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Índia 2019 – Dia 21 – Varanasi

A noite no comboio não correu muito bem. Vamos lá ver… já passei noites em comboios de uma série de países. O material circulante, as camas, não fazem muita diferença. O que a faz é, chamemos-lhe assim, o índice de consideração pelos outros dos cidadãos, e nisso a Índia vem mesmo no fundo da tabela. Foram cinco noites, creio. E o filme, sempre o mesmo: peidos e arrotos com fartura, luzes a acender, chegadas a meio da noite como se fossem três da tarde, expansão para espaços indevidos. Foram as pessoas que tornaram as noites ferroviárias difíceis de suportar, e apenas as pessoas.

Portanto, com zero horas de sono de qualidade e apenas algumas de mau sono, a chegada a Varanasi não foi grande coisa. Não estava com o melhor dos humores e a coisa resvalou ainda mais com a dificuldade, inesperada, de encontrar transporte para o alojamento. E fica o aviso, porque não me pareceu pontual: talvez porque o trânsito é tão mau, os Uber esquivam-se ao serviço. Várias tentativas depois, desisti. Quanto aos tuk-tuk, outra desgraça. Apesar de Varanasi chamar a si uma grande fatia de turismo internacional foi complicado encontrar alguém, na zona da estação, que falasse um pouco de inglês para acertar o transporte. Alguns recusaram o serviço, sem mais. Outros ficavam a olhar para o endereço como se fosse uma morada em Marte. Um ou dois foram mais longe, explicando que era demasiado distante, havia muito trânsito, era difícil.

Já sem saber o que fazer, com as alternativas a reduzirem-se, afastei-me um pouco da estação, vi um hotel e aproximei-me. Imaginei que na recepção talvez pudesse encontrar ajuda, mas acabou por não ser necessário. À porta falámos com um tuk-tuk driver que falou com outro que ia passando, e os dois falaram com alguns transeuntes e depois de muito debate e discussão, muita hesitação e pouca vontade de fazer o serviço, lá ficou combinado. Com um aviso: os últimos 500 metros tinham que ser feitos a pé porque o trânsito não era permitido.

Lá fomos, através do denso trânsito, mas quando o tipo deu o trabalho por concluído ainda faltavam quase dois quilómetros. De nada valeram protestos e reclamações, dali não se mexeria. Sempre educado, até com uma expressão consternada, mas irredutível. Bem, teria que ser a pé então. Pelo menos era possível.

De início a multidão era incrivelmente compacta, difícil até de progredir, tal a sua densidade. Lembro-me especialmente de uma rotunda, que era preciso atravessar, mas aquilo parecia nadar contra a corrente… por mais que andasse, parecia que não avançava. Bem, eventualmente a confusão ficou para trás e entrámos num emaranhado de ruas. Agora as coisas revelavam-se fascinantes, mas a natureza daquela malha urbana trazia um problema novo: a ausência de sinal GPS e a navegação à moda antiga, apenas recorrendo ao sentido humano de orientação. Não correu bem.

Aquela era uma outra Varanasi, e se não voltei para explorar convenientemente foi apenas por falta de tempo, de certo não por não ter interesse. Vida 100% local, tradicional, casas antigas, que parecem tocar-se no topo, encerrando o viandante num abraço de escuridão. Lojas, muita cor. Alguns hostéis. Mas indicações do GPS, nada. Entrei numa lojinha, pedi uma Coca-Cola gelada, até porque estava calor, e com a bebida perguntei como chegar onde queria chegar. O lojista não conhecia o hotelzinho. Natural. São centenas. Mas deu-me indicações precisas de como chegar à beira-rio e à área geral que procurava, e a partir daí correu muito bem.

Dar com o passeio sem fim que corre ao lado do Ganges é algo de extraordinário. É um mundo de vida fervilhante onde tudo se passa, se seriam precisas centenas ou mesmo milhares de linhas para o descrever como merece. Já lá iremos, a essa tentativa, certamente vã.

Para já procuramos o hostel. Agora de GPS na mão a indicação é clara. Será mesmo ali, mas por detrás da primeira linha. Nada que um rapaz que gosta de turistas não esclareça rapidamente, dando indicações precisas que foram muito bem-vindas.

O Hostel La Vie é algo que recomendo vivamente. Vejamos: localização, perfeita, a um passo da margem do rio mas resguardado da confusão, tornando-se um oásis de tranquilidade; gerente competente e atencioso; preços muito baixos; ambiente agradável, de viajantes sem os excessos que por vezes se encontram em hostéis; comida a bons preços que serve para tomar refeições se não apetecer sair para comer (o serviço de “restaurante” foi o único ponto fraco que detectei no La Vie).

Na realidade as coisas não começaram bem… havia uma ruptura de canos e portanto nada de água. Chato, mas acontece. Tempo para relaxar neste cantinho de sossego, até tirar uma soneca, depois de instalado.

Retemperadas as energias, hora