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Cuba 2014 – Dia 7 – Trinidad

17 de Dezembro

Muito cedinho, ainda antes das seis e meia, já estávamos na rua. Afinal aquela curta amostra de Trinidad, na véspera, tinha despertado o apetite. Escrever sobre esta localidade é dificil. As palavras têm dificuldades em acompanhar a côr, o ambiente, a novidade. Vai parecer estranho mas aqui vai: Trinidad faz-me lembrar Hoi An, no Vietnam. A estas pérolas que se encontram em alguns países costumo descrever como “uma Sintra deles”. Cidadezinhas muito bonitas, bandeira de mostra, de alguma forma túristicas mas não destruidas pelos estrangeiros. Tal como em Hoi An, em Trinidad coabitam dois universos, em perfeita harmonia. Há turismo, mas o carácter local mantém-se. Existem lojas de souvenirs ao lado de tabernas muito locais. Cubanos divertem-se tocando uma guitarrada na rua, e no quarteirão seguinte um quarteto de músicos actua para estrangeiros que lhes vão depositando moedas num chapéu. Num quarteirão encontramos uma concentração de pictorescos restaurantes com preços em CUC’s, no seguinte as ruas estão enlameadas e um agricultor de botas de borracha salta para o seu tractor.

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Sem GPS, sem um mapa, não sei por onde ir. A decisão é aleatória. Por ali. Logo se verá onde vamos ter. Estamos na parte mais central, logo, mais turística, mas não são precisos mais de cinco minutos a andar para entrar numa outra Trinidad, também ela vistosa, com as casas pintadas de côres garridas, com a serra tropical a servir de pano de fundo. É um momento importante. Compreendo que é assim que mantenho a América Latina, toda ela, no meu imaginário. Uma pobreza controlada, um carácter rural, montantas por detrás da malha urbana rústica, toda ela muito colorida. Falta ali uma torre sineira, mas é só porque estou a caminhar na direcção errada.

Aquela hora a rua está deserta. Um homem caminha, um pouco mais depressa. Mete conversa conosco. Nestor é o seu nome e não quer nada, apenas meter conversa. Fala português, está ligado ao Brasil onde tem amigos e onde às vezes vai de férias. Sim, há cubanos que vão de férias, como qualquer pessoa. Anda ao nosso lado umas dezenas de metros e depois despede-se e arranca, num passo mais rápido, apressado.

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Acabamos por ir ter a uma espécie de praça onde se erguem três cruzes. Mais tarde o Miguel explicar-nos-á que marcam o fim da procissão, que segue as cruzes pela cidadezinha. Sim, faz sentido. Há de facto cruzes espalhadas, muito fotogénicas. Ali encontramos um mapa do tipo “You Are Here”. Bem, estamos na ponta de Trinidad, não há como ir mais longe sem sair da localidade. Já deixámos a área histórica para trás. Há uma regra simples para saber se estamos no centro preservado: se o piso da estrada for calçada, estamos. Senão, não. Por outro lado, nessa área – considerada Património Mundial pela UNESCO – o trânsito é controlado, todas as ruas excepto duas (creio) estão barradas, e onde há acesso encontra-se um guarda a verificar as credenciais dos carros que pretendem entrar.

Aquela parte da cidade está-nos a agradar. É uma espécie de subúrbio, à escala rural, localizada na periferia na Trinidad de bonecas para turista ver. Já as pessoas se animam para um novo dia, as ruas estão plenas de vitalidade. Se pensei em Cienfuegos como uma incursão à ruralidade cubana, então aqui subi outro degrau nesta caminhada. Infelizmente nesta viagem não houve oportunidade de continuar para leste até chegar ao que os cubanos chamam O Oriente, a extremidade da ilha, dominada por Santiago. Ai sim vive-se num outro ritmo, quase num outro tempo. Mas para já em Trinidad viamos cavaleiros a fazer lembrar gaúchos, tractores, cabras, camponeses. É uma pequena cidade com sabor a aldeia.

Com facilidade chegámos a outra das margens da malha urbana. Sentia-se o cheiro a campo. Um homem aparelhava o seu cavalo. Os negócios aqui são outros: em vez de casas particulares ou táxis temos que declinar várias propostas para passeios montados pelas serranias. Atingimos um ponto em que já não há cidade. Dali para a frente só campo, um trilho que se interna no verde. E lá em baixo, um vale que se perde até às montanhas, bem longe, no horizonte. Voltemos para trás.

