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América Latina 2016 – Dia 14 – Masaya

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Acordei logo com uma dúvida: ficar a relaxar ou aventurar-me a uma ida ao vulcão Masaya. Bom, descansar uns dias em Granada era parte do plano. Ler, escrever, enfim, fazer exactamente o que significa o verbo “descansar”. Por outro lado o vulcão Masaya, aqui tão perto, activo, parecia simples de visitar, sem grandes chatices nem despesas. E pelo caminho, como um bónus, El Coyotepe, uma prisão abandonada, um símbolo da repressão do antigo regime da Nicarágua, da ditadura de Somoza.

Aconteceu de forma espontânea, decidi ir. Comi uma banana com pão aqui no hostel, perguntei à Merced como chegar aos autocarros para Managua, preparei a mochila e fui.

Ainda era cedo, sabia que o Parque Nacional Masaya só abriria às 9 horas mas demoraria algum tempo para lá chegar. Tudo foi simples… lá estava uma pequena estação de mini-autocarros onde me disseram. São supostamente expressos para Manágua. A viagem até à capital custa 25 COR mas para onde eu ia paguei 20 COR. Perguntei ao anunciante se me poderia deixar à entrada do Parque Nacional. Claro, disse ele. Lá fomos. À saída o autocarrozito ia com os lugares sentados ocupados, mas ainda não tinha ficado Granada para trás e já não havia um espacinho em pé.

Paguei o meu bilhete ao ajudante e disse-lhe para onde ia. Passámos a cidade de Masaya e pouco depois vi a prisão no topo de uma colina. Avançámos mais uns quilómetros antes do ajudante me fazer sinal para me preparar para sair.

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E ali estava, com a entrada do Parque mesmo à minha frente. Olhei para o relógio. Damn! Vim demasiado depressa, ainda são 8:15. Aproximo-me, leio os cartazes. Bom, se quiser boleia para cima terei que esperar ainda mais. O autocarro do parque para cima, para o vulcão, só sai às 10 horas. Isso ou ir à pata para cima. São cerca de 6 km, sempre a subir.

Nisto chega outro visitante, um rapaz alto, muito branco. Começamos a conversar. É francês. Chega um carro. Mais estrangeiros. Perguntam-nos se falamos francês. Hummm tive uma ideia… pergunto ao meu novo amigo se, já que são todos franceses, não seria boa ideia cravar ao casal com o carro uma boleia para cima? E assim ficou arranjado. Que bueno! O bilhete para o Parque são cerca de 3 Eur. E assim não mais despesas com transporte.

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Abrem-se as portas e vamos, de carro. Uma paragem breve no centro de visitantes para assinar o livro de registo. É obrigatório. E depois então até lá acima. Despedimo-nos todos. O rapaz talvez o veja mais tarde. Ele está a chegar a Granada e recomendei-lhe o hostel.

O Masaya é um vulcão activo. Não que cuspa pedras e lava, mas a emissão de fumos é constante. Ouve-se um ruído gorgolejante, as entranhas da terra falam comigo. Mete algum respeito, mas não me impressiona tanta como esperaria. Somos literalmente os primeiros a chegar. Poucos minutos depois já há mais visitantes, mas para já é tudo nosso.

Ando por ali, a ver, a tirar fotografias. Depois afasto-me, tomo um dos trilhos de caminhada que há por ali. É magnífico. Mesmo ao lado da cratera activa existe uma outra, cujo topo se pode percorrer, num percurso circular. Subo a um promontório e vejo o lago de Masaya lá em baixo. Dois homens passam num outro trilho, não muito longe, montados em mulas. É um momento muito bom. Hesito entre regressar e prosseguir, dando a volta completa. Vejo ali umas subidas que me custarão algum suor mas sinto-me tão bem fisicamente que decido avançar. Que má opção!

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Não tinha ainda andado muito quando me sinto cair no vazio. Não sei como aconteceu, não me lembro de ter escorregado ou perdido o equilíbrio. Num instante estava a caminhar normalmente, noutro mergulhava sem apoio, encosta abaixo. Foi uma queda de cerca de dois metros, sobretudo a rolar. Recordo-me de pensar que estava tramado, que era o fim. Tive tempo de o fazer, mas o instinto de sobrevivência funcionou, abri os braços e travei a dinâmica de queda, agarrando ervas e arbustos. Felizmente a área tinha vegetação rasteira. Se fosse só gravilha, teria sido o fim. Quase certamente rolaria até lá abaixo e não sei em que estado ficaria.

