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Índia 2019 – Dia 05 – Nawalgarh

A noite foi passada nem melhor nem pior do que seria de esperar quando se dorme num vagão com camas. Mal, com algum sono, interrompido múltiplas vezes. Lá pelas cinco da manhã chegámos a Nawalgar, este pouco habitual destino que fui desenterrar já nem sei bem onde. Porquê Nawalgar? Porque me pareceu uma boa primeira paragem fora de Delhi, uma pequena cidade conhecida pelos seus havelis, residências apalaçadas ricamente decoradas com pinturas murais.

As coisas não começaram da melhor maneira. Ao contrário do que gostaria e do que é costumeiro na Índia, o comboio chegou adiantado. Logo hoje, que um atraso de um par de horas me daria tanto jeito. Mas não. Adiantado. Largado na madrugada gélida numa plataforma sem melhor abrigo do que uma estrutura aberta, por onde o vento frio circulava como se nada fosse. Nenhum lugar para onde ir a estas horas.

E ali passei o que até agora creio ter sido o frio mais intenso da minha vida. Cheio de sono mas sem poder parar de me mexer, porque imobilizar o corpo seria baixar a única defesa contra o frio.

As pessoas que saíram do comboio logo desapareceram. No exterior, a escuridão, com uma fogueira lá longe, que ardia para conforto de alguém. Ficou um rapaz à espera de alguém, com quem conversei um pouco, até na secreta esperança de ser convidado para algum lugar quente onde esperar pelo passar das horas. Mas não aconteceu e logo a solidão e o frio ganharam força.

Devagar, muito devagar, a claridade foi chegando e o relógio avançando. Começaram a passar por ali pessoais locais, a caminho das suas lides, com passo decidido. E por fim chegou a hora de começar a andar. Agora seria preciso encontrar o alojamento, a uma certa distância.

Os primeiros passos em Nawalgarh deixaram-me logo fascinado. Uma longa estrada estende-se quase em frente à estação, na direcção do centro histórico. A luz está fabulosa, com os tons quentes da alvorada a predominarem. Ainda não há muitas pessoas por ali. Aquelas horas parece até uma avenida sossegada, mas em breve se encherá de movimento. Vejo os estabelecimentos comerciais, com slogans e marcas escritas num alfabeto exótico. O homem que passa de bicicleta, cruzando-se com o que vem em nossa direcção, de mota, a luz acesa. A avenida é asfaltada mas há tanta areia e poeira que parece ser de terra batida.

Passamos junto a um enigmático palácio em ruínas e mais à frente um edifício igualmente misterioso, apesar deste último deixar bem claro ser uma escola. Antes de chegar ao centro viramos à esquerda, passando junto ao que penso ser uma mesquita. No terraço de um prédio surge uma figura mística, uma rapariga jovem que inspira o ar da manhã e que a qualquer momento parece poder levantar voo como uma personagem de animação japonesa. Afinal aponta-nos apenas o caminho certo. Já estamos perto.

Entramos na casa onde ficaremos mas não se vê ninguém. Sentamo-nos um pouco nos sofás que ali há. Já passa das oito, hora combinada para a chegada. Invado um pouco o que parece ser uma área privada e consigo ser visto. Logo os anfitriões farão o check-in. Dados pessoais preenchidos no livro da ordem, é-nos mostrado o quarto, no primeiro andar, com uma decoração interior a remeter para o estilo dos haveli. Sossegado. O melhor é tirar já uma soneca, recuperar dos desconfortos da noite e início da manhã de forma a aproveitar o resto do dia.

Nem sei quanto tempo dormi, mas ao abrir os olhos sei que está na hora de sair para a rua e ver Nawalgarh. As primeiras impressões, colhidas pela manhãzinha não se confirmam… excedem-se. Isto, para mim, é a viagem no seu melhor. Gente, uma cultura diferente, um ambiente amigável e um mundo mágico que me rodeia. É a Índia como a imaginaria no seu melhor. Tirando as imagens negativas, de miséria, de desumanização, cenas que povoam uma parte do imaginário de qualquer um quando o pensamento flui para este enorme país.

