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Médio Oriente 2015 – Mardin – Dia 11

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De manhãzinha bem cedo, o voo de Istanbul para Mardin. Ficou para trás a chuva, vieram os dias de sol e calor. A rondar os trinta graus. É o Curdistão de Outubro.

A chegada é calma, como é costume nestes pequenos aeroportos turcos. À saída do aeroporto, junto à estrada, um dolmus espera clientes para seguir para Mardin. Perfeito. Tinham-me dito que seria preciso plantar-me na estrada e conseguir que um que viesse de uma cidade ali perto parasse para me levar, mas assim as coisas simplificaram-se. Ainda melhor ficou o cenário quando percebi que o bendito dolmus subiria à cidade antiga, poupando-me uma caminhada colina acima, que já conhecida de outras alturas e que não é nada doce sob o sol que já se fazia sentir aquela hora.

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E finalmente em Mardin. Com um dia inteiro pela frente para “queimar”. O nosso anfitrião só estaria disponível bem mais tarde, depois do trabalho concluído e já após o pôr-do-sol. Como encher tanto tempo… bem, caminhando. Para a frente e para trás, com pausas para repouso aqui e acolá. Porque Mardin é fascinante mas tem os seus limites e um dia inteiro de marcha são muitos quilómetros.

Naquele momento ainda não sabia que o anfitrião poderia receber-nos por dois dias. O primeiro estava assegurado, o segundo, em aberto. E assim, para adiantar trabalho, fomos procurando uma solução. Descobri com facilidade o hostel onde tinha ficado há dois anos e onde tinha chegado a fazer uma reserva para agora, entretanto cancelada. Fechado, sem uma campainha para tocar. A vizinha assoma-se, vai chamar alguém, um tipo… dizem-me que aquilo fechou, encerrou mesmo. E nós, OK, obrigado… vamos ficar aqui um bocado a ganhar forças. Já muito suados, roupa toda molhada. Logo aparece um copo de água e um jarro. A hospitalidade curda em acção. Agradecemos aos benfeitores, partimos para mais uma volta.

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Vamos ao Eye of Mardin, um café-restaurante num terraço no topo de um terceiro andar que oferece a melhor vista que se pode imaginar. E nem é caro. Uma paragem obrigatória em Mardin, apesar de neste dia nada ter corrido bem: o serviço foi do piorio, a Wi-Fi recusou-se a funcionar e o húmus encomendado não estava nada de especial. Mas deu para descansar e apreciar o panorama envolvente, a planície em frente, com o território sírio à vista, o aeroporto onde aterrámos um pouco para a direita.

Chegou a hora em que mesmo um ponto tão bonito aborrece e saímos para a rua. Não fomos longe. Com aquele calor não apetecia mesmo andar durante muito tempo com as mochilas e logo descobrimos uma esplanada menos turística para beber uns chás. A vista era quase tão boa, o ambiente bem mais genuíno. Fomos servidos por um simpático sírio que entre indas e vindas parava na nossa mesa para dois dedos de conversa em mau inglês. O suficiente para saber que tinha fugido da Síria – não, não é preciso chegar à Alemanha para um sírio pacífico deixar de correr perigo de morte – e que estava há dois anos em Mardin com a mulher… mas não gostava… sentia racismo, as pessoas dali eram malvadas, na sua opinião. E entre o vai e o vem acabei por beber três chás, cada um com um piscar de olhos cúmplice do mordomo sírio, talvez espantado por ver um ocidental beber chá ao ritmo que ali se usa.

Entretanto o local ia-se renovando de clientes. Na mesa ao lado três raparigas celebravam um aniversário com um bolo de anos. Do outro lado um homem solitário olhava o horizonte. E um pouco mais longe um rústico chegava com uma vampe de cabelo pintado de louro, calças justas e saltos altos, uma situação algo suspeita. Pagámos a conta à saída, ao patrão, como é costume nestas paragens. Uns cêntimos por cada chá.

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Subimos a um dos pontos mais conhecidos de Mardin, onde se encontram as escolas, milenares, nos seus edifícios de pedra amarela. Neste dia não havia mais visitantes. Só as crianças que ali estudavam. Evoluímos pelas ruelas da parte alta da cidade velha. Queria chegar à base do cume onde se encontram as instalações militares. A vista é impressionante, com os minaretes e as cúpulas da mesquita decalcados sobre a planície sem fim. A Mesopotâmia.

Chegámos na altura certa, quando um dos chamamentos para a oração se iniciava, conferindo a banda sonora adequada ao momento. Alguns homens desciam por um trilho que parecia conduzir à área militar e com um par de palavras em inglês e gestos disseram-nos para subir, que a vista de lá de cima era a melhor e que não havia problemas com os militares por ali. Segui as indicações e não me arrependi. Não só dei com a tal vista como encontrei um velho cemitério e de facto não me confrontei com nenhum militar. Um excelente bocadinho.

