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África 2017 – Dia 4 – Bissau

Dormi melhor que nunca. Às oito horas saltei da cama, xixi, preparar a mochila, comer uma banana e rua, com o Minervino, para mais um dia.

O toca-toca passa logo, vamos para a cidade, mas à entrada o trânsito adensa-se até que pára por completo. É melhor caminhar. Parece que há outra marcha, como a de ontem, do PAIGC, a favor do Governo. É a Guiné e as suas maquinações políticas. O Presidente eleito, também do Partido, parece estar a mexer com interesses que não devem ser tocados, a opinião é que há um movimento para o derrubar. E hoje nem está em Bissau, anda pelo interior do país.

Ali numa rotunda há uma agitação, as coisas estão quentes, parece que alguém arremessou uma pedra, e as coisas estão mal paradas, já se sabe como é uma multidão e na Guiné as multidões não são fáceis, cheira a linchamento que acho que não chegou a acontecer, porque deslizámos dali rapidamente.nit

O Minervino foi trabalhar, eu segui a pé para o centro. A área do palácio do governo está bloqueado pela polícia. Todas as esquinas têm um contingente de homens que barram a entrada, quer a carros quer a pedestres.

Bem, sendo assim, tudo bem, desço a Amilcar Cabral, depois entro no centro histórico de Bissau. Mais umas fotos aqui e acolá, porque há sempre uma casa charmosa para documentar. Pelo caminho encontro o glorioso Sporting Clube de Bissau, que está num estado esplendoroso, com loja de franchising com artigos do clube, bonitos símbolos do clube e um estado geral que denota actividade e brio. Já a casa do Benfica, enfim, num estado triste, ali perto, também em redor do Estádio. Brincadeira. Mas o estado geral das coisas é de facto assim.

Sem procurar encontrei dois pontos de referência no que toca a locais frequentados pela elite de Bissau e pelos europeus. O Papa-Loca e o Restaurante Padeira Africana. Achei interessante o paralelo entre Bissau e São Tomé. Há muita coisa que se equipara e este estilo de estabelecimentos é um deles. Contam-se pelos dedos de uma mão e as caras são sempre as mesmas e dos mesmos géneros. Africanos abastados, do Governo, do mundo dos negócios. Brancos, empreiteiros, com empresas estabelecidas, pessoal diplomático.

Faltava-me fazer uma coisa em Bissau: visitar o cemitério, ver como é aqui um cemitério. Encontrei-o, por detrás do hospital. Um passeio interessante, com muitas casas coloniais pelo caminho. No recinto, lá ao fundo, num canto, há um enterro. Ouve-se carpir, há muita gente. Morreu alguém com um certo peso e influência. Há pick-ups novinhas parqueadas. Isso quer dizer alguma coisa.

Demorou um pouco a encontrar as campas que procurava, as portuguesas. Não sei explicar, mas é este fascínio que sinto pela presença portuguesa no mundo, talvez um grito desesperado de agarrar um tempo que já não volta, claro que não volta, mas para mim representa uma era doce, onde  tudo estava em aberto e fazia sentido.

Não há muitas destas campas no cemitério de Bissau, o que é intrigante. Haveria muitas mais que foram removidas e destruídas? Se sim, porque sobreviveram estas? Vi talvez dez. E umas outras, intrigantes, em alemão, de três pessoas que faleceram por aqui no início do século XX. Outra intrigante: um inglês que morreu em Bissau, com 85 anos, já depois da independência do país.

Passa por mim a chorar muito um homem jovem que é abraçado por algumas mulheres da família, vestidas a rigor, com trajes tradicionais.

Vejo um monumento português que celebra as campanhas de “pacificação” da Guiné e fico intrigado como terá escapado à remoção. E há um enorme talhão com um símbolo da Liga dos Combatentes.

Regresso ao centro histórico, para mais um par de Super Bock gigantes no meu pouso habitual, onde posso carregar os meus  dispositivos com electricidade, esse precioso bem em Bissau.

No fundo cheguei aquele ponto em que, como costumo dizer, já acertei as contas com a cidade. Posso passear um pouco mais, há sempre algo a ver de novo, mas pequenas coisas, detalhes, situações, gentes.

A rotina repete-se, depois da cerveja vem a fome. Vou comer ao Libanês, porque não, é relativamente barato, começo por uma shoarma e sigo para um bom prato de humus. Com salada. Salada… não sei se foi boa ideia.

Comunico no Facebook com o Minervino. Vamos a Bolama no  fim-de-semana ou não? Convém ir ao porto recolher informação, e como ele está a trabalhar toca-me a mim a fava de voltar ao centro a pé. Está calor. É normal, é a Guiné.

No porto falo com um homem. Não sabe garantir a hora da piroga para Bolama,mas vai ser cedo, por causa da maré. “Obrigado mê irmão”. Agradeço e retiro-me, sem saber  para onde, porque ainda falta algum tempo para o meu amigo terminar o serviço.

O aparato policial desapareceu das ruas. Ainda passa o pontual camião militar carregado de tropas, mas a cidade está serena. Gosto mais assim. E portanto vou visitar o café ao pé do Palácio, o Império. Uma Coca-Cola e um “Caracol”. Leio calmamente uns jornais que trouxe de Portugal, é o puro matar do tempo.

Vou então ter com o Minervino, mas vou apanhar uma certa seca já que ele só pode sair mesmo às 18 horas. Pelo caminho vai pedir o dia de Sábado para poder vir comigo a Bolama. Fica combinado. Vimos para casa de táxi, porque estava complicado de aparecer o toca-toca para São Paulo.

Estou a escrever isto agora ao serão e não me estou a sentir muito bem. Um pouco enjoado. Pode ser do calor, espero que seja só isso, penso na salada que comi. Se calhar não foi muito boa ideia… vamos ver.

O Minervino foi tratar de assuntos diversos, daqui a pouco vou dormir, vamos sair de casa às seis da manhã.

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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