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Islândia 2015 – Dia 4

Acordar nas calmas, sem hora marcada para absolutamente nada. Uma noite bem passada, mais uma. Lá fora cai a neve. Olho pela janela. Bonito serviço. As ruas estão apenas molhadas, mas como estarão as estradas fora cidade? Não tenho qualquer experiência de condução em neve e os pneus são já de Verão. No relvado defronte o verde pardo de ontem foi substituido pelo branco.

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Passam-se as horas. O pequeno-almoço já foi, assim como algumas páginas do livro que estou a ler, Até Amanhã Camaradas. Já escrevi e processei fotos e perdi-me no Facebook. Dez da manhã, a neve finalmente pára e logo entra um raio de sol pela janela. Passado um bocado o exterior já perdeu todos os vestígios de branco.

Vamos então a isto. O bairro está vazio, mas na principal via rodoviária já se encontra muito tráfego. Ainda chuvisca um pouco mas logo parará e daí para a frente as condições climatéricas apenas melhorarão.

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O GPS traça a melhor rota para o nosso destino, que logo estranho, porque despreza a estrada 1, que seria a solução mais evidente e mais curta. Já vou perceber porquê. De súbito aparece-me pela frente a boca de um túnel e com ela o sinal inequívoco de portagens. Felizmente há ainda uma saída secundária para um grupelho de casas e aproveito-a para inverter a marcha. Acabam de ser acrescentados mais de 30 km à jornada.

Esqueci-me de dizer: hoje dormiremos numa pequena aldeia, Laugarbakki, já no norte do país. A ideia é chegar por volta das 19:30. Esta fasquia deixa-nos tempo para ir explorando o que se nos atravessar no caminho e não é demasiado tarde, do ponto de vista social, para nos apresentarmos em casa da anfitriã.

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Sem desvios e usando o tal túnel seriam 190 km. Mas, claro, há sempre a espreitadela aqui e acolá e a distância extra forçada pelas portagens. Em suma, parece um plano de dia bastante equilibrado.

A voltinha extra irá fazer-me contornar o fiorde de Hvalfjörður. Bem-vindos ao maravilhoso mundo da onomástica islandesa. E abençoada volta, porque se trata de uma estrada extremamente cénica e pouco movimentada. Todo o mundo paga a portagem, e por aqui pouca gente vem.

Para tirar fotografias terei parado um carro para cima de uma dúzia de vezes. Sem contar com aquele desvio para ver o ponto de interesse turístico, que era uma rocha naturalmente equilibrada num pé precário e que desde tempos imemoriais, pela sua natureza peculiar, foi usada como local de reunião. É um pequeno desvio, feito por uma estrada de terra batida, ou de gravilha, como aqui se chamam, bastante ingreme e que não inspira grande confiança. Mas vale a pena. Não só pela rocha mas também pela vista para o fiorde que nos é oferecida desde lá de cima.

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Uma nota sobre estes cartazes apontando para locais de interesse: aparecem com um símbolo vermelho, fundo branco, e sem mais explicações. Por isso são uma espécie de presente de Natal. Nunca sabemos o que vamos ver, é sempre surpresa (a não ser que o nome nos esteja no ouvido por qualquer referência recolhida anteriormente). Felizmente a distância até ao ponto a visitar está indicada, mas mesmo assim por vezes a decisão é dificil… valerá a pena…? É que por vezes o interesse dos locais indicados é muito discutível. Por exemplo, como há poucas árvores na Islândia, a malta local entusiasma-se imenso quando existe um pequeno pinhal… coisa que para nós não faz sentido. E, claro, galgar uma série de quilómetros apenas para encontrar um grupito de árvores pode ser algo frustrante.

E a viagem prosseguiu. Uma paragem para ver alguns vestígios de habitações bem antigas junto a uma pequena queda de água… um bom ponto… atravessando a estrada ganha-se acesso a uma praia de seixos negros (duas fotos acima).

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Mais à frente, nova paragem. Os painéis informativos dizem qualquer coisa sobre a geologia do local e sobre a paisagem. Existem painéis destes por todo o lado e tal como as setas de direcção para locais turísticos por vezes são de relevância suspeita. Seja como for, não custa nada parar e verificar a história que se conta ali.

Antes de regressar à estrada principal, “the ring road”, ou estrada número 1, saímos à direita numa terra batida. É um bom atalho. Não só nos poupa uma série de quilómetros como nos divertimos a descobrir coisas ao acaso.