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Nestes quarteirões residenciais cada rua encerrava surpresas. Portas coloridas, tascas animadas, pessoas pictorescas, viaturas únicas. Andámos por ali, errantes, até se aproximar a hora do pequeno-almoço. Sim, porque nesta “casa particular” a primeira refeição do dia está incluida nos 30 CUC acordados. E com todo o requinte, com um menú talhado ao perfil do hóspede. Na véspera foi combinada a ementa, numa conversa ligeira sobre o que gostávamos e não gostávamos… ficou acertado um autêntico banquete, e não desilidiu.

Às oito e meia estávamos de volta para o deasayuno. Foi a primeira de muitas vezes que chegámos a casa com a luz do dia a encher de alegria aquelas ruas fabulosas. Tudo é muito informal e enquanto o sol brilha a casa está aberta, não se passa nada. Entramos e saímos sem precisar de uma chave, sem sequer necessitar de tocar na porta. Subimos ao terraço, passamos pela cozinha, eventualmente encontrando o Miguel ou a mãe, ou mais alguém que por ali sempre andava, todos amigáveis e simpáticos.

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Na mesa estava um jarro enorme com sumo de goiaba acabado de espremer, leite, yogurte caseiro, manteiga, pão, omelete, queijo, chá, frutas. Uma maravilha. Precisava de reintroduzir frutas e lactícineos na minha dieta, e nos dias que passámos aqui esta hora era sempre aguardada com ansiedade.

Terminada a refeição fomos para cima, para o encantador terraço, estudar o mapa que o Miguel nos deu e as indicações dos guias. Decidimos considerar a possibilidade de ir amanhã numa viagem de comboio ate ao Valle dos Ingenios. O vale dos Engenhos. Uma planície que fez a fortuna de Trinidad, com uma exploração intensiva de açucar. Gostava mesmo de ir num comboio local, mas ninguém sabe nada sobre tal coisa. Apenas sobre um comboio para turistas que sai todos os dias pelas nove da manhã, regressando depois do almoço. Os bilhetes podem ser comprados na agéndia de viagens estatal Cubatur, que é aliás quem cumpre o papel de informação turística no país. Pois então veremos isso. E também temos que trocar o resto do dinheiro. Os pontos foram identificados no mapa.

Por esta altura já percebemos que podemos usufruir de Trinidad com toda a calma. Não ficará nada por ver e mesmo ao fim de umas horas de caminhada matinal grande parte da localidade foi visitada. Debatemos o nosso próximo passo… vamos a Sancti Spiritus ou encurtamos o percurso e seguimos directamente para Santa Clara? A favor de Sancti Spiritus: mais um local visitado. Contra: poupar 6 Eur, não termos uma casa particular reservada ou referenciada, ficarmos mais distantes de Havana, ganharmos um dia para disfrutar da nossa querida Havana. Decidiremos mais tarde, na véspera de deixar Trinidad.

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Ficámos um bocado na ronha, a usufruir do terraço. Leio umas páginas de O Nosso Homem em Havana. Mais um dia magnífico, de céu muito azul, temperado com uma ou outra núvem a quebrar a monotonia cromática. Decidimos começar a próxima exploração com uma incursão à igreja abandonada que se vê no alto de uma colina numa das orlas da localidade. Lei no guia que existe um trilho que de lá leva a um pico que oferece excelentes vistas sobre Trinidad.

A igreja alcançamos, mas está vedada, a propriedade serve de estaleiro de construção civil. E não conseguimos perceber como encontrar o tal trilho de forma que voltamos para trás. Vamos então ao Museu Romântico, localizado mesmo no centro. É uma casa apalaçada de uma das grandes familias que fizeram fortuna com as plantações de cana de açucar, transformada em museu. Apesar da colecção parecer coerente as peças foram trazidas de diversas residências locais, dispostas depois nas diversas salas do palacete. O bilhete custa 3 CUC + 1 CUC para fotografar. Não sei se vale. Os museus em Cuba não são grande coisa, e este é como os outros. Tem algum interesse passear pelas salas e ver os objectos e as mobílias, mas creio que é uma visita dispensável. Ainda por cima as senhoras que cuidam do espaço andam de volta de nós, assumindo o papel não solicitado de guias, procurando a gorjeta ou a venda de panos de rendas que têm guardados.

