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Paris – Outubro 2014 – Dia 3

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Quilómetros nas solas: 14 Km

Rombo no orçamento:
5,60 Metro
9,00 Supermercado

Locais Turisticos: Cemitério Pére Lachaise, Cemitério de Montparnasse, Jardins de Luxemburgo.

Depois de duas noites no apartamento do Pierre  – que não estava em Paris mas que num gesto de extrema confiança nos deixou mesmo assim as chaves de casa no vizinho – mudámos neste dia de manhã para o próximo anfitrião, Alain, um homem ligado ao teatro que vive no pictoresco bairro de Belleville, que ganhou alguma notoriedade depois do sucesso do filme de animação  Les Triplettes de Beleville, apesar de na realidade a película não ter qualquer relação com o local para além do nome.

Belleville era ainda há pouco tempo uma aldeia autónoma, mais tarde engolida pela grande metrópole e ponto de refluxo de emigrantes de diversas origens. Formou-se assim uma “Chinatown”, uma área africana e uma zona árabe. É uma parte de Paris que tem fama de ser perigosa, mas talvez não passe mesmo de uma fama esculpida sobre o medo abstracto do francês caucasiano. A mim não me pareceu nada complicado e o Alain vive por lá há décadas e nunca teve nenhum problema.

Pelo contrário, é um pedaço de Paris bem colorido… mas os detalhes ficam para depois. Nesta manhã chegámos antes das 9, conforme pedido pelo anfitrião. Primeiras impressões positivas, dele, do apartamento, das redondezas. Conversamos um pouco, bebemos um chá, comemos uns doces. Alain deixa-nos as chaves de casa e vai à sua vida, direito a mais um dia de trabalho.

Relaxamos um pouco, tomo um duche e depois saimos com destino ao cemitério Pére Lachaise, um dos mais famosos de Paris, que fica aqui bem perto, com acesso através da mesma linha de metro (a M2).

O dia está cinzento, muito adequado para visitar este tipo de locais, mas inversamente agradável para passear pelas ruas da cidade. Ideal seria dedicar o dia aos cemitérios, mas é pouco provável que haja paciência para tanto. No plano de origem estão os cemitérios de Pére Lachaise, Montpartnasse, Picpus e Montmartre. Vamos tentar hoje os dois primeiros. Pelo menos as notas tomadas são nesse sentido. O percurso de metro – que pelo menos no início pode ser complicado considerando a multiplicidade de linhas – foi preparado.

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O cemitério de Pére Lachaise pode ser acedido a partir de uma estação de metro com o mesmo nome e é de facto uma atracção turística de Paris. Anualmente é visitado por mais de um milhão e meio de pessoas, mas felizmente, pelo menos nesta época do ano, não se sente essa pressão que esperava ser bem mais acentuada. O cemitério foi inaugurado em 1804, num terreno dos Jesuítas. A fama não advém exclusivamente da beleza estética de tantas das suas campas, mas também pela notoriedade de inúmeros ilustres “hóspedes”. São centenas, de todos os quadrantes da vida pública francesa e não só. Para citar apenas alguns nomes: Jim Morrison, Chopin, Oscar Wilde, Gertrudes Stein, Balzac, Gibert Bécaut, Maria Callas, Augusto Comte, Edith Piaf, Delacroix, Yves Montand, Marcel Proust, Moliere, La Fontaine, Modigliani. E tantos, tantos outros.

O primeiro impacto não é especialmente positivo. De início não me sinto cativado pelo conceito, a inspiração não chega, deixo-me influenciar por um pessimismo que esteve quase sempre presente nestes meus dias de Paris. Mas depois de andar uma centena de metros começo-me a embrenhar, os sentidos activam-se, a visão fotográfica distende-se, começa a actuar. Há detalhes aqui e acolá, perspectivas tomadas, contrastes descobertos. O entusiasmo cresce quando a campa de Chopin é descoberta. Não tem nada de especial, na realidade, mas há algo de especial nesta capacidade de quase tocar alguém tão marcante, de cuja música tanto gosto. E depois sucedem-se as celebridades, mas não são apenas elas que me devolvem a excitação pela descoberta do espaço… não… é um ambiente geral, bucólico, dominado agora pelas cores de Outono… pelo menos ali o ambiente tristonho do céu cinzento adequa-se, legitima a minha presença. Deixo-me abraçar e sinto-me bem.

O cemitério é enorme, nunca conseguiria vê-lo na integra e muito menos nas condições que mais à frente descreverei. Mas o Pére Lachaise é como o Louvre: são precisos dias para ficar com a sensação de que foi verdadeiramente visitado. Um dos poucos locais da cidade onde gostaria de regressar um dia.

