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África 2017 – Dia 9 – Canchungo a Ziguinchor, no Senegal

Acordei ainda consumido pela indecisão que vinha de véspera: ficar mais um dia ou não? Sim ou não? Não? Sim? De repente, decidi. Vou embora. Pode ser que Ziguinchor seja ainda melhor… o hotel que vi na net pareceu-me muito bem, apesar dos quartos custarem o dobro de aqui, mas mesmo assim… decidi largar os 15 Euros por dia e até tinha Wi-Fi. O que fez mesmo decidir foi o pequeno nada de ter começado música ali.

Mandei as coisas para dentro da mochila, verifiquei bem se não esquecia de nada e saí. Dei a chave à antipática e fiz-me ao caminho.

Aquela hora não custou nada andar até à Paragem. Estava bem disposto. Muita gente se deslocava pela estrada, a pé, de bicicleta… muita coisa para ver.

Chego à estação, um senhor que me tinha cumprimentado na véspera vem falar comigo. Indica-me onde apanho o sept place para Zinguichor. Simples. Compro a senha. São 4.000 CFA. Uns 6 Euros.

Agora é esperar. Menos mal, o carro é uma Mercedes com bom aspecto. Sento-me lá dentro. Ainda faltam vender uns quantos lugares. Ao meu lado ficam duas avózinhas. Mas está a demorar tanto… que seca. Para piorar as coisas, ordem para mudar de carro. Para um chasso onde de facto não me apetecia nada ter que fazer uma viagem tão longa.

Saímos por fim às 10:18. As habituais paragens de verificação policial. Paragem para isto e para aquilo, para meter gasóleo. O condutor sai para abastecer e o depósito fica mesmo onde estou, de forma que fico cara a cara com ele que se abre num sorriso… “Branco!”.

Muitos quilómetros.  Boa parte deles é um retorno, ao eixo onde a estrada que vem de Bissau se bifurca. Dali para a frente terreno virgem que quero ver. Na aproximação aos rios a estrada transforma-se num mar de buracos, imagino que as cheias periódicas causem aqueles danos no pavimento.

Há poucas gentes por estas paragens, mas vão aparecendo. Duas meninas vão para a escola de bicicleta. Uma mulher passa, não sei vinda de onde e indo para onde, com um bébé nas costas, uma imagem bem africana. Há meninos que se refugiam  nas águas do rio para se refrescarem neste dia quente, uma pilha de bicicletas amontoadas junto ao tronco de uma árvore.

A fronteira vai-se aproximando. Noto que as fronteiras têm sempre uma influência negativa nas pessoas. A sério. Há uma tensão muda. Sempre foi assim, em todo o lado onde fui. Na carrinha não se fala, mas depois, mais tarde, quando passamos para o Senegal, as pessoas soltam-se, descontraem-se.

A última cidade guineense é São Domingos. Diz que daqui se vai a Varela, um paraíso de praia, a 60 km de terra batida e muito buraco. Passou-me pela ideia fazer isso, mas descartei… muito sofrimento por uma praia.

São Domingos parece-me a cidade de fronteira típica. Desagradável, com gente “bizarra”, tensa. Passam-se as fronteiras sem problemas. Do lado de cá encontro o Valter, o guineense mais simpático de todos, soldado ou polícia, não sei, um jovem de camuflado que tem a obrigação de me revistar a mochila, que faz com um grande sorriso e depois trocam-se contactos Facebook.

Verificação aqui, verificação acolá. O pior é entender-me com o condutor da carrinha. Sei lá se me espera deste lado ou do outro, vou às cegas. Ouço assobiar depois de ter o passaporte carimbado, lá está ele à frente, sou o último do seu rebanho a passar.

Depois, Senegal. Sem problemas. Carimbo no passaporte sem grandes perguntas e mais à frente revista de bagagem. Dupla verificação de passaporte e estamos a rolar para Ziguinchor, que não é longe.

