavelmente numa preocupação muito egoista: tenho que visitar um dos países mais bizarros do mundo antes que deixe de o ser. Ávido de experiências diferentes e ansioso por conhecer o mundo tal como me viu crescer, sentia uma premência por atravessar o Atlântico e dizer olá aos tais barbudos. Só que o desejo era barrado por quantos obstáculos: e coragem para me manter sentado na mesma cadeira durante mais de dez horas a fio? E o nervo para me aventurar numa terra que me foi pintada como habitada por ogres fumadores de charuto, controlada por uma temível polícia política disposta a manter a ilha limpa de estrangeiros imperialistas (ou seja, como ocidental, euzinho)? E dinheiro para tudo isto, viagem transatlântica, deslocações por lá, estadias?

Um por um estes problemas foram-se resolvendo por si. O primeiro será ainda o mais complicado… até hoje o voo mais longo que fiz levou seis horas, e não custou muito. Mesmo sendo seguido de um outro de igual duração que completou a minha viagem da Europa para a Indochina, via Abu Dhabi. Mas não custou. Só que seis horas é uma coisa, e dez e tal são outra. Não vou certamente morrer desta, mas será duro, vou passar um mau bocado. Que se lixe. Viver não é simples, e há quem tenha passado por muito pior. Antes quarenta ou cinquenta horas num avião que nas trincheiras das Flandres ou num Guilege cercado. Quanto ao segundo, nos dias que correm, tanto me faz como se me deu. Já ganhei estaleca suficiente para não me atemorizar com uma travessia improvisada de Cuba… inspirado por um amigo que o fez há uns anos, mais esclarecido quanto ao que é a realidade cubana, estou à vontade. Quanto ao dinheiro, olhem, ai está um problema muito justo. Na realidade, enquanto o Verão se retirava para parte incerta, debatia-me com o doce problema de decidir onde ir na viagem maior da parte final do ano. Em cima da mesa, quatro hipóteses: São Tomé e Principe, outra vez; Istanbul e Curdistão, também numa repetição; a Tunísia, por nunca ter lá estado e pela oportunidade financeira (com 300 Eur fazia quinze dias de viagem, incluindo TUDO)… e, lá está a tentadora Cuba, simplesmente porque queria muito ir.

Ironicamente a hipótese Cuba foi a primeira a ser colocada de lado, porque o gasto seria superior ao que podia suportar. E então, de repente, trás, uma oportunidade, daquelas que o Cruzamundos costuma partilhar com os leitores: Havana por 550 Eur a partir de Lisboa. Foi no dia 18 de Setembro e ficou logo decidido. No espaço de algumas horas estava tudo tratado. Viagens compradas com a Virgin Atlantic. Saída a 10 de Dezembro, regresso a 25… dia de Natal, uma consoada passada a sobrevoar o Atlântico.

books-guantanamoCom a decisão chegou o início da preparação. Buena Vista Social Club passou a ser a música de serviço aqui por casa. Em termos de livros regressou-se a Slow Train to Guantanamo: A Rail Odyssey Through Cuba in the Last Days of the Castros (analisado pelo Cruzamundos aqui), leu-se Before Fidel: The Cuba I Remember e Cuba Diaries: An American Housewife in Havana. Viu-se Buena Vista Social Club (1999) de Wim Wenders e o mal-amado mas muito atmosférico Havana (1990), com Robert Redford e Lena Olin.

Trabalhou-se muito com o Google Earth, marcando pontos: tascas a experimentar, locais a ver, as estações de autocarros e outros transportes… em Cuba não se pode entrar sem um GPS devidamente autorizado pela máquina burocrática, por isso toda a navegação e orientação terá que ser feita pelos faliveis e problemáticos equipamentos móveis (telemovel, tablet).  Para selecionar e detectar estes pontos fez-se uso de dois guias: The Rough Guide to Cuba e Frommer’s Cuba.

À falta de um website oficial do turismo de Cuba, consultou-se o Cuba Junky, as páginas de Cuba no Wikitravel. Para encontrar alojamento (saio de Portugal com “reservas” feitas para Havana e Trinidade, o que equivale a pouco menos da estadia… o resto há-de se improvisar por lá… e coloco “reservas” entre aspas porque é comum o overbooking e quando o viajante chega está tudo ocupado). Assim, se tudo correr bem, os meus dias de Havana serão passados na Casa Blanca  (de lá deverá um carro esperar-me no aeroporto… dedos cruzados), situada na avenida marginal, o Malécon. Quanto a Trinidad, parece estar tudo tratado para ficar na Casa Arcangel.

Resta dizer que os vistos foram tratados sem problemas na embaixada de Cuba em Lisboa, localizada no Restelo, mesmo por cima do estádio. Foi chegar lá com 22 Eur, pagar, e receber o documento, que não é bem um visto. Estes são colocados numa folha do passaporte, enquanto no caso de Cuba é-nos dado um cartão de turista que devemos apresentar à chegada.

Update: nos últimos dias deitei a mão a um livro que se revelou fabuloso. Caiu-me em cima como um milagre, uma coincidência incrivel, comecei a ler na base do “porque não?” e afinal revelou-se um dos melhores livros de viagem que já me passou pela vista, e que terá uma critica detalhada em breve: Expedições Urbanas – Havana, por Airton Ortiz, um jornalista brasileiro.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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3 comentários

  1. Fez-se História na sua estadia em Cuba.

    • Pois fez. Mas atenção que me dá a ideia que se deu muito mais importância à situação por cá do que em Cuba. Lá, onde por algumas vezes comprei o jornal Granma, o órgão do Partido Comunista de Cuba, logo, do Governo, falou-se da libertação dos três agentes cubanos que ainda estavam detidos, mas do resto apenas uma referência entusiasmada mas vaga. Mas quando cheguei a Portugal logo algumas pessoas me falaram do assunto, pelo que assumo que tenha tido bastante destaque.

  2. Olá .. fico a aguardar por noticias sobre promenores da viagem! =) Interessa-me bastante.. espero que tenha corrido tudo bem…

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