O que eu queria era encontrar o local de onde poderia tirar uma foto muito especial, a mais usada de Trinidade, que faz capas de livros e guias turísticos. Deveria ser do topo de uma torre e tive esperança que fosse aqui no Museu Romântico. Mas passei por todo o lado e nada… mesmo do andar cimeiro, de onde se obtinha uns ângulos interessantes, tornava-se evidente que teria que  procurar noutro lado. E foi então que a vi, a tal torre, com umas figurinhas pequenas – pessoas ao longe – no topo. Perguntei a uma senhora o que era aquilo. A torre do Museu da Cidade. Então é ali que quero ir.

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Encontrei-o sem dificuldade, mesmo ali no centro, com a sua alta torre a servir-me de farol. O preço era o mesmo. Pereparei as moedas, entreguei-as à senhora que olhou para mim com uma expressão estranha. “Pensei que eras cubano”, disse-me. Pois é. Podia ter-me esgueirado para uma visita virtualmente gratuita. Paciência. O museu tem um interesse muito, mas mesmo muito limitado. Mais umas salas com mobilias antigas, umas exposições de todo desinteressantes… mas a torre, isso sim, era aquilo. Consegui! E logo num dia assim, com uma luz perfeita. Ver fotografia acima.

Como quem não quer a coisa o calor tem-se vindo a intensificar. Já não é só aquela hora do pico do dia. Não, está mesmo calor. Sua-se. E foi assim que fomos andando até à casa de câmbio. Encerrada. Abre daqui a bocado. Pois seja, mais uma voltinha. Fomos à segunda praça da cidade, onde se encontra a Câmara Municipal. Há ali alguns motivos de interesse. Por exemplo, um clube de xadrez, que parece estar sempre cheio, onde homens de todas as idades, mas especialmente os mais velhos, disputam partidas a rigor, com relógio e tudo. E vendedores de rua, servindo gelados, churros e doces. Há também o hotel mais luxuoso, o único local na cidade onde existe Internet por Wi-Fi – mas só para clientes. E a loja da empresa de telecomunicações cubana, uma das duas possibilidades para acesso à net. O Miguel tinha-a recomendado e espreito lá para dentro pela montra. Tem bom aspecto, talvez noutro dia venha ver como vai o mundo.

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Este foi o dia em que os EUA anunciaram o afrouxamento das medidas com que durante décadas tentaram isolar Cuba. Mas mais importante que isso para os cubanos, foi a notícia da libertação dos três agentes dos seus serviços secretos que ainda se encontravam detidos nos EUA. Por todo o lado vi cartazes a reclamar a libertação destes homens, muitos deles ainda do tempo em que eram cinco os detidos. E hoje soube-se que o cativeiro estava prestes a acabar. Logo se improvisaram novas faixas, saudando os “heróis”. Nas ruas muita gente falava do assunto.

Bebemos uns sumos naturais de fruta, que para além de saborosos são precisos para repôr água no corpinho. Fazemos tempo por ali e vamos trocar os nossos últimos Euros. Deverão chegar até ao fim da viagem, o que é ainda melhor quando penso que perdi uma nota de 50 Euros em Havana.

Trocado o dinheiro, vamos então à Cubatur. Confirmamos as informações. O passeio custa 10 CUC, o comboio sai às 9:30, regressa depois do almoço e pára um bocado em dois locais. Sim, vamos. Pode-se comprar na manhã da partida, porque o escritório abre às 8:30. É melhor. Assim podemos precaver-nos de um eventual dia de mau tempo. Não tinha muita piada pagar os bilhetes e ter um temporal a dar-nos os bons-dias pois não?

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Agora, já que estamos aqui e não há nada de especial para fazer, vamos bater território e ver onde fica a tal estação. Até para conferir tempos de deslocação a pé. Foi um bocadinho agradável. Encontrámos a zona ferroviária sem problemas, fica na periferia. Há vagões e locomotivas a vapor, equipamento de circulação enferrujado. E tudo aquilo proporciona umas fotografias com cores intensas. Um homem pensa que vai fazer algum dinheiro com os turistas trouxas. Apesar de o ter visto desde o primeiro momento e ter lido intenções, apareceu-nos assim como se fosse por acaso. Que era mecânico das máquinas a vapor, que podiamos subir, tirar fotografias. Sim sim, é já a seguir. Pois, não, deixa estar, não vale a pena… mas já agora, onde é que se apanhar o comboio para o passeio. Como sempre, passou do discurso de negócio para o tom amigável de conversa casual, indicou-nos o sítio, deu-nos umas recomendações.