O pensamento seguinte foi “safei-me”. Parei ali mesmo. E uma fracção de segundo mais tarde ouvi um “pluff”. Oops. A câmara foi-se, nunca mais a vejo. Mas no azar um pouco de sorte: ficou ali, um patamar abaixo, e resgatei-a sem problemas. Pego nela e caiu-me o coração aos pés.. nada de lente, apenas uns fios pendurados. Balanço rápido: podia ter-me aleijado a sério e tenho apenas uns arranhões em sangue. Podia ter batido a bota e estou vivo. Podia ter perdido a câmara mas talvez o dano seja apenas a lente. Pensava aliás que a dita cuja tivesse prosseguido a viagem para baixo, mas encontrei-a mais acima, mesmo encostada ao trilho. Para dentro do saco. Um souvenir.

Foi nesse trilhozito que aparece do lado esquerdo da foto...
Foi nesse trilhozito que aparece do lado esquerdo da foto…

Pronto. Agora é regressar, rapidamente. Preciso de Internet, de ver onde e quando é que posso repôr a lente e testar o corpo da câmara para saber se não tem danos.

Sigo em passo rápido pensando em tudo isto. Será que existe um representante da Nikon na Nicarágua? E se não puder resolver a situação… comprarei uma câmarazinha compacta para desenrascar? Só quero é chegar ao hostel para ter acesso a informação. Passo pela área de observação do vulcão activo. Está cheia de turistas agora. Mas passo e nem olho duas vezes. Estrada abaixo, 6 km sob um calor abrasador. As feridas doem-me um pouquito, só um pouquito.

Talvez seja ainda a adrenalina mas sinto-me uma máquina de caminhar. Serão 6 km em passo larguíssimo, sempre a abrir. Há apenas duas interrupções: encontro um casal jovem de alemães a caminhar para cima e vejo que ele tem uma Nikon. Conto-lhes o que aconteceu e deixam-me experimentar a lente deles na minha D90 e funciona bem. Menos mal.

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Depois paro no centro de visitantes, pergunto ao pessoal de lá se são de Masaya, se conhecem alguma loja de artigos fotográficos. As respostas são inconclusivas. Que não, que sim… mas para lá chegar… decido passar à frente. Bebo uma Coca-Cola e sigo viagem.

Na estrada espero um pouco, logo aparece uma carrinha com um ajudante a gritar… “GRANADAAAAAA… GRANADAAAAAA”. Perfeito. Salto lá para dentro em andamento e depois é esperar que chegue.

O resto do dia passo em investigações. Contacto couchsurfers, alguém me sugere para procurar junto da comunidade de estrangeiros residentes em Manágua e em Granada. Vejo anúncios de usados. As coisas começam a rolar mas não há nada definido.

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Saio apenas para comprar coisas. Sem câmara perco o interesse pelas coisas. Estou tão habituado a olhar o mundo de uma forma fotográfica que me sinto estranho, quase cego, sem a habilidade de fotografar. Há quem pense que estar sempre a tirar fotografias arruína a experiência de se viajar, que se está tão atarefado a tirar retratos que não se vêem as coisas… para muitas pessoas talvez seja verdade, mas para mim é o oposto. Procurar a fotografia treinou o meu olhar, que está sempre alerta, sempre em busca. E quando não há uma câmara para concluir o acto, fica uma sensação muito estranha. É triste.

O rapaz francês apareceu a meio da tarde e ficará duas noites connosco. Somos agora três. Eu, o Morris e o rapaz francês.

À noite chegam os tipos do grupo. São eslovenos. Vejo um jogo de futebol com o Roger. Bétis 1 Real Madrid 1. Os eslovenos fazem uma festa, bebem, vão fazer uma barulheira infernal até à uma da manhã, sem qualquer respeito pelos outros ou pelas regras do hostel. Trata-se de um grupo de viagem com um tour leader.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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De El Castillo a Granada num dia é um belo esticão. É dar quase a volta ao país, à Nicarágua,e fez-se, com alguma aventura.

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