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Índia 2019 – Dia 06 – Nawalgarh, Dundlod, Jaipur

O pequeno-almoço foi tomado no alojamento. Desta vez não fomos visitados pela simpática vaca sagrada que, sentindo a presença de comensais, tem o hábito de abrir o portão do pátio e pedir um pouco de comida. Partilhámos o tempo da refeição com os amigos alemães (ou canadianos, não me recordo) que tínhamos conhecido na véspera.

Enquanto comíamos o bom pequeno-almoço, o proprietário veio sentar-se connosco e naquele bocadinho deu para confirmar uma coisa curiosa em que já que tinha reparado no dia anterior. A tendência dele para transpor para aqui o sistema de castas, por assim dizer. Os outros, altos e louros, tratamento preferencial e toda a atenção, enquanto que portugueses, mais escuros e tal, de forma discreta, tratados de forma diferente. Saiu-lhe a situação furada, porque os outros aplicaram os mesmos princípios, de forma inversa: tratando o anfitrião como um “simples local” e conversando apenas com os companheiros viajantes. Algo que noutro contexto eu trabalharia para contrariar, mas dado o cenário me deu um certo gozo.

O plano para este dia, vista que estava Nawalgarh, era deixar as mochilas no alojamento, visitar a aldeia vizinha de Dundlod e depois apanhar o autocarro para Jaipur. Dundlod vinha referida nos guias como a visita lógica a complementar Nawalgarh, mas se planeia visitar não se sinta obrigado. É dispensável. Interessante, sim, mas não essencial. Apanhámos um autocarro que parava por ali. Deu algum trabalho para encontrar a paragem certa, localizada que é numa rua na periferia da cidade. Foi preciso perguntar a muita gente, receber repostas divergentes, calcorrear. E sinceramente chegou a uma altura em que pensei que Dundlod iria ficar por visitar. Mas lá foi encontrado o autocarro.

Deixaram-nos na estrada principal, que passa junto à aldeia. Apontaram-nos a direcção a seguir e lá fomos, debaixo de intenso calor. Para já, os dias frios de Delhi tinham ficado para trás.

Apesar de vir mencionada nos guias, a aldeia não deve receber muitos visitantes estrangeiros. Pois se nem em Nawalgarh isso acontece…! As pessoas olham, claro, curiosas, mas de forma discreta, sem hostilidade e respeitando o nosso espaço. Um grupo de homens jovens mete conversa. Um deles fala um pouco de inglês. Pergunto onde ficam os havelis, mas ele nem sabe o que é um haveli. Explico por outras palavras, mas não serve de muito. Fiquei apenas com uma vaga noção da direcção do centro histórico.

Apesar de ser uma mera aldeia Dundold é uma povoação extensa. Foi preciso andar um bom bocado até chegar às suas partes mais interessantes e isto quando pensava que nada havia por ali que valesse a pena ver. Afinal há. Quer dizer, não existem elementos de destaque, mas as suas ruas mais antigas têm uma atmosfera própria e de facto existe um par de havelis por ali, bastante degradados mas ainda ostentando as belas pinturas murais que se tornaram famosas por esta região.

As ruas aqui estão mais ou menos vazias. Há sempre um vizinho que sai à rua, uma mota que passa, mas o calor é intenso e suspeito que as pessoas tendem a ficam no relativo conforto das suas casas. E assim, depois de palmilhar uma série de ruas, de ver uma interessante aldeia da região, de sentir o ambiente e de descobrir as casas nobres de Dundold, começámos a regressar ao ponto de partida, a paragem de autocarros junto à estrada principal.

Foi uma questão de esperar um bocado, à sombra das árvores e depois de dois autocarros que iam para outros lugares, passou o que nos convinha. Uma viagem curta, de uns dez minutos e de novo em Nawalgarh. Segue-se a relativamente longa caminhada até ao alojamento, pelas mesmas ruas percorridas na manhã da véspera. As coisas agora são bem diferentes. Antes não se via vivalma, o trânsito era raro e as lojas estavam fechadas, mas a esta hora, já da parte da tarde, o cenário é completamente diferente.

Ainda deu para descobrir um imponente edifício que até então tinha passado despercebido, um antigo hospital, usado agora para algo que não entendi… ou então, é ainda um hospital, apesar de parecer basicamente uma ruína.

Mochilas recolhidas e agora é regressar quase ao ponto de partida. Para trás e para a frente. Bem, para Jaipur não existe propriamente uma estação de autocarros. É esperar na estrada que alguma coisa há-de aparecer. Vamos andando, atentos a uma possível estação, marcada nos mapas mas inexistente na realidade. Uma pessoa diz-nos isso mesmo, que é esperar. Onde? Em qualquer lugar. Aqui ou ali. Nesta estrada, claro, mas sem uma paragem determinada e muito menos sem uma estação.

Um senhor com quem confirmamos esta informação ajuda. Manda parar um autocarro. Não é aquele. Vem outro. É. Mas vem cheio à pinha. O seguinte também. Por fim ele manda parar um autocarro com muito espaço e até lugares sentados. Preciosa ajuda. Agora é sempre a andar até Jaipur. Serão quase quatro horas de estrada, com a animação que se pode esperar.

Pessoas que entram e saem, umas mais exóticas do que as outras. Aldeias que passam lá fora e a luz do dia que vai subtilmente mudando de tonalidade, assumindo as cores quentes que assinalam a queda do sol.

Jaipur é uma cidade de tamanho considerável. São três milhões de habitantes e um caos urbano, a aproximar-se mais do meu imaginário das grandes urbes indianas do que Delhi. Na realidade, tendo evitado Bombaim, Jaipur permanecerá na minha memória como a cidade mais intensa que visitei nesta viagem.

Já a contar com isto, tive a boa ideia (modéstia à parte) de escolher um alojamento próximo da estação de autocarros, confiando que seria ali que chegaria. E correu tudo bem. De facto foi à principal estação rodoviária que se chegou e encontrar a casa de hóspedes foi simples. O seu nome? Rawla Rawastar, classificada com 9,2 no Booking.com. Não decepcionou. Um local adorável, estranhamente sossegado, um quarto com um perfume vintage, um toque colonial, muito bem equipado. Boa comida a preços agradáveis e excelente pequeno-almoço incluído no preço. Recomendado.

Chegámos ao cair da noite e dali já não saímos. Deu tempo para ver um magnífico pôr-do-sol no telhado do edifício e mais pessoas manobrando papagaios de papel. Depois, um retemperante jantar, tomado na tranquilidade solitária da sala de refeições. Seguiu-se uma noite bem passada.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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