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Cabo Verde 2015 – Santo Antão – Dia 7

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A véspera tinha sido tão intensa que a visita às localidades de Ribeira Grande e Ponta do Sol não chegaram a acontecer. Simplesmente não houve tempo. Mas para hoje já tínhamos pensado em subir até à Cova, o objectivo final do passeio mais desejado do leque dos que se fazem a partir daqui de onde estamos.

Junto à sala de refeições da Casa das Ilhas há um gabinete lateral com um frigorífico recheados de bebidas de onde os hóspedes podem retirar o que desejarem, anotando num bloco para pagamento da hora da partida. E existe também uma bela biblioteca com guias e livros sobre Cabo Verde e sobre Santo Antão em diversas línguas. Talvez melhor ainda é a coleção de mapas desenhados à mão que podem ser usados livremente e que são a chave para os melhores passeios a partir daqui.

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Depois da refeição da manhã pegámos num desses mapas e lá fomos, trilho acima, para variar. Porque a caminhada inicia-se logo ali, desde a casa. É um passeio divinal, especialmente num dia ideal como este. Não está calor. Nem frio. Está mesmo no ponto. E o céu mescla-se, com predominância do azul, mas rasgado por algumas nuvens e uma névoa difusa que se concentra do lado do mar.

O trilho evolui sempre acompanhado das plumas brancas das canas de açúcar, que sobem e descem, acompanhando o relevo do terreno, apresentando-se a diversos níveis, abanando com a aragem suave. De um lado, por vezes dois dois, há muros de pedra que conferem a solenidade dos anos à paisagem.

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Eventualmente o caminho une-se à estrada, aquela que tomamos para ir e vir da Vila das Pombas. Agora até ao acesso final para a Cova é sempre assim. Um cenário mais humano mas não menos interessante. Passamos por pequenas aldeias. Há escolas primárias do interior das quais emergem as vozes das crianças que aprendem a lição do dia. Vemos igrejas e muitas mercearias. Por nós vão passando viaturas, a maioria “alugueres” que servem aquelas comunidades.

Quando subimos temos o vale da ribeira do Paul do lado esquerdo, basicamente seca, mas com um pouco de água aqui e acolá. À direita elevam-se morros com paredes intransponíveis, de onde por vezes escorre água em pequenas cascatas.

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Continuamos a ascensão até chegar ao lugar onde se encontra o café do Sandro, um marco por aquelas paragens, à entrada do trilho final para a Cova. Olho para a montanha, para o trilho… nah… isto é dor, não é gosto. O caminho vai em zigue-zague por ali acima, uma inclinação que não me agrada, até ao topo, onde estará a tal cratera a que se dá o nome de Cova. Não só me desagrada a ideia de subir aquilo tudo como o que se segue, dividido em duas hipóteses: ou regressar pelo mesmo caminho ou passar para o outro lado, onde encontrarei a antiga estrada, hoje em desuso e esperar ver alguma forma motorizada de regressar à volta. E ainda por cima estamos no pico do calor diário. Não, não vai haver Cova. Paciência para o desafio.

Mas não voltamos simplesmente para trás. Há uma combinação alternativa, que nos leva a uma pequena volta alternativa. Prosseguimos, tomando um atalho que nos leva de novo à estrada mas do outro lado de um pequeno vale. E depois saímos da estrada, que de resto termina logo ali à frente, e vamos por caminhos de montanha com alguma presença humana.

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Sentamo-nos um pouco a descansar à sombra. Uma menina vem-me perguntar se quero comprar doce de goiaba. Vamos por ali, pedimos indicações a um senhor que parte pedra à porta de sua casa e que aproveita a oportunidade para explicar várias vezes o que precisamos de saber: o caminho.

Esta é a melhor parte do passeio e vou pensando que felizmente que decidimos não abordar o troço final para a Cova. Ali, é simplesmente bonito. Tudo. As casas, a vegetação, a paisagem mais distante, a vida humana.

Infelizmente teremos que regressar à estrada que já conhecemos, palmilhar por partes já vistas. Mas até lá, seguindo a indicação clara do senhor, é virar sempre à esquerda. Sempre. Passa por nós uma menina com mochila da escola às costas. Segue de chinelos mas desce o trilho com o triplo da nossa velocidade, que temos botas mas mesmo assim temos que nos concentrar para não colocar um pé em falso e aterrar de rabo no chão.