O passeio prosseguiu e já não há muito a escrever sem me repetir. Cada passo traz algo de novo, mas só mesmo vendo. Uma vez li um blog de um viajante que dizia que assim que chegou a Trinidad se sentiu esmagado… que pensou que podia fotografar cada metro da cidade. E é mesmo. São as cores, as pessoas, os pormenores, a arquitectura, as viaturas, as lojas, as bancas, os vendedores ambulantes, os cavaleiros, os tractores.

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Um cubano de expressão doce toca viola e canta para uma criança embevecida. Está a ser um dia intenso. Acho que já conheço Trinidad de ponta a ponta e estou satisfeito com a escolha do local para uma estadia mais prolongada. Era mesmo aquilo que queria, um sítio simpático que pudesse explorar intensamente de forma a disfrutá-lo depois durante um ou dois dias sem pressas, repetindo rotinas, descansando de forma mais profunda. E por falar em descanso, com tantos quilómetros já nas pernas neste anda para trás e para a frente, e com este calor, é descansar que é preciso. Ainda são três da tarde, mas parece que foram vividos vários dias num só.

Mais uma sessão de preguiça no terraço, de onde se tem uma vista magnífica. Em baixo dois homens a cavalo conversam descontraidamente com a vizinhança. No prédio a seguir um enorme grupo joga dominó numa mesa montada na rua. E os níveis de energia vão subindo, devagar, devagarinho.

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Saí para a rua, sozinho. Para onde ir. O melhor é seguir a brisa. Não tenho muito tempo de luz. Sigo a estrada da manhã, até às cruzes. Há tanto para gostar em Trinidad, mas acho que se tivesse que escolher seria este bocadinho. Viro à esquerda, depois à direita, sem sentido, sem intenção, completamente ao sabor do acaso. Está-se bem. Acabo por me reaproximar do centro e da cafetaria onde jantámos na véspera.

Mas antes de lá chegar vem-me uma vontade de rum. Há uma tasca ali na esquina, com o aspecto mais obscuro que uma tasca obscura pode ter. Entrei, pedi um copo. 2 pesos. Nem queria acreditar, pedi para repetir. Sim, dois pesos cubanos. Um rum por 0,06 Eur. Sim, quero uma linea. Ela enche uma medida que vaza para o meu copo.  Cada vez gosto mais desta cidadezinha. Peguei no copo e fui-me sentar no lancil do passeio. Do lado de lá da rua uma mula estava presa à parede, como nos velhos tempos. Uma familia de turistas, muito branquinhos, dobra a esquina. Ficam encantados com o animal. A miúda acaricia-o enquanto os pais fotografam. E eu fotografo-os a eles, que são o elemento mais estranho a perder de vista.

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Ainda vou lá abaixo outra vez, à outra praça, que me disseram que ao cair da noite as pessoas se encontravam por ali, tocavam música e o ambiente era giro. Mas não. Apenas uns gaiatos a jogar à bola. Não há música nem encontros.

A noite chega e vou andando até casa. Ainda é uma boa caminhada. Pelo caminho divirto-me a assistir à chegada do autocarro Viazul. Na rua os jineteros agrupam-se, procurando o negócio que os fará ganhar o dia. Sento-me no chão, aguardo. Sai um estrangeiro com uma mochila, logo abordado por meio-mundo. Afasta-se com passo rápido, esbaforido. A turma espera pelo próximo. A coisa demora, aborreco-me e sigo caminho.

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Em casa os anfitriões estão atarefados a cozinhar. À séria. Pela azáfama prepara-se algo em grande. Saimos para uma última volta antes de dormir e para comer qualquer coisa à laia de jantar. Encontramos a mesma cafetaria que na véspera. É o melhor ponto de refeições para nós. Sentamo-nos num banco formado no vão de janela. Há mesas moveis que puxamos para o pé de nós. Há sempre sumo de fruta fresca e as sandes de omolete são boas. E dali podemos ver a rua, que naquele ponto é do mais turístico que se possa imaginar, com restaurantes bem aperaltados porta sim porta não. O que transforma a “nosssa” cafetaria numa ave rara, numa imperfeição paisagistica. Mais do que uma vez sorri ao ser abordado por um jinetero comissionista de restaurante que viu o negócio desmoronar-se quando me esgueirava para a cafetaria local.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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