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Existem excelentes guias, com a a localização das campas dos famosos. Podem-se encontrar online, impressas nos guias de viagem a Paris e mesmo no próximo cemitério, na recepção (não sei o preço). Neste dia seguimos a proposta de Frommer’s Memorable Walks in Paris e o balanço foi positivo. Levava também no GPS a localização exacta de algumas campas, o que foi precioso para nos enquadrar de cada vez que nos sentiamos perdidos.

Já começava a sentir aquele bichinho que nos diz que basta. A visão vai perdendo perspicácia, os pés latejam, a alma manda-nos para outras paragens. São os sinais da saturação. Sei que ainda há muito de belo para descobrir. Descubro os diversos memoriais às vítimas do holocausto nazi, que não estão longe da derradeira tomba de personalidades conhecidas que gostaria de espreitar, a de Edith Piaf. Mas nisto o meu telefone ganha vida, são SMS’s, são chamadas… problemas de trabalho, emergência! Stress! Tenho que correr para o apartamento, preciso de me colocar online. Ironicamente estou mesmo no local onde com mais dois minutos iria encontrar o local do derradeiro repouso da grande cantora francesa, mas não disponho desses dois minutos. Em passo rápido para o metro, para casa. Quando chego, já a crise está ultrapassada. Resolveu-se por si própria. Não sei se hei-de ficar satisfeito por ter as coisas resolvidas se aborrecido por ter que regressar, interrompido a vista e falhar o avistamento da campa de Piaf. Que se lixe. Já estava mesmo a ficar farto.

Mas lá fora o dia continua desagradável. Vamos lá então ao próximo, Montparnasse. Vá, só uma vista de olhos, para não ficar com a sensação que não o vi. Se for muito interessante certamente se arranjará a energia e motivação para mais um cemitério, senão, um passeio pelo bairro e logo ser verá. É muito mais pequeno e muito menos cativante. Tem também os seus “hóspedes” notáveis, mas no local apenas me apercebi de Sartre e Simone de Beauvoir, que viviam ali pertinho e se estabeleceram por estes lados para a eternidade. Mas há outros nomes, que podem ser consultados no artigo Wikipedia dedicado ao cemitério, e dos quais destaco alguns: Raymond Aron (uma leitura frequente dos meus tempos de universidade), Samuel Beckket, Citroën, Marguerite Duras, Durkheim (outro velho amigo dos tempos da Nova).

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Andámos um pouco pelas ruas de Montparnasse, em direcção aos Jardins de Luxemburgo, não muito distantes. E que desilusão foram. Nem consigo explicar, talvez não tenha percebido as verdadeiras razões do desapontamento. Fecho os olhos, puxo as memórias e vejo terreiros com terra batida, multidões, árvores sem vida, sem o verde das épocas de grande vida, sem o dourado de Outono… apenas um símbolo de uma uma invernia que não podia existir, que ainda não tinha chegado. Não encontro a tradição dos grandes jardins franceses, não recordo o encanto que no imaginário anda de mão dada com a palavra “jardim”. No centro existe um lago onde crianças brincam com barcos de vela. Em redor, dúzias de cadeiras de repouso feitas de metal pintado de verde oferecem um confortável pouso a todo o tipo de pessoais. Não se pode dizer que não haja vida nos jardins de Luxemburgo, tão amados por Hemingway nos seus dias de Paris.  Passamos junto ao palácio, que tem um papel na máquina de Estado francesa; não sei qual será, mas era solenemente guardado por gendarmes. Mesmo antes de acabar a visita, o ponto alto, a fonte de Médecis, uma maravilha com um ambiente especial – ver fotografia de topo deste artigo – a fazer lembrar os recantos mais encantados de Sintra.

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Na rua de novo. Estou cansado, frustrado e decepcionado com Paris de forma geral. Quero ir para casa, preciso de relaxar, de me esconder do cinzetismo que me envolve desde que cheguei à cidade. Preciso mesmo.

Chegamos bastante antes que o Alain. É Sexta-feira. Aliás, neste primeiro dia o anfitrião tem uma peça de teatro para ver, passa o serão fora, e será já quase à hora da deita que volta, ainda a tempo para alguma conversa. Passo uma noite regalada, que ter um quarto privado nestas andanças é um luxo e ainda para mais com um colchão dos mais confortáveis.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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2 comentários

  1. Os cemitérios teêm o seu lado de intemporal e de mistério. Curioso o cemitério dos Judeus em Praga…e que o Ricardo deve tão ben conhecê-lo.
    Aqui vai um link interessante acerca desta matéria.http://www.msn.com/pt-br/viagem/noticias/de-arrepiar-conhe%c3%a7a-15-cemit%c3%a9rios-interessantes-pelo-mundo/ss-BBg60zt?ocid=mailsignout#image=1

    • Obrigado pelo comentário é pela indicação: desses, visitei 3. O de Praga não foi um deles. Acho um sacrilégio que se peça dinheiro para visitar um cemitério como é o caso.

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