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Locais: Kotor, Montenegro

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Não me recordo quando Kotor me surgiu perante os olhos pela primeira vez. Certamente durante a preparação para a viagem através dos Balcâs. Lembro-me que andava à procura dos pontos relevantes que queria visitar, tentando encaixar o que quer que parecesse interessante numa rota vaga que me levaria de Tessalónica até Belgrado. E Kotor enquadrava-se. Ficava ali, à saída de Montenegro, de quem vem de baixo, da Albânia. Era uma óptima paragem, depois de Budva e logo antes da famosa Dubrovnik.

Comecei por atribuir uma noite em Kotor. Depois, à medida que fazia os trabalhos de casa e descobria pontos de interesse desta histórica cidadezinha, fui adicionando tempo e acabei por reservar três noites no Montenegro Hostel (bem localizado, quarto comum muito pequeno, algo barulhento, pessoal potencialmente hostil apesar de eu ter caido nas suas boas graças).

Entra-se em Kotor pelo túnel Vrmac e a estação de autocarros deixa-nos a umas escassas centenas de metros das portas da cidade muralhada. A viagem desde Budva é rápida. Tudo no Montenegro é perto e esta ligação não é excepção. À chegada, acontece amor à primeira vista. As muralhas venezianas são a face mais evidente de uma existência multi-cultural que marca a cidade. Vejamos, nos últimos trezentos anos Kotor esteve sob domínio veneziano, austro-húngaro, russo, francês, italiano, inglês… e depois tornou-se parte da Jugoslávia, ocupada de novo pelos italianos durante a Segunda Guerra Mundial, pelos alemães, e Jugoslávia outra vez, para agora ser Montenegro. Mas isto é a face humana de Kotor, porque a natureza que a envolve é intemporal: Uma espécie de fiorde de águas azuis muito escuras rodeado de escarpas altas cobertas com vegetação mediterrânica.

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Entrar na cidade antiga é mergulhar num conto de fadas, é penetrar num livro de Eco, onde o Renascimento vive ainda, e onde apenas as casas de “souvenirs” nos trazem de volta aos tempos modernos. Apesar de não ser tão famosa como a sua vizinha Dubrovnik, Kotor tem mesmo assim um fluxo considerável de visitantes. Mas fora de época é fácil esquecer aquele sufoco das multidões de estrangeiros e imaginar as ruas de outros tempos, estreitas, com piso de pedra, rodeadas de edifícios monumentais e tendo como pontos altos um par de praças buliciosas.

Não descansei enquanto não tive a certeza de ter percorrido todas as ruas daquele labirinto mágico. Mesmo ao serão, depois de passar o dia a palmilhar quilómetros sem fim nas íngremes encostas que rodeiam Kotor, conseguia energia para sair e sentir a alma da pequena cidade, com outra luz e outro ritmo. Todas as horas são boas para se viver Kotor!

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Logo na primeira noite, observei atónito as chamas que lavravam nos penhascos, quase na vertical da cidadela, às quais toda a gente, excepto os estrangeiros, reagia com total indiferença. No dia seguinte, pela manhã, o fogo evoluía ainda, para se extinguir, espontaneamente, pouco depois.

Mas visitar Kotor não é só percorrer as ruas e praças da cidade muralhada. Há detalhes deliciosos na cintura exterior, relativamente moderna. Mas, sobretudo, há muito que explorar nos arredores. O primeiro dia que ali passei, dediquei-o a trepar pelas escarpas a norte do braço de mar que está na origem de Kotor. Subi dos zero aos mil metros, parte do percurso pelo caminho medieval, em serpentina, que outrora era o único acesso por terra à cidade. Uma marca violenta mas cheia de recompensas. Encontrei uma igreja em ruínas e uma entrada para o castelo sem uma bilheteira (e assim poupei 4 Eur de forma completamente legal, até porque esta entrada “clandestina” faz parte de um percurso pedestre). Descobri bosques encantados e fortificações de tempos antigos. Encontrei fragmentos de granadas enferrujados, percorri trilhos com sabor alpino e vi o “fiorde” a partir dos céus.

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No dia seguinte, trepei pelo margem oposta, seguindo um trilho bem marcado. É uma ascensão igualmente exigente, de novo por um caminho em serpentina que parece não terminar nunca. Mas termina, e logo numa fortaleza construída pelos austro-húngaros, na qual se consegue penetrar através de uma janela ao lado do portão principal. No interior há um mundo por descobrir. Estão lá as camaratas de antigamente, a capela, as latrinas do regimento, as posições de artilharia. E, mais acima, no último dos três pisos, os ninhos de metralhadoras e a saída para o tecto, de onde se pode observar o mundo. Lá em baixo, muito pequenita, Kotor, abraçada por aquela mancha de água que entra terra adentro. Do outro lado, o verdadeiro mar, que visto dali se dá ares de oceano.

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Os mais corajosos podem prosseguir a caminhada, que prossegue agora no cume da montanha, sem mais sobressaltos. A cruz, que vista de Kotor parece inalcancável, é o limite. Pelo caminho observam-se postos militares de importância secundária.  Ao longe escuto disparos de armas automáticas, alguns em rajada, e penso meio a brincar se terá recomeçado a guerra civil na ex-Jugoslávia (que de resto nunca chegou ao território do Montenegro). Na altura não consegui descobrir o mistério por detrás deste alvoroço. Apenas uns meses mais tarde, à conversa com um amigo daquelas paragens, as coisas ficaram esclarecidas: seria concerteza um casamento, e aquela malta não se coibe de trazer os arsenais que tem em casa para estas ocasiões e queimar pólvora à maluca.

Ao partir, senti que teria que regressar um dia. Kotor é um desses locais que fica na memória. Sei que tenho que explorar melhor aqueles trilhos de montanha, chegar mais longe, ver outra vez aquelas ruelas a meia-luz. É um sítio especial, mas que tem exigências: não pode ser visto a correr, tem de se ter uma forma física razoável para se usufruir daquelas trepadelas escarpa acima e, sobretudo, deve de estar bom tempo, com uma luz que faça jus ao cenário.

Aspectos Práticos

A melhor forma de visitar Kotor é integrá-la numa viagem pelo Montenegro, ou mesmo pelos Balcãs. Para aqui chegar de forma económica, poderá procurar voos baratos para o Montenegro com a Rumbo. Quanto à melhor altura para visitar, sem dúvida logo após ou logo antes do Verão. Pede-se um bom dia de sol, mas por outro lado as encostas íngremes não serão fáceis de ultrapassar num dia de calor. A moeda do Montenegro é o Euro e os cidadãos europeus não precisam de visto para entrar no país.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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