Home / Viagens / # Leste Europeu 2014 / Leste 2014 – Dia 17 – 16 de Maio – Brest, Varsóvia

Leste 2014 – Dia 17 – 16 de Maio – Brest, Varsóvia

16Mai-01

Ora isto é que foi um dia tenso! Cheguei a Brest e deparei-me com um dia desagradável, chuvoso, cinzento, monocromático, húmido, frio. Que mau! Bom, estava eu a pensar na vida, recebo um SMS do meu anfitrião: “Estou aqui com dois viajantes alemães, vamos agora à fortaleza de Brest, queres vir?”. Claro que sim! Que mais hei-de eu querer… a fortaleza é a única razão de ser da minha presença aqui… isso e o ser de caminho para Varsóvia.

Chega o tipo. Que figurão porreiro! O inglês dele não é o melhor, mas a energia positiva e a boa vontade pagam pelo débito de comunicação linguística e muito mais. Leva-me para o carro onde está a esposa dele (são um par de pombinhos novos casados há poucos meses) e os dois alemães. Lá vamos nós, enquanto o Sasha explica alguns aspectos da cidade. A entrada para a fortaleza está bloqueada por umas obras… nada que detenha o poderoso Sasha que logo encontra o caminho para um acesso secundário e em menos de nada estamos a entrar. Não se paga bilhete.

16Mai-05

16Mai-03

Imediatamente se destaca a gigantesta escultura que simboliza a persistência do povo perante a agressão alemã. Uma nota: Brest é um dos poucos locais na ex-URSS que recebeu o título de fortaleza-heroína. No respectivo artigo da Wikipedia podem ser lidos (em inglês) todos os episódios dessa batalha. Em frente ao monumento existe uma chama eterna, guardada por jovens voluntários que lhe prestam a devida honra. A esposa do Sasha fez parte deste corpo de guarda e esclarece-nos algumas dúvidas.

Vão-nos mostrar a igreja, aliás, uma das duas igrejas existentes na fortaleza. Foi ali que se casaram há uns poucos meses. Estamos um pouco pressionados pelo tempo porque os alemães vão partir hoje e ainda temos que almoçar. Por isso toda a visita é feita um pouco à pressa e a chuva miudinha que vai caindo também não ajuda. O Sasha diz-me que se eu quiser ver aquilo com mais atenção podemos lá voltar mais tarde. Há inclusive um museu, que neste momento não teremos decididamente tempo para visitar. Tudo bem. Depois do cometa Ulazdimir aquilo é um passeio super-relaxado.

16Mai-04

Há uma exposição de material de guerra, tanques e caça-tanques, peças de artilharia. Mais à frente uma outra escultura, infinitamente mais pequena mas que me impressiona bastante. Chama-se “Sede”, e consiste de um soldado que rasteja, mão estendida, para uma terrina de água que não alcança nunca. Vamos espreitar a entrada principal, que envolve a passagem por uma espécie de curto túnel em forma de estrela. Naquele sector há banda sonora: os sons da guerra são ali passados, procurando acentuar o carácter dramático dos acontecimentos que aqui tiveram lugar durante a Segunda Guerra Mundial.

Vamos saindo. Os alemães vão para o carro – têm frio, mariquinhas – e eu e o anfitrião vamos a um local arqueológico, ali mesmo ao lado, onde foram deixados a descoberto vestígios de presença humana de outra era… casas em… madeira… até este dia nunca pensei que a madeira se pudesse preservar. Dizem-me que sim, que sem oxigénio, apesar da humidade, que é possível. Tenho dificuldade em acreditar, mas pronto….

16Mai-06

Agora vamos almoçar. O nosso amigo leva-nos a um restaurante lá para o centro de Brest. Foi um sucesso. Simples, assim como eu gosto, com um menu infinito que me deixa sem jeito… não sei o que hei-de pedir. Os preços são agradáveis, apesar de nesta altura do campeonato qualquer restaurante, mesmo um onde a refeição inteira csuat 7 Eur, ser um luxo extravagante para mim. Contingências de um orçamento apertado! Mas pronto, aquelas panquecas de batata sabem-me divinalmente, e a cerveja geladinha não está menos boa. Agora é tempo de levar os alemães a um supermercado… enquanto eles fazem compras abordo a minha preocupação com o registro junto da polícia de estrangeiros com o meu novo amigo… sem problema, diz ele, e, sacando do telemóvel, começa logo a ligar a um amigo que é polícia. O amigo diz que é melhor eu tratar de me registrar. Mas não quero, é complicado e tem que se pagar. O meu anfitrião disponibiliza-se para resolver a complicação – e certamente o faria – mas já estou num ponto de não retorno: quero sair da Bielorússia enquanto tenho a certeza de que estou inteiramente legal.

