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Ásia Central 2019 – Dia 15 – Khiva

O comboio para Khiva partia às 12:24, sendo portanto esperado que estivesse na estação pelas 11:54 e para isso o meu anfitrião recomendou o agendamento de um táxi para as 11:00. Achei um pouco acautelado de mais, mas tudo bem, assim como assim estava de contas feitas com Bukhara e esperar por esperar poderia bem ser na estação ferroviária.

Dormi muito bem, deixando-me ficar na cama até um bom bocado depois de ter acordado. Não tinha nada para fazer, simplesmente isso. Desci lá abaixo, tomei um pequeno-almoço pobrezito, voltei para o quarto, esperando pela hora da partida.

E lá estava o taxista, respeitador do horário. Não cheguei a ver o anfitrião. Seguimos pelo trânsito, demorando uns 15 ou 20 minutos a chegar à estação de comboios. Antes, avistei um palacete em estilo, creio, neo-Clássico. Disse ao taxista para parar logo ali, queria dar uma vista de olhos. Paguei-lhe os 2,50 Euros pela corrida de 15 km e fui ver.

Não percebi o que era. Deve ter um passado fabuloso e talvez agora esteja dividido. Entrei numa porta, acedi a uma sala que já terá sido opulenta. No exterior há cartazes de filmes e chega-me o som de uma fita. Um homem assoma-se, mira-me e desinteressa-se. Tiro umas quantas fotos. Um casal de jovens sai do que parece ser a sala de cinema. Vou andando.

No exterior há um parque, que no passado seria o jardim do palacete, e onde há diversões, como numa feira popular, imobilizadas e decrépitas. Fica-me a dúvida… será que no verão serão trazidas de regresso à vida?

Chuvisca. Vou para dentro da estação e logo chamam para o comboio. A multidão é composta para aí em 80% por estrangeiros, turistas.

A minha primeira experiência ferroviária no Uzbequistão tinha sido excelente. A segunda, nem por isso, e esta seria assim assim e passaria a perfeita se não fosse uma criatura que passou a maior parte da viagem na berraria a poucos metros de mim. O lugar era à maneira. Na realidade o lugar foi o que eu escolhi, porque depressa que neste comboio estava estabelecida uma Respública em auto-gestão, de forma que nem sequer o meu bilhete foi visto. Foram cinco horas que passaram mesmo assim num instante e logo estava a sair em Khiva.

Aqui, não há taxistas à saída. Se calhar porque sabem que as pessoas não são parvas de todo e a maioria dos locais se encontra a poucas centenas de metros da estação.

Chove. Outra vez. E vou andando, pelo meio da lama, depois de ter passado uma alameda monumental, que parece um empreendimento fantasma. Desta vez reservei um quarto numa casa através do AirBnB. Nada de resposta, nem mesmo depois de ter escrito uma mensagem.

Descubro a casa, ninguém. Abro a porta, meto a cabeça lá dentro… uma grande sala com uma TV ligada. Mas ninguém. Telefono. E como eu detesto telefonar. Responde um gajo com que, claro, é complicado comunicar em inglês. Confusão. Vai ver qualquer coisa, volta a ligar. Mais confusão. Fico à espera. Fazer o quê…

E à espera estou quando chega um carro com dois turistas. Aproveito a boleia e entro também. Tudo ali é estranho. Lá me mandam para um quarto com três camas. Depois sento-me  a beber chá com os franceses e a cortar na casaca daquilo tudo. Nisto regressa o carro. Desta vez traz um italiano. Parece que toda a gente teve direito a transporte, só eu é que vim à pata da estação.

Mandam o italiano para o meu quarto. ALTO! Para o MEU quarto!? Mas eu reservei um quarto privado. E ele também já agora. O tipo não está para aturar cenas, acaba o seu chá, despede-se calmamente e vai para outras paragens.

E eu vou dar uma volta, pois fazer o quê mais. A noite está a cair, já é escuro. E Khiva é deprimente. E seria deprimente sem chuva. É um daqueles locais que evito a todo o custo, onde o turismo já concluiu a sua acção nefasta, retirando-lhe toda a  vida própria. Falo do centro histórico, claro, uma espécie de Óbidos Uzbeque, uma Disneylândia montada para turistas internacionais e domésticos.

Nas ruas, só há estrangeiros. Um ou dois restaurantes ainda estão abertos. E chove. Aquilo é mau demais. Regresso rapidamente a casa. Pego na minha garrafinha de Cognac Uzbeque e decido que está na altura de fazer algo e acabar com o tormento desta viagem. 540 Euros mais tarde, tenho bilhetes para Lisboa para daí a dois dias de madrugada. E mais um voo doméstico para Tashkent e estou pronto a ganhar doze dias da minha vida. Ásia Central, assim, para viajar, nunca mais. Não é mesmo a minha cena.

Estão ali reunidos quatro dos cinco pontos que me estragam uma viagem. Acima de tudo o turismo. Depois, o clima. As estatísticas prometiam três dias com chuva para Abril. Estou há seis dias no país e em todos eles há chuva e céus cinzentos e deprimentes que me afectam e de que maneira. Dias escuros fazem-me a alma escura, tão simples como isso. Depois, há a impossibilidade de comunicar com as pessoas, que não seria grande problema de forma isolada. E por fim, a monotonia. Da mesma forma que tinha achado o Omã muito interessante nos primeiros dias, mas uma sucessão de castelos, montanhas e aldeias abandonadas a meio da viagem, no Uzbequistão as primeiras madrassas, mesquitas e mausoléus são uma loucura, mas na minha experiência o país esgota-se aí, não há diversidade. O que escapa a isto são cidades soviéticas, iguais entre si, cinzentas e tristes.

Bem, e agora, com este problema definido e um bocado mais pobre, vou dormir.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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