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Médio Oriente 2015 – Urfa – Dia 15

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De manhã não estou mal, mas não acordo à hora combinada. O Halil bate suavemente à porta. São oito horas. Oops! Levantar à pressa, preparar, rápido. O pobre Halil tem de trabalhar e a sua generosidade tem sido máxima. Saímos com apenas dez minutos de atraso. Deixa-nos no Abide Park mas o centro comercial e o café ainda estão fechados. Lado a lado dois horários, um que indica a hora de abertura às nove e outro às dez. Não importa, seguimos caminho.

No mapa da cidade estavam marcados os objectivos para o dia. Alcançados um a um, todos nesta linha de avenidas que se estende desde a rotunda onde se encontra o Abide Park até ao lago dos peixes.

Urfa é uma cidade mesmo muito agradável. Eu acho. Adoro esta combinação entre modernidade e uma faceta exótica, milenar, diferente, que nos leva a viver outros tempos, marcados pelos mistérios do Oriente.

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Nas rua empedradas de Urfa um viajante pode perder-se, deixar-se ir, fluir sem destino, descobrindo a cada esquina um novo detalhe. São assim como as de uma medina marroquina, mas infinitamente mais limpas, mais claras. Algumas casas são centenárias, quase milenares. Pela vielas distribuem-se mesquitas, palácios urbanos e igrejas. Os portões antigos contam estórias de antigamente. Só por aquelas ruas vale a pena ir a Urfa, mas há muito mais.

Descobrimos o museu da cozinha. Entramos, um pouco a medo. Sim, está aberto. E parece que não é preciso bilhete. Adorável Urfa que tão bem trata os seus visitantes. Para além do património urbano adoptado pelo Estado e aberto indiscriminadamente ao público que o pretenda visitar, também alguns museus recebem sem exigências.

Um funcionário indica-nos sucessivamente as portas em que devemos entrar para seguir a visita do museu. Ainda é cedo. Um homem chega ao recinto. Só pode ser o boss. No páteo há um espaço estranho, que parece um gabinete de trabalho ao ar livre com toques de sala de museu. E não é mais do que a sala do trono daquele que acaba de chegar. Pouco depois terminamos a visita. Muito bem. Um pequeno museu que se recomenda, a sua meia dúzia de salas repletas de dioramas e utensílios domésticos. Vamos a sair quando o califa do museu chama… “hallo!”. Para ter a certeza que o livro de visitas tinha sido devidamente rubricado. Por acaso tinha.

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Um pequeno hotel instalado numa antiga casa otomana deixa-se visitar por quem deseje. Nesta terra até os hóteis seguem esta agradável política das portas abertas.

Chegamos ao bazar que exploramos distraidamente. É de facto um dos mais interessantes que visitei, com o tamanho certo, sem vendedores “agressivos”, com uma variedade de produtos apresentados numa área relativamente reduzida. O mercado oriental para iniciados.

Pelo meio encontra-se o haman, aquela instituição do mundo otomano, o hotel para viajantes de outros tempos, com jeitos de forte, em forma de quadrado, com um páteo interior e um ou dois portões. O de Urfa é um mimo. Pelo páteo estendem-se mesas de café, tradicionais, que recebem uma pequena multidão de homens que jogam às cartas enquanto bebericam, à vez, café e chá. Nas orlas há bancas de venda e oficinais, e no anel do primeiro piso reinam os costureiros que laboram com grande intensidade, alguns com oficinas que se dão ares de fábrica. Um vendedor de chá proõe-nos a bebida, pergunta-nos de onde somos e apresenta-se orgulhoso: “Me, Kurdish”, sorriso aberto, a mostrar uma dúzia de dentes de ouro. O haman de Urfa é algo a não perder.

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O bazar ganha vapor. A manhã avança. Uma pequena comitiva cuja figura central é uma mulher jovem de saltos altos anda por ali. Politiquices, certamente. Mais à frente uma lojinha de sumos de fruta. Compro um copo de sumo de romã, que me custa 0,30 Eur. Nunca tinha bebido sumo de romã, por incrível que pareça, e nunca o tinha visto a este preço. Delicioso. Um pouco amargo, talvez tenha tido azar na peça de fruta, mas delicioso na mesma.

Um velhote vende lenços e ainda penso em ver a mercadoria. Gosto de lenços, é o que trago de viagem, quando vou a locais onde existe a cultura dos lenços. O que é o caso de Urfa. Mas não, deixo passar.

Compramos uns bolos, muito agradáveis, e logo à frente apaixono-me por um batido de abacate com muito mel. O homem serve-nos copos grandes pelo preço dos pequenos. Há terras – e não são poucas – onde o estrangeiro está sempre a pagar a mais. Aqui, parece acontecer o contrário.

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Agora estou cansado. Sinto que é também a marca da gripe. Na galeria comercial que une o parque do lago dos peixes à zona do bazar descobrimos um agradável café que tem wi-fi. Agradável em todo. Pela Internet, pela vista para o castelo e para a mesquita, pela simpatia do pessoal, pelos preços, pelo seu dono, que se senta a jogar às palavras cruzadas com um cliente mais idoso e que nos oferece um chá – que recusamos mas que certamente não seria suposto pagarmos.

E estamos para ali quando o Halil envia um SMS. Está cheio de fome, vamos almoçar. Já está à nossa espera em frente ao hotel que nestes dias se tornou ponto de encontro. Está ele e está a amiga. Avançamos pelo trânsito louco de Urfa até ao seu restaurante de eleição. Estou-me a sentir muito mal. Mas depois de me sentar à mesa, com a temperatura ideal, recupero forças e a refeição sabe-me bem.

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O Halil pergunta quais são os planos para a tarde. Eu quero é descansar. Sem problemas, ficamos lá em casa então. E assim sucede. São duas horas e fica combinado que pelas sete ele passará por lá para nos levar ao autocarro para o aeroporto. É um descanso que cai mesmo bem. Ataco a gripe com aquilo a que chamo uma cura de água, bebo quatro garrafas de litro e meio em quatro horas. Faz sempre efeito. Dormito, leio um pouco. Durmo mais. Passam-se as horas e sinto-me recuperar as forças.

Mesmo antes das sete ele lá está. Deixa-nos no autocarro, na rotunda do Abide Park mas do lado oposto, na estação de gasolina de onde partem os autocarros Havas. Corre tudo bem. Os dias de Urfa chegaram ao fim e foram gloriosos, ensombrados apenas por aquela gripe malvada, mas mesmo assim com um balanço muito positivo.

Chegamos a Istambul, autocarro para Taksim. Já não há metro. Será uma marcha de 3 km até casa, sem incidentes. O Emre fez confusão e não nos esperava, coitado, deve ter apanhado uma surpresa, à uma e meia da manhã alguém a mexer na fechadura, a entrar em casa. Mas recompôs-se depressa.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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