A parte complicado é explicar isto ao pobre Sasha. Que gente boa. Dá para perceber que ficou triste, desapontado, mas também é evidente que fez o seu melhor para o esconder. Compreender, sem problemas. Continua em modo de resolver todos os meus problemas. Ficamos um bocado lá em casa. Sinto pena de não ficar. Gosto imenso deles, o apartamento é óptimo, tenho um belo quarto só para mim. Mas quero paz de espírito, dispenso o stress adicional de passar a fronteira em situação possivelmente ilegal.

16Mai-07

O Sasha leva-me à estação de autocarros, compra-me o bilhete. A seguir encontro o condutor louco e começam os problemas. O tipo quer ver toda a documentação, é mais papista do que o Papa… bilhete do jogo… visa para entrar na Polónia… o quê!? E convencê-lo de que não preciso de tal coisa? Ò que homem casmurro. O tipo parece uma abelha enlouquecida, faz um escarcelo, não houve nada, ele é que sabe tudo e o que sabe melhor é metralhar em todas as direcções. Ainda bem que o Sasha veio comigo, acho que sozinho nunca conseguiria ter entrado naquele autocarro. Quando finalmente parece estar convencido tem uma recaida de complicador… caramba… por fim mete a porcaria do autocarro em andamento.

A viagem que se segue é um bocado surreal. Sou o centro de todas as atenções, o estrangeiro. Ouço as piadinhas, algumas girando em torno dos lugares exóticos onde já estive, que o narigudo tratou de divulgar os vistos que viu no meu passaporte. Há conversa base, daquela que se consegue ter sem uma linguagem comum… sim, vim ver o hockey… de onde sou… Portugal… que jogo vi? Alemanha – Kazaquistão… para onde vou agora? Varsóvia. Tirando o louco ao volante, que de qualquer forma creio ser polaco, é uma óptima forma de me despedir da Bielorússia e do seu povo adorável.

16Mai-08

A fronteira é passada com problemas zero, e ainda recebo tratamento VIP… todos os outros têm que ir para o controle de passaportes, mas quanto a mim, o controle de passaportes vem até mim… nem preciso de me levantar da cadeira. Fico literalmente sozinho no autocarro enquanto toda a gente passa pelo controle. Chego à cidade polaca do outro lado da fronteira, compro o bilhete para Varsovia de um troll gordo que se veste como empregada dos caminhos-de-ferro, e sento-me à espera.

O comboio é um pequeno pesadelo. Não é mais que uma automotora sem qualquer vocação para uma viagem de cerca de três horas. Vou pensando como os polacos são paradoxais, com tanta boa gente simpática e pronta para ajudar mas também, ai mesmo tempo, tantas cavalgaduras com aspecto de quem nos pode encher de porrada a qualquer momento, cabeças rapadas, pesçocos de touro… agressividade no ar, sociedade muito tensa… nunca gostei dos “vibes” que recebo na maioria das cidades polacas.  Isto para dizer que um senhor que parecia um operário iletrado falava afinal um inglês impecável e se levantou do seu lugar para ir procurar o chefe de estação só porque eu lhe perguntei se sabia em que linha era o meu comboio.

16Mai-09 16Mai-10
16Mai-11 16Mai-12

À chegada a Varsóvia stresso um bocadinho, tenho dificuldade em compreender como transito para a estação sub-urbana onde o meu amigo Darek combinou encontrar-se comigo. Estou a olhar para a máquina de tirar bilhetes quando outro polaco dos bons me pergunto se preciso de ajuda. Ò se preciso… e como ajuda… tira-me o bilhete e indica-me com precisão cirúrgica qual é a minha plataforma. Um anjo que me salvou.

E lá estou e de repente vejo o sorriso amigo do Darek. Posso relaxar agora. Vamos beber uns canecos a um beer garden que há perto de casa dele… dou-lhe uma introdução a Portugal em duas horas, que em Outubro ele viajará até cá. Regressamos ao apartamento. O “flatmate” dele não vai dormir a casa e por isso fico-lhe com o quarto, nacionalizado para a noite.

16Mai-13 16Mai-14

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

Veja também...

Leste 2014 – Dia 22 – 21 de Maio – Wroclaw, Praga

Este é um daqueles dia em que sucede aquela magia de acordar num ponto distante ...

Leste 2014 – Dia 21 – 20 de Maio – Wroclaw

  Saí com o Pawel, ele para o trabalho, eu para um dia de exploração ...

2 comentários

  1. Gosto de ler o teu blog. E por gostar, sinto-me enganado. Onde está o dia 16? hum? hum?

    • Eeheheh foi publicado na atempadamente mas como tinha a data de publicação enganada foi-se esconder lá para trás. Já está regularizado.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *