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Marrocos 2015 – Dia 4 – Marrakesh

Marrakesh, 20 de Janeiro de 2015

O último dos dias de Marrakesh, pelo menos por agora, que à volta haverá outro, ou parte dele. Há a sensação que o que era essencial e desejado já está visto. Sem dúvida, ficarão grandes referências por visitar, por falta de interesse ou outras razões, como os famosos jardins Majorelle pelo preço exagerado do bilhete, a madrassa Ben Youssef e o Museu de Marrakesh mais ou menos pela mesma razão, o Museu Dar Si Said, porque nesta manhã que o procurámos se encontrava fechado. Único dia de descanso semananal e coincidiu com a nossa planeada visita. Museus à parte, pouco ficou por ver, daquelas coisas que vêm em guias. Mais tarde deixaria Marrakesh com a sensação que esperava mais, em qualidade mas também em quantidade. É verdade que tinha já uma referência, Fez, que foi obstáculo impossível de ultrapassar no que toca a expectativas montadas. Mas vamos lá ao que se fez por terras marroquinas neste dia vinte de Janeiro, uma Terça-feira.

Como já ficou escrito, a ideia era passar pelo Museu Dar Si Said, mais por falta de outras opções para preencher as horas do dia. Não é segredo que não sou dado a museus. Tirando um ou outro que por alguma razão me chame a atenção, deixo estes espaços para preencher tempo, por vezes porque um dia de chuva impede outras andanças, outras vezes porque os dias reservados para uma cidade foram excessivos e dou por mim ocioso. Mas o destino não quis que esta visita se concretizasse. Bebidos os batidos da manhã, logo demos com a rua necessária, Afinal já por lá tinhamos passado na véspera e espreitámos a porta do museu.

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Encontrá-mo-lo sem grandes dificuldades, com um vago recurso ao mapa apenas para confirmação. E, lá está, intenção gorada. Que fazer então? Olha, havia aqui um outro museu, menor, literalmente ao virar da esquina. Pelo que li expunha a colecção particular de um etnógrafo holandês que se tinha perdido de amores por toda esta região do canto noroeste de África. Tratava-se da Maison Tiskwin e, digo-vos desde já, foi um belo bocadinho que ali se passou.

O bilhete custou, creio, cerca de 2 Eur. Um indolente funcionário cobrou a quantia com um sorriso manso e deixou-nos entrar no palacete. Desde logo me senti bem, e demorou um pouco a aperceber-me da principal razão: era o estilo informal da exposição. Diria mesmo antiquado. E gostei. Gostei da sensação de estar num museu de museus. Diferente da pobreza de método e da falta de saber que é regra nos museus da Europa de Leste ou de Cuba. A Maison Tiskwin simplesmente é aquilo que seria um museu lá para os anos 50, ou, atenção, o que no meu imaginário seria.

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A colecção conduz o visitante por uma viagem circular, partindo de Marrocos, para Este, um pouco para Sul, para o deserto, penetrando em sub-culturas com um sabor da África negra, dando mostras do património dos povos mais remotos que vivem nas terras onde nada cresce. Depois aproxima-se da costa, vai ter à Mauritânia e dá-se o regresso ao país onde agora estamos. São para aí uma dúzia de salas, pequenas. E de repente percebi de forma mais definida a que canto profundo do meu imaginário aquele espaço me conduzia: às aventuras de Tintim. É verdade. Era o ambiente involuntariamente retro, a levar-me para as páginas do famoso jornalista belga, desenhadas entre os anos 30 e os anos 70. E era também a temática da colecção, perfeitamente concidente com ambientes que serviram de cenário a diversas das aventuras de Tintim, aventuras essas que tiveram um impacto em mim enquanto menino, definindo padrões e referências sobre o que era uma boa aventura.

No centro do riade – que o palacete não deixava de o ser – uma senhora baixinha e gorduxa procedia a uma investigação. Com a ajuda de um homem marroquina, ia tomando notas, inventariando, conjecturando. De todo o lado, apesar de falar em voz baixa, podia ouvir a sua conversa. Também ela poderia ser uma personagem de Hergé. O momento era tão bom que me sentei ao sol, num banco existente no páteo. Só se ouviam os passarinhos e o trabalho laborioso da investigadora.

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À saída do museu sentia que precisava de um dia mais descansado. Estava um certo calor e apesar de ter acordado há pouco tempo já estava exausto. Fomos até à praça. O que apetecia mesmo era uma mesa ao sol, de preferência com vista, um chá de menta e um livro. E não é que pude ter tudo isso? Já no dia anterior tinha tentado, mas não gostei dos preços. Não é que não possa pagar 1,5 Eur por um chá, mas um tipo entra num ambiente e adapta-se. Lembro-me de dar por mim a sair de táxis em Damasco e Aleppo porque o condutor não concordava com o preço justo insistindo em cobrar mais… 0,10 Eur. Visto à distância parece rídiculo, mas constroi-se uma escala de valores que se impõe. Da mesma forma que em Portugal não seria capaz de dar 8 Eur por um chá, aquele preço batia-me como igualmente descabido para o contexto.

Mas o Café Kessabine veio solucionar este problema. Num dos extremos da grande praça – se é que ainda se poderia considerar aquilo a grande praça – ergue-se este edíficio alto e estreito. É muito próximo da rua Dabachi, e, como o nome indica, também perto da rua Kessabine, que é uma das entradas para os souks. Visto de fora parecia bem. A esplanada no terraço, elevada, vazia. Já antes tinha reparado num par de estrangeiros que ali estava e tinha tomado nota mental. Fomos ver os preços e eram mais aceitáveis. Subimos.