Há cores e lojas exóticas. Uma multidão vestida de formas que remetem para o meu imaginário Tintim, uma Babilónia de culturas e credos. Fascínio. E depois, as haveli. Quando li sobre o assunto pensei que simplesmente iria ver um par de palácios ricamente ornamentados com frescos. Não. Os haveli estão por todo o lado, símbolos de uma burguesia extinta. Alguns estão em ruínas, outros são pobremente habitados e uns quantos foram preservados e recuperados, sendo actualmente casas-museu. Estas são lindíssimas, mas acho que o que gostei mais for de entrar por ruas ao acaso e dar de caras com paredes decadentes ilustradas com elaborada histórias contadas pela pintura.

Andámos por ali, usufruindo do ambiente. Uma das portas da cidade parece saída de um conto das mil e uma noites. As pessoas cruzam-na a pé ou de motorizada. Em seu redor uma série de lojas, muito tradicionais, típicos estabelecimentos de bazar. E o mais maravilhoso é a ausência de estrangeiros ou traços de turismo. Tirando as motorizadas, fica-se com a ideia que nada mudou nos últimos duzentos anos.

Visitamos um dos havelis mais famosos. Os bilhetes são de valor simbólico e neste caso incluem uma visita guiada (claro que o rapaz esperava uma gratificação mas quando me dizem que o guia está incluída, eu levo a sério). É uma coisa fantástica. Pode-se fotografar à vontade e não me fiz rogado. São locais assim que me fazem pensar as piores coisas sobre as políticas que envolvem a lista de Património Mundial da Humanidade da UNESCO. Se Nawalgarh não faz parte, como não faz, então nada mais faz sentido.

Há tão poucos visitantes que as pessoas vêm pedir para tirar fotos connosco. E contudo não há pressão, não há olhares de soslaio nem me sinto especialmente observado. É difícil descrever por palavras um dia assim passado, porque quase literalmente a cada minuto há algo que mereceria ser contado e descrito. Não é possível, mas é mesmo assim.

O calor aperta e à saída de mais um haveli ficamos um pouco sentados num muro, à sombra, próximo da uma estrada movimentada e em frente a uma pequena mercearia que tem clientes sem interrupção. Mesmo ao meu lado uma vaga petisca o punho do guiador de uma motorizada. Passam meninos da escola com os seus uniformes. A energia é retemperada na frescura relativa que a árvore oferece.

Mais um haveli, este último muito peculiar: está semi-abandonado, vive ali uma família cujo homem extorque dinheiro aos visitantes como eu para darem uma vista de olhos. É que paguei mesmo. Queria tanto ver o interior…. e foi agradável. Depois de pago, abre as portas e deixa-nos por lá, livres para cirandar e sentir o ambiente. É já nos arredores do centro da cidade e sente-se uma certa ruralidade. O toque de abandono adiciona-lhe algum charme e a tarde que cai é tranquila. Mais um momento agradável em Nawalgarh.

Ali defronte há um templo, muito pitoresco. Um menino aproxima-se a medo, olha por cima do ombro e eu sigo-lhe o olhar, que é dirigido à mãe. Da janela, a uns 150 metros, faz-lhe sinal para avançar, para fazer o que vinha fazer, que é, muito timidamente, pedir-me para lhe tirar uma fotografia.

Seguimos por aquela rua mais um pouco. É mesmo uma periferia que parece ir ter a nenhures. Compramos uns doces e voltamos para trás. Vão sendo horas de regressar a casa. Foi um dia muito longo e é preciso não esquecer o desconforto da noite e início da manhã. O cansaço faz-se sentir, sublimado com o calor.

Percorremos as ruas em sentido inverso, relativamente perdidos, ainda com os olhos em novas descobertas. E ainda há algumas. Ambientes e detalhes de Nawalgarh. Chegamos a casa a tempo de usufruir de um momento fabuloso: põe-se o sol, o céu apresenta tonalidades de azul e laranja e aquela hora as pessoas sobrem aos terraços para mandar papagaios. Os mais novos, sobretudo, mas entre eles há sempre graúdos que vêem ali uma oportunidade de ouro de regressar à meninice.

Acenam-nos, dizem adeus, enquanto lá em cima evoluem aqueles pedaços de papel mágicos, ligados à humanidade por um fio. Ali, nos telhados, conhecemos um casal de alemães (ou seriam canadianos…? Já não me recordo) que viaja. Gente um pouco mais velha. Encetamos conversa que se estenderá mais tarde, quando em roda do fogo que a família anfitriã acende nos aquecemos.

Com um dia destes, num local assim, apresento uma galeria completa, a ver de seguida:

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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