América do Sul, Dia 41 – Arequipa

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Dia 7 de Fevereiro de 2020, Sexta-feira

O dia começou cedo como planeado. Às seis e meia da manhã pouca gente se via nas ruas. Mas o céu carregado retirava do mundo que me envolvia uma boa parte das cores que desejava vibrantes.

As ruas de Arequipa são bonitas. É uma cidade agradável. Há edifícios históricos, muitos, ao longo destas artérias. Num instante chego à praça principal. Um veículo vai lavando o piso, e nas laterais há cargas e descargas. Apesar de essencialmente pedestre esta praça tem uma faixa reservada para serviços essenciais.

Mesmo com o céu cinzento dá para perceber que o sol vai ganhando força por detrás do manto de nuvens.

O caudal de pessoas vai engrossando. É hora de ir para o trabalho, uma espécie de rush hour provincial. Ser cedo é um problema. Queria visitar uma quinta de lamas que existe na cidade mas ainda está encerrada. Um simpático agente de segurança dá-me todas as informações. Mais tarde. Que seja.

Para fazer tempo exploro as vielas do bairro adjacente. É encantador. Chama-se San Lázaro e vive-se ali em grande tranquilidade. As casas não são fabulosas, não são daqueles exemplares arquitectónicos que caracterizam o centro da antiga capital do Peru colonial. Mas são mesmo assim bonitas, sente-se-lhes uma alma, percebe-se que têm estórias para contar.

Encontramos uma pequena tasca que pensamos ser ideal para o pequeno-almoço. E foi uma escolha em cheio. Delicio-me com um sumo de fruta natural e uma bela sandes de ovo. De tal forma que logo peço outra. E às tantas estamos à conversa com a senhora, a proprietária do estabelecimento. Quem diria, caminhante habitual, leitora ávida, apaixonada pela obra de Saramago e pelas coisas do mundo. Muita conversa ali se fez, numa descoberta mútua de gostos e interesses. Um daqueles momentos inesperados que surgem assim, de repente, sem aviso. Falamos do Peru e de Portugal, de viagens e de livros. Um sítio onde haveríamos de regressar.

Entretanto fez-se hora de visitar o Mundo Alpaca. A entrada é gratuita. O financiamento faz-se pela venda de produtos de lã de alpaca. A verdade é que não dava nada pelo local, que me pareceu muito turístico. De certa forma é, mas também é fascinante. Existem uns quantos desses intrigantes animais e senhoras que trabalham a sua lã. Há um museu, pequeno mas muito interessante e um segundo museu, nas mesmas instalações, onde não são permitidas fotos.

No Mundo Alpaca vêem-se máquinas industriais, usadas noutros tempos para processar a lã. E fotografias antigas, que as enquadram em plena actividade. À saída, uma loja. Produtos muito caros. Um lugar a não perder.

Voltamos ao centro percorrendo de novo as ruas de San Lázaro. Agora iremos visitar a Casa del Moral, um edifício histórico, de 1730, construído em perfeito estilo barroco. É uma casa museu. O bilhete é barato e no interior existe um pátio em redor do qual se encontram as divisões da casa. A colecção é interessante, com muita arte a mobiliário de época.

Agora na praça principal, com o céu já a ganhar um bonito azul. Ainda não há muitas pessoas por ali. Estamos a meio da manhã. Quem passou para o trabalho já foi e a enchente social de fim de tarde ainda vem longe.

De seguida subimos a Yanuhara, a pé. Foi a grande decepção de Arequipa. Estava prometido um miradouro, um bonito bairro, museus, igrejas centenárias. Achei tudo aquilo desinteressante, sem sabor. O miradouro não tem nada de especial, o bairro não tem piadinha nenhuma e os museus ou estavam fechados ou não os encontrei. Um bocado de tempo perdido.

Foi tanta a frustração que chamei um Uber (em consonância com o momento menos bom o carro demorou imenso) e saí dali para fora, só parando em “casa”. Altura de descansar os músculos, relaxar um bocado. Afinal de contas tinha estado a ser um dia bem preenchido.

Lá em baixo a criança ora chora ora dá gritinhos de alegria. Enquanto o pau vai e vem folgam as costas e o silêncio domina. Estou muito satisfeito com a escolha deste alojamento.

Já para o final da tarde saímos de novo. Uma breve caminhada até à praça. Pelo caminho, muito trânsito. Afinal é normal, estamos de novo em hora de ponta. Os autocarros vão cheios, expelindo amplas baforadas de fumo bem negro. Chegam, param e arrancam sem interrupção. Os destinos são anunciados alto e em bom som.

Continuo a gostar de Arequipa. Foi o único pedaço do Peru de que gostei mesmo. A pequena cidade tem muito para ver, um ambiente extraordinário e até um bem dotado supermercado. Pensando bem, não me recordo da última vez que tive acesso a um supermercado assim. Talvez só antes de partir de Portugal.

Chegando à praça principal, uma surpresa: algo se passa. Há muita gente. Mais do que é normal, mesmo considerando que estes espaços são lugar habitual de congregação da comunidade.

Pessoas de fatos coloridos distribuem balões a crianças. Os cidadãos transpiram expectativa. E então começa… um desfile carnavalesco.

Agora, o melhor ainda está para se revelar: a temática do desfile são os medicamentos não homologados. Está bom de se ver. A indústria farmacêutica promove, o povo diverte-se e fica advertido sobre os perigos dos fármacos piratas. E então ali estou e para lado que olho vejo slogans contra o uso desses medicamentos.




Não só, claro. Vejo muito mais. Crianças felizes, monstros de antas, corsos de roupas coloridas que desfilam e dançam como se não houvesse amanhã. E uma multidão que vibra.

No céu nota-se que o dia está a chegar ao fim. E assim como o dia, a festa. Depois de algumas voltas à grande praça o ritmo dá sinais de abrandar. Em frente à catedral o júri delibera sobre os vencedores do desfile.

A noite vai caindo e as cores no céu são fantásticas. Muitas pessoas mantêm-se por ali mas outras vão dispersando.

Vamos dar uma volta por aqui. Já está escuro mas ainda há muita gente nas ruas. Vamos ao tal supermercado e depois é hora de encontrar uma geocache em Arequipa.

Está escondida num lugar interessante, um complexo histórico de origem religiosa, que agora alberga algumas esplanadas. Ali mesmo faço amizade com um chileno que falava com um amigo sobre a língua portuguesa. Um viajante, um homem do mundo e um apaixonado por futebol. Mantemos contacto no Facebook.

E com isto o dia chega ao fim. Bem preenchido e cansativo. Está na hora de um descanso merecido.

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