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Um café que recomendo em todos os aspectos. A vista poderá não ser a mais gloriosa se comparada com a concorrência localizada do outro lado, directamente sobre a praça, de pnde se podem ver as momices dos artistas e o pôr-do-sol. Mas é mesmo assim uma bonita vista, deixando ver com clareza a linha nevada das montanhas Atlas e o bulício daquele acesso à praça. O serviço é, ou foi, excelente. O espaço está muito bem arranjado e o menu é interessante com bebidas e comida a preços razoáveis. E ali se esteve, com as condições desejadas, dando mais um avanço no livro do meu amigo Pedro Moreira, Daqui Ali.

E foi mesmo dali que ouvimos os chamamentos para a oração – algo decepcionante em Marrakesh, depois da magia que encheu o ar em locais como Fez, Aleppo, Amman, Damasco – e pouco depois, porque o sol estava forte e fazia calor excessivo, fomos descendo.

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O plano para o resto do dia era… não ter plano. Apenas uma missão: descobrir onde ficava o riade que os hospedaria na última noite em Marrocos. Queria encontrá-lo já para não ter pressão à chegada de Essaouria que até poderia ser depois do sol posto. Mas por enquanto foi só andar por ali, pelos souks. Ora os souks de Marrakesh não são como outros que visitei no mundo islâmico. Não senti nunca aquela pressão dos vendedores, comparativamente é um souk sossegado, não há o bulício enlouquecedor que se vive naquilo que para mim é o mercado nestas culturas. Se calhar falhei o coração da coisa, andei por zonas marginais. Mas foi o que foi, e é a memória que trago.

Mas gostei. Provavelmente mais do que se me deparasse com o reio dos mercados. A bem dizer, ao contrário do que sucede com a maioria das pessoas que conheço, sinto-me mal no souk característico. Em Istanbul, assim que lhe metia um pé, começava a sentir-me deprimido e aborrecido com tudo… era uma angústia que só se lavava com uma travessia do Bósforo. Ora aqui em Marrakesh pelo menos não se colocou o problema. Simplesmente flutuei, sem me preocupar se estava ou não estava no souk, sem seguir mapas, sem objectivos traçados. E funcionou bem.

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Na realidade aquela área a norte da grande praça tornou-se na minha preferida, como expliquei num outro artigo desta série. Nesta tarde fazia sol, que entrava pelas ruas estreitas, criando aqui a acolá um ambiente diferente, realçando detalhes, como um foco de teatro apontando à figura trágica evoluindo no placo. Fumos ganhavam solidez, o cinzento elevando-se para os céus, e as passagens escuras tornavam-se mais obscuras, mercê do contraste.

E mais não me ocorre dizer sobre esta tarde de deambulações. Sem dar por isso, literalmente, chegámos ao ponto de encontro que os proprietários do riade têm marcado para os clientes que chegam. Procurava o Bab Khemis, porque me tinham dito que a ideia era chegar ao posto de correios de Bab Khemis e telefonar, que logo alguém apareceria para nos mostrar o caminho. E quando chego a um local, vejo um senhor segurança de aspecto simpático que diz que sim, estamos em Bab Khemis, mas depende para onde queremos ir porque aquilo é um bairro. E quando ele diz isto, olho para trás dele e vejo que o edificio onde trabalha é o posto de correios. Perfeito. Ele ainda tentou ajudar mais – muito prestável mesmo – vendo a morada do riade e até o nome, mas não conhecia, nem uma coisa nem outra.

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Lá telefonámos. É chato porque são 3 Eur. Maravilhas do roaming. E de facto passado uns minutos apareceu um  moço. Falava inglês perfeito, era simpático, mas tinha uma aparência peculiar, com a barba farta dos homens de fé. De facto nunca dariamos com aquilo, mas com o GPS e os pontos marcados nunca houve problema em regressar. O riade é lindo, mas o terraço é mesmo de pasmar. Os terraços em Marrakesh são atrofiantes, geralmente vedados com paredes altas que não deixam ver nada, ao contrário do que sucede em Fez onde são abertos e as pessoas usufruem deles como espaço social. E este oferecia vistas de cortar a respiração, com a massa impressionante do Atlas a mostrar-se em todo o seu esplendor.

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Tratado que estava o problema, deu a fome e procurámos um restaurantezinho simpático e colorido que tinha ficado na retina durante as nossas voltas. Encontrámos e encomendámos. Tajines de vegetais e chá de menta. Foi uma experiência agradável, se bem que o prato estivesse um pouco fraquito. Não era mau, mas o sabor ficava aquém do esperado. Mas soube maravilhosamente pelo conjunto. As entradas, essas sim, de sabor forte, acompanhadas com pão muito fresco… e o ambiente, à beira da rua, que podiamos observar a nosso bel-prazer.

Já não se fez muito mais nesse dia. Quando saimos aproximava-se o pôr-do-sol, dirigimo-nos para a grande praça, onde fizemos a ronda costumeira. Mas já não havia ali surpresas para nós. Mais tarde regressámos, apenas para cumprir tradição, mas o sentimento permaneceu. Ao contrário dos batidos de banana e tâmaras, a Jemaa El Fnaa já não encantava como nos primeiros dias.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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