Entramos em grande estilo, com outra carrinha a reboque, que atrelámos uns quilómetros antes. O que não teria nenhum problema, não fosse eu sentado mesmo atrás, ou seja, o primeiro a levar no caso de algum problema com a rebocada.

A  chegada não é dos momentos mais agradáveis. Eu sei que estações, sejam rodoviárias sejam ferroviárias, tendem a ser lugares suspeitos, mas em Ziguinchor a Gare Routiére tem mesmo um notável mau aspecto, entre as personagens que oferecem os seus serviços, os animais de todos os géneros que rondam, as pilhas de lixo, as oficinas escuras, os veículos decadentes… é um cenário dantesco. Não há outra palavra. Dantesco mesmo. Quero pirar-me dali para fora depressa.

Chego à rua e depois a uma rotunda e estou a caminhar em direcção ao hotel que escolhi na Internet. Não é longe mas também não é perto, uns 2 km. Chego lá e… está esgotado. O calor é muito. Tenho este condão africano de chegar sempre no pico do dia e com isso ter que transportar a carga sob o sol mais arrasador.

E agora… GPS… mostra-me aí outras opções… o seguinte só tem quartos triplos, que custam quase o triplo. Ali perto há um outro  que imagino esteja cheio e além disso é caro. Vou ter ao Aubert. 40 Euros por um quarto e é porque houve um cancelamento. Digo q eu vou pensar mas volto logo. Quero conforto e quero parar com o sofrimento do calor. Nunca paguei tanto por um quarto em toda a vida, mas fico.

Ar Condicionado, banheira, duche com água quente, piscina. Tudo um pouco decadente mas está lá. Um quarto amplo, Wi-Fi, uma secretária. Vou aproveitar, pago isto com cartão de crédito e não quero pensar mais nisso, mas resta-me um problema: o que fazer nos dias seguintes? Tinha pensado refugiar-me em Ziguinchor uns dias, a trabalhar, mas parece que não vai ser possível.

Vou pensar, tentar decidir… o barco para Dakar.. é preciso comprar bilhetes com antecedência e de qualquer modo é demasiado cedo para lá chegar. Ir para a Gâmbia… não sei, cada vez estou menos interessado em ir lá… soa-me a um inferno turístico, uma espécie de Albufeira africana, cheia de “bifes” e “hustlers”. Faço uma segunda ronda a ver se encontro quarto para o dia seguinte mas nada… está tudo esgotado.

Leio o PDF do Lonely Planet… Cap Skering, um local turístico aqui próximo… não seria uma escolha natural mas creio que é lá que vou matar algum tempo. Para já aprecio o fim de tarde na esplanada sobre a água do rio Casamance do Hotel Peroquet, o tal que está esgotado.

Vou dar uma volta, espreito os restaurantes referenciados. Descubro a catedral e o palácio da justiça. Ziguinchor não me convence. O centro histórico não se parece com um centro histórico, como por exemplo em Bissau. Parece um um subúrbio.

É de qualquer modo pictoresco. Estamos na hora de ponta. Há muita gente a circular. O ambiente mudou, em relação à Guiné. As pessoas são mais simpáticas. Talvez não seja a melhor palavra  porque não tenho interacção… melhor dizer “menos crispadas”. Não há aquela hostilidade para com a vida que senti quase permanentemente na Guiné Bissau. Está a escurecer, vou dirigir-me para o hotel. Até gostei deste fim de tarde.

Vou jantar ao restaurante. E que bela ideia. Na mesa ao lado estão três americanos. Nunca pensei viver para chegar o  dia em que me desse gosto ouvir inglês americano. Bem, as costoleta de porco que encomendei já não está disponível. Então um bife. E que senhor bife! Do melhor que já comi! Enorme, tenro, com um molho de pimenta delicioso. Bebi duas cervejas e vou para o luxo, mando viruma mousse de chocolate. Por tudo paguei 12 Euros e vou muito satisfeito passar a noite.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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