São detalhes casuais. Junto a mais um imenso lago uma jovem monta um cavalo, quase um ponto negro na paisagem dourada. Vimos quintas, homens que trabalham, aquela vida árdua de lavra na terra árida da Islândia. E uma ponte, não diria antiga, mas já centenária. Mais quintas, algumas bem bonitas. Na terra batida olho pelo espelho e vejo um enorme autocarro de turismo colado a mim, a abrir, levanando uma enorme nuvem de pó. Um toque surreal.

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De volta ao asfalto bem assente da nacional 1. Agora é rolar, escrupulosamente dentro dos limites de velocidade (mais ou menos os mesmos do que em Portugal), seguindo à risca o conselho do meu amigo Paulo (Viagens à Solta). Apenas para ver toda a gente a passar por mim a assobiar. Isso foi aliás uma permanente destes dez dias a conduzir na Islândia. Apesar de bons condutores, calmos, respeitadores e pacientes, a malta por lá anda sempre acima dos limites de velocidade.

Mais à frente uma paragem à beira estrada. É para visitar a cratera Grábrók. O nome diz tudo. É uma cratera vulcânica, uma de duas, muito juntinhas. Só que a esta trepa-se facilmente, existe uma escadaria em madeira que nos leva ao cume, e depois pode-se caminhar em redor, apreciando a paisagem envolvente (e, no dia em questão, sofrer com o vento gélido e fortissimo).

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Já não sei se por indicação do GPS ou se por capricho, seguiu-se outra incursão pela terra batida. A tarde vai avançando, a cor da luz muda, é agora mais quente, mais tranquila, mais acolhedora.

Lá em cima o céu limpou, agora o azul é predominante. Continua frio, mas o sol sorri. O que é excelente para temperar a paisagem de côr. Vimos um grupo de casas. Não está por lá ninguém, parece certo que se tratam de habitações de ocupação pontual, casitas de fim-de-semana, provavelmente para gentes da capital. É picturesco. Em seu redor há campos de lava, cobertos por um musgo que começa a ganhar tons de Primavera, passando do castanho para o esverdeado.

Mais uma quinta, estabelecida num cenário idílico, junto a um lago de águas azuis, muito escuras. Por detrás, como numa tela de cenário de teatro, as montantas cobertas de neve. E, flutuando no manto quase negro do lago, dois cisnes, um casal, a sua alvura contrastando com a superfície onde se deslocam.

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De novo no “ring” – a estrada que contorna por completo a ilha – sentimos na paisagem a altitude que se eleva. Mais e mais neve e gelo de um e de outro lado da estrada. Lá fora deve estar frio. O carro não tem termómetro – um equipamento importante na Islândia. Mas ali é como se o frio se visse. A envolvência tem um ar gélido. Durante uns quilómetros um ribeiro corre paralelo à estrada. Páro o carro para fotografar e confirmo: está muito frio.

Passamos por um segmento francamente invernoso, onde tudo é branco excepto o piso da via. Depois, gradualmente, vamos descendo e envolvência volta a assumir os tons acastanhados de uma natureza que acabou de despertar de um longo Inverno.

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Já não falta muito para chegar a Laugarbakki, mas não apetece nada. Nesta altura do ano a melhor hora para se passear é precisamente aquela, para aí desde as 6 até às 9. É quando as cores estão mais bonitas e decididamente não falta luz.

Mas compromisso é compromisso e o único pecadilho que practico é uma incursão à pacata cidadezinha de Hvammstangi, a poucos quilómetros para além do nosso destino. É um local onde com sorte e na época certa se podem avistar focas a descansar sobre as rochas. Mas não naquele dia.

Ainda parámos para dar uma vista de olhos a uma igreja, a um ou dois quilómetros da estrada principal. Há a igreja e uma casa. E uma outra casa. Mais afastada, uma quinta abandonada. Ainda ensaiámos uma aproximação, mas parecia haver cavalos à solta por ali e não sabia se era aceitável andar naqueles caminhos vedados. E estava um frio de rachar.

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Logo estamos em casa com a Gumdrum, uma alemã que se estabeleceu na Islândia há décadas e leva agora uma pacata vida de aldeia com o seu gato, Mr. Frost. Bebemos chá naquela verdadeira casinha de fadas, onde temos um conforto que sabe muito bem.

Ficamos à conversa e em menos de nada ela diz que tem que ir dormir. Parece estranho, parece sempre estranho, porque na Islândia nesta altura nunca é de noite. Lá fora havia ainda bastante luz mas na realidade eram quase onze horas.

A caminha é no primeiro andar da cabana, junto a uma janela com uma vista deslumbrante sobre o lago, ali perto. Vida boa a do campo.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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