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Ásia Central 2019 – Dia 6 – Sheki, Azerbaijão

Este foi um dia relativamente parado. De manhã fiquei em casa. Toda a manhã. A descansar o corpo, a relaxar a mente mas também a trabalhar. Era um dia off. Tinha decidido umas coisas. Que passaria mais uma noite em Sheki mas no dia seguinte, logo pela manhã, iria regressar a Baku, uma cidade que conquistou o meu coração.

Sentia que Sheki estava esgotada e este segundo dia seria para fazer nada e para experimentar as maravilhas do Couchsurfing, dedicando-me ao usufruto da experiência humana.

Tinha combinado encontrar-me com o Jalal pelas 13.00 na esplanada do chá mas já farto de estar em casa – até porque os putos da família fazia mais barulho do que gostaria – fui andando mais cedo.

A minha rua em Sheki

O Jalal chegou muito atrasado, mas os amigos estavam lá para mim. Com o inglês limitado deles fomos falando de futebol e de viagens pelo mundo. Depois acabou-se-lhes a hora de almoço, apareceu o meu anfitrião e fomos nós almoçar. Num local fantástico. Por fora, não parecia grande coisa. Uns blocos em alvenaria com umas salas privadas, coisa a parecer “casa de putas”. Mas o que eram na realidade? Compartimentos privados para almoçar. Como se um gajo estivesse em casa. Comida cinco estrelas. Experimentei o famoso Piti, uma especialidade nacional que atinges os píncaros precisamente em Sheki. Um guisado servido numa caneca de barro, composto por pedaços de carne de borrego, grão e um bom naco de uma espécie de toucinho (toucinho não será certamente porque estamos num país muçulmano, mas perceberam a ideia). Depois, não é só comer como se quiser. Não, há um certo preceito. Em primeiro lugar, vaza-se o abundante molho do cozinhado no prato e com o pão servido, partido com as mãos em pequenos pedaços, faz-se ali na hora uma sopa que se come para abrir. Deliciosa.

Depois, vaza-se o restante conteúdo e esmaga-se a gordura com o grão, comendo-se seguidamente. Foi portanto uma bela refeição, acompanhada por bagos de romã e por uma pasta de frutas e especiarias, seleccionadas de entre uma enorme variedade de acompanhamentos que nos foram apresentados num enorme tabuleiro.

Terminado o repasto, fomos ao centro da cidade, bebemos um chá com bolinhos de noz, fizemos tempo esperando que o amigo do Jalal acabasse o trabalho.

Aproveitou-se para caminhar até à estação de autocarros, comprando já o meu bilhete para o dia seguinte. Custou-me 9 Manat, para um autocarro a sério. Saída às 8:00, chegada seis horas depois.

E depois fomos para um dos lugares favoritos desta malta. Marxal, uma estância de luxo localizada a 6 km da cidade, no sopé das montanhas. Ali, é-me dito, alguns quartos têm uma diária de 200 Euros. Mas não é para dormir que lá vamos. Depois de estacionarmos os carros, o Mercedes do Jalal e o Lada do amigo, mostram-me um lago com patos e cisnes e depois vamos ao prato forte, os jogos.

Começamos por um snooker, já que passo a ideia de fazer mais uma figura triste a tentar bowling. O snooker ali é muito particular: basicamente não há regras. É meter o máximo número de bolas nos buracos e quando já só existir uma na mesa ganha aquele que introduziu mais.

Depois veio o ténis de mesa. Descobri que o nada mal que jogava quando andava na universidade não está totalmente esquecido, parece que isto é como o andar de bicicleta.

O amigo foi-se. Tinha que ir buscar alguém à estação de autocarros. Jogámos mais um pouco e depois, já noite cerrada, seguimos para o centro para mais um chá.

Ficamos ali e parece-me um pouco estranho. Seria natural ir até casa. Senti que ele estava a fazer tempo, por alguma razão, ou talvez fosse só impressão minha. Felizmente a noite estava agradável e a temperatura bastante amena.

Bom, lá seguimos, com uma paragem num multibanco e numa padaria.  A casa fica nos arredores distantes, a uns 25 km de Sheki, não muito longe da estação ferroviária por onde cheguei há dois dias atrás.

Carro parqueado, seguem-se as apresentações. Pai, mãe, irmão. Visita guiada pelo terreno, à luz de lanterna do telemóvel. Gostei de ver as vaquinhas, abrigadas para a noite, ruminando, que nos olham curiosas. Os dois cães, as cerejeiras cheias de flor e outras árvores de fruta. E, por fim, a casa de banho, para lavar as mãos.

Sentamo-nos a uma mesa na sala, onde iremos dormir. Há compota de cereja e pedaços e marmelo cortados em tiras, mergulhados numa calda doce. E pão. É-me oferecida uma refeição mas não tenho muita fome  e prefiro não arriscar. Melhor manter a potencial maior indelicadeza à distância e ficar-me pela menor indelicadeza.

O pai dele vem sentar-se à mesa com um livro de expressões em inglês. Ficamos ali um bocado a brincar com as frases. Depois o Jalal senta-se e vai traduzindo umas coisas. O senhor vai-se deitar. Conseguimos  encontrar uma forma de ver o Benfica jogar contra o Frankfurt. Começa bem. Logo no início, penalty, cartão vermelho para o defesa alemão e golo. Mas quase no final da primeira parte o Benfica sofre o empate. Fico irritado e deixo de ver. Trabalho um pouco, acompanhando o resultado. Afinal 4-2 não é assim tão mau.

Dormir tarde e ter que acordar cedo não é uma boa combinação, mas tem sido assim muitas vezes nesta viagem.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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