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Indochina – Dia 13 – 25 de Março – Hoi An

25Mar-01

O segundo dia em Hoi An foi atribulado. Se a “cura de águas” contribuiu decisivamente para que me visse livre da gripe, a minha companhia evoluiu em sentido contrário e por esta altura ia de mal a pior. Estava na hora de fazer uso do seguro de viagem e procurar um hospital. Uma breve pesquisa pela Internet revelou a existência de uma unidade privada, o Pacific Ocean, com feedbacks contraditórios. Telefonemas para os seguros, esperar… mais telefonemas… mais esperas… finalmente disseram-nos para ir ao hospital e ver se já lá tinha chegado o pedido de assistência.

Caminhámos para o Pacific Hospital, que era quase ali ao virar da esquina. Em linha recta, 400 metros, pelas ruas um pouco mais…. encontrámos um hospital com aspecto arejado, agradável mesmo, quão agradável quanto um hospital pode ser. Sim, já estavam à nossa espera. Em menos de nada o Dr. Nguyen dava-nos consulta. Formado em Paris, com formação práctica no hospital Pompidou, este médico era obviamente uma das figuras de chefia da unidade hospitalar. Excelente atitude, explicações completas da situação e uma série de exames ordenados. Exames que são feitos na altura logo chegando os resultados. Menos de uma hora depois a minha companhia estava internada e bem instalada num confortável quarto privado, com uma cama extra disponível para acompanhante, televisão, varanda para o jardim, telefone à cabeceira com ligação possível a um restaurante que faz entregas (com um menu infinito e bons preços). Uma ligeira broncopneunomia e um estado de fraqueza geral são as causas do internamente. Em principio amanhã estará despachada.

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Fico um bocado a fazer companhia, e acabo por sair para a rua já quase a meio da tarde. Está mais um dia bonito, de céu azul e sol. Faz calor, claro, mas não é um calor abrasador. O meu corpo também já leva quase duas semanas de habituação ao clima do Sudoeste Asiático, excluindo os dias demasiado frescos de Hanoi. Caminho sem esforço em direcção a um cemitério militar que referenciei aqui nas imediações. Passo por um museu etnográfico ou lá o que quer que seja algo chamado “Silk Village”. A menina da bilheteira confirma que estou a ir na direcção correcta e logo encontro a entrada do cemitério. Destaca-se um monumento em forma de obelisco, com extensas esculturas em baixo-relevo com motivos marciais de influência socialista. E depois há as campas, umas centenas, talvez milhares. Uma brigada de jardineiros cuida do espaço.

O próximo destino é vago… tenho apontado no GPS um ponto que marquei quando chegámos, já muito próximo de Hoi An mas ainda de sabor rural… na altura notei os campos de arroz e pensei que poderia ter ali uma oportunidade de observar de perto e nas calmas o trabalho nos arrozais. É para lá que caminho. Antes de sequer me aproximar do campo, passo por um grupo de rapaziada equipados a rigor para uma futebolada e olhos saltam-me das órbitas: ali à minha frent está um vietnamita vestindo a rigor um equipamento da nossa Selecção Nacional, aquele da cruz à frente, com calções verdes. As coisas que uma pessoa vê em viagem…. e como é que este jovem arranjou esta roupagem… peço-lhe para tirar uma fotografia. Quando o abordo dá um salto… que susto… um estranho. Mas depois é só sorrisos.

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A minha expedição ao campo corre melhor do que esperado, porque uso estradas estreitas por onde a tempos me cruzo por um local de bicicleta. Depois, uma hora de ciclistas aproxima-se. Um passeio de turistas. Mesmo ali à frente encontram-se com outro ocidental, apresentam-se mutuamente, e ficam à conversa enquanto passo pelo grupo.

Os camponeses locais sorriem-me, acenam, cumprimentam. Está mesmo um belo dia. Estou rodeado de frescura. Há canais de irrigação e campos verdes. Algumas pessoas trabalham na cultura do arroz. Mais à frente um grupo de alegres pescadores tenta a sua sorte. Pescadores por gosto, como se vêem nas nossas escarpas, mais interessados no convivio do que na pescaria. É um contacto inesperado com um Vietnam diferente, fora da cidade. Há flores e patos brancos. Búfalos de água deslocam-se vagarosamente, lá longe, guiados por um camponês que fuma algo tão intensamente que mesmo aquela distância consigo ver as baforadas a elevarem-se no céu. Já vejo a estrada principal, aquela de onde observei tudo isto, com apenas a vaga ideia, pouco esperançosa, de ver de perto o que me passava pela janela.