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A última maravilha daquele trecho é uma comunidade que avistamos à nossa frente, no alto de um pequeno pico, como se fosse uma fortaleza. A uma certa distância parece apenas um grupelho de casas, mas quando lá chegamos vimos que é uma aldeia.

As ruas estão desertas. Ouvimos vozes mas é como se as pessoas estivessem reunidas num ponto específico do povoado, e não passamos por lá nem há contacto visual.

Atravessamos aquilo. Faz-me pensar nas aldeias da Serra do Caldeirão, perto de mim, no Algarve. E quando vamos a sair há um tipo que ali está. É um homem estranho. Pedimos-lhe confirmação do caminho a seguir, o português dele é tão mau que se percebe pouco e ele também não nos compreende bem. E depois começa a caminhar na direcção que tomamos. Eu páro, ele pára. Não é caso para ter medo nem nada disso… o homem é simplesmente bizarro. Mas depois compreendo…  eu a desconfiar dele e afinal só queria ter a certeza que nos dava a última indicação, à curva, de onde se via na totalidade o caminho que devíamos seguir. Deixou-nos ali, ficando para trás, tornando-se um mero ponto à distância.

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E pronto, mais à frente retomamos a estrada. É ainda assim uma continuação agradável, mas despida de novidade. Descemos, e continuamos a descer. Passamos o acesso para casa e seguimos. Vamos até à Vila das Pombas, queremos transporte para Ribeira Grande, a antiga capital da ilha, antes do crescimento de Porto Novo.

Foi fácil e logo seguimos. A estrada é sinuosa, acompanhando as linhas das falésias, sempre junto ao mar, para cima, para baixo, curvando à esquerda e à direita. Passamos por uma aldeia que parece interessante. O mapa diz que se chama Sinagoga. Parece que ali se estabeleceu uma comunidade judia há umas centenas de anos. Raio de local.

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Para Ribeira Grande não levávamos grandes expectativas mas se calhar por causa disso gostei. É uma pequena vila, pouco mais que uma aldeia, e vê-se em menos de uma hora, mas tem um carácter único, faz-me pensar em Essaouira, parece uma terra rebelde, sem lei, um ninho de piratas. Mas atenção, isto rebuscando no meu imaginário, porque aquilo é gente pacífica, simpática, hospitaleira. Acho que é o ar agreste que a proximidade do mar alteroso lhe dá.

Um campo de futebol, com a abertura espacial que dá à paisagem, acentua o tom do local. Ao lado, a marcar a entrada de uma rua, edifício de três ou quatro andares tem um colorido mural em toda a sua fachada morta. Vamos por ai e entramos num pequeno bairro de três ruas paralelas e pequenas perpendiculares, muito estreitas, como numa medina marroquina. Eu disse que Ribeira Grande tem uma atmosfera muito peculiar!

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Encontramos uma pequena capela, as pessoas olham para nós surpreendidas pela visita. É pitoresco. Ouve-se o ribombar do mar, mesmo ali ao lado, como se fosse uma quarta rua paralela.

Do resto da vila o único segmento que encontrámos com algum interesse foi a rua onde se alinham os edifícios de passado colonial, facilmente identificáveis pelas semelhanças com casas portuguesas. Pareceu-nos que aquilo estava visto e procurámos onde comer qualquer coisa.

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E encontrámos a pizzaria 3D, um local com um nome estranho mas muito recomendável. Serviço e decoração agradável, comida e bebida a preços muito simpáticos. Neste dia, como já eram três da tarde, a cozinha estava fechada, mas ainda se arranjou uma pizza. Aproveitei para beber um ponche de coco, um pouco diferente da delícia que tinha experimentado no Mindelo, mas mesmo assim bastante bom. Depois veio a pizza, nada de especial, deu para almoçar. Mas foi um bocadinho agradável.

Regressámos à Vila das Pombas. Explorámos melhor a parte norte, a que tínhamos descoberto ao cair do dia anterior. Bem, aquilo na realidade não tem muito que explorar, é apenas a estrada, mas é tão interessante que se descobrem sempre novos detalhes e seja como for, gostei muito, de forma que todos os dias passei por ali.

E pronto, assim foi este dia que estava a terminar. Lá apanhámos o “colectivo” para o acesso à Casa das Ilhas e seguiu-se mais um serão de leitura e repouso.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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