A tarde ia avançando mas ainda muito havia para acontecer. Refizemos calmamente os passos que nos conduziram ao topo, hesitando em entrar no que parecia um café – e se assim fosse teria um terraço magistral – mas que parecia fechado apesar de ter pessoas lá dentro. Seguimos caminho.

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Atravessámos a rua principal, procurando um outro hostel que tinhamos descoberto online. Se fosse preciso dormir em algum lado no dia seguinte – ou, quem sabe, já mesmo neste dia, que com estas coisas nunca se sabe e é bom ter um plano B  – queria saber antecipadamente em que porta bater. Mas ninguém conhecia o nome do estabelecimento. Note-se que estamos a falar do Curdistão Turco, e se ali um visitante tem um problema, toda a gente faz o seu melhor para o resolver. Uns ligaram a sua Internet para procurar indicações; outros, chamaram amigos para uma consulta breve. Pediam um número de telefone, pelo menos isso, para que pudessem fazer uma chamada e informarem-se da localização. Mas não tínhamos o tal número de telefone. Um de entre um grupo de homens consultados fez mesmo alguns telefonemas, pelo que percebi para amigos taxistas, mas ninguém sabia ao certo. Uns diziam para ali, outros para acolá, todos desejosos de ajudar mas sem saber como.

Acabámos por descobrir o local, depois de muitas aventuras e ajudas. Foi no posto de turismo que a coisa se aproximou mais da resolução. Claro. Se todos eles queriam ajudar, o pessoal do turismo fez ponto de honra da questão. Procuras e telefonemas feitos e  paradeiro do hostel ficou determinado. Depois foi marcar num mapa como lá chegar. Basicamente era entrar no bazar e sair logo de seguida. O que foi feito e o sucesso estava ali.

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O Kasr-i Abbas Hotel foi amor à primeira vista. A vista é de morrer (foto acima), o edifício, com centenas de anos, oferece um ambiente extraordinário, e o seu proprietário é de uma simpatia muda – muda porque basicamente não fala inglês. Mostrou-nos tudo, explicou-nos, na medida do possível, as histórias e as lendas do local. O preço é mais do que razoável, considerando o local. Ficou logo decidido nas nossas mentes que este seria o plano B, talvez até o plano A. E foi de forma entusiasmada que nos despedimos. Com um “até amanhã”.

Já que ali estávamos fomos até ao bazar, que em Mardin é uma maravilha. Corredores com lojas, vendas ao ar livre, produtos genuínos, bens tradicionais. O Médio Oriente no seu melhor, um cenário exótico enquadrado por gentes afáveis que não abordam o estrangeiro nem o observam com aquela intensidade de olhar que faz doer. Ali pode-se cirandar, sabendo-se que se é estrangeiro mas sem que isso importe. O visitante é bem-vindo mas educadamente ignorado enquanto tal, e este equilíbrio é um dos elementos que mais aprecio no Curdistão Turco.

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Um barbudo esparramado numa cadeira em frente a uma loja faz-me um sinal convidativo para que lhe tire uma fotografia. Conversamos um pouco, o seu inglês é muito razoável. É mais um sírio que fugiu da guerra. Mais um que não precisou de fazer cenas infelizes na Hungria para escapar da morte. Tem ali o seu estaminé, sem dúvida sem os benefícios sociais dos cidadãos do país da Merkel, mas dorme tranquilo à noite.

O mercado é bem mais complexo e extenso do que parece à primeira vista. Há cargas transportadas por burricos, cores por todo o lado. Vamos comprar algo para comer e beber. O senhor que vende bolos não aceita o dinheiro. É oferta. Somos estrangeiros, quer-nos oferecer os bolos. Sentamo-nos num banco a lanchar e a observar a vida que ali palpita.

Já não se vai passar muito mais. Aproximam-se as seis horas, o dia escurece com a retirada do sol. E o ponto de encontro é lá na outra ponta de Mardin antiga, que não é assim tão distante mas ainda são umas centenas de metros.

Fomos encontrar o Erbil que chegou à hora certa. De manhã não tínhamos dado com o local mas agora sim, e os homens que se sentavam na casa de chá em questão conheciam o nosso amigo e quando ouviram o seu nome logo nos mandaram sentar. Afinal acabou em bem. O anfitrião é excelente, vamos para casa, a namorada está de visita e preparou um excelente jantar para nós. Comemos de tudo um pouco, cada alimento com uma história que nos é contada. Foi um serão muito agradável… e sabem que mais… o Erbil diz-nos com um enorme sorriso que sim, que podemos ficar duas noites… e agora… ?

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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