25Mar-07

Por aquela altura já estava cansado, com calor e a precisar de beber qualquer coisa fresquinha. De tal forma que não colocaria de lado a hipótese de recorrer ao serviço de uma moto-táxi, algo quase impensável em condições normais. Não gosto de táxis e tenho pavor de motas. Mas é assim, quando se precisa de algo, mesmo que seja algo abundante como moto-táxis no Vietnam, é que não encontramos. Quando passo em frente a um café, um homem sai de lá de dentro, monta-se em cima da sua scooter e fala comigo. O seu inglês é muito fraco, e só entendo que se propõe a levar-me para o centro. Pergunto-lhe quanto quer pelo serviço, mas ele não entende a questão e repete o convite. Agradeço e digo que não, andar é bom e estou a gostar do passeio. Mentira! Queria mesmo era aquela boleia, e quando me vou afastando começo a alinhavar o sentido daquela breve e desencontrada conversa e entendo que na realidade o convite não tinha intemções comerciais. Que burro que sou! O homem só queria ajudar e não esperava pagamento. Provavelmente ia para baixo de qualquer modo, viu aquele estrangeiro com ar cansado caminhando na direcção óbvia e deu-lhe uma mão amiga que foi recusada. Enfim 🙂

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Passo pelo hostel sem parar, chego à cidade antiga. Tenho fome, e não é pouca. Practicamente não como desde o pequeno-almoço e isso já foi há umas oito horas. Seleciono um dos muitos restaurantes plenos de charme que se encontram na rua marginal. Entro por uma porta e estou num pequeno páteo com duas ou três pequenas mesas. Gosto. Talvez preferisse um sítio com vista, mas simpatizei com aquele local e com os seus preços. Estou sozinho, aquela hora não há outros clientes. Peço uma cerveja bem geladinha e uma pizza “diavola”. Quem bem que se está em Hoi An! Num canto do pequeno páteo está uma gaiola com um pássaro. Consigo ver o rio pela porta, espreito as pessoas que passam, sinto-me um voyeur, vendo sem ser visto. Chega a minha refeição. É pequenita, a pizza, mas deliciosa. Assim como assim, habituei-me a comer pouco e a quantidade acaba por me satisfazer totalmente. O picante é que é verdadeiramenet “diavolico”. Há momentos em que me vêm lágrimas aos olhos. Tenho que lavar a boca com bochechos de cerveja. Pago a conta. São cerca de 4 Eur.

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O sol já vai baixo. Dou mais uma volta por aquelas ruas repletas de beleza. As lanternas chinesas são profusamente usadas em Hoi An, e desde o entardecer que conferem um ambiente especial aquelas ruas. Ou, melhor, contribuem para o imenso charme da cidade antiga. De resto, é o repetir das experiências da véspera. Os mesmos edíficios cheios de estórias para contar, os barquitos que evoluem nas águas, o mercado colorido, as pessoas… e por falar nas pessoas… já tinha lido mas depois pude confirmar… os habitantes de Hoi An têm uma personalidade muito especial. Por alguma razão, mesmo tão perto da grande Danang, aqui as pessoas têm uma forma de estar única. São positivas, brincalhonas, simpáticas, prestáveis… há uma felicidade no ar que é díficil de descrever por palavras. Sente-se nos pormenores, nas pequenas conversas, nas interacções comerciais, na observação das faces de semblante risonho, na presteza com que os locais se oferecem para mais uma fotografia, parecendo nunca se cansar daquela vaga incessante de gentes vindas de paragens tão distantes. Não é comum. Não é mesmo nada comum que uma comunidade tão exposta ao turismo mantenha a mesma frescura para com os visitantes após alguns anos. A tendência universal é a substituição do entusiasmo e da hospitalidade genuina por uma saturação gradual. Mas, lá está, não em Hoi An. Não só este pessoal soube ajeitar os seus interesses sem estragar a “mina de ouro” onde descobriram estar sentados, como se mantêm como um elemento positivo no cenário.

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E pronto. A noite cai. As lanternas já estão acesas e as primeiras velas flutuantes deslizam rio abaixo. Os restaurantes vão-se enchendo para o jantar. É mais um plácido serão de Hoi An que se aproxima. Quanto a mim, tenho que ir ao hospital fazer uma visita.

Não sei onde vou buscar energia para tanta caminhada. Lá vou eu outra vez, Hoi An acima, passando pela rua do hostel, que é tambem a rua dos famosos alfaiates que executam fatos completos por medida por uma fracção do preço que custariam em qualquer outro lugar do mundo.  Chego ao hospital já noite cerrada. Entro por ali sem ver ninguém, apanho o elevado, saio no andar pretendido e percorro o corredor até chegar à ala “internacional”, reservada aos “hóspedes” estrangeiros. Parece estar tudo bem. Fico ali um par de horas a fazer companhia, antes de me recolher ao quarto do hostel, hoje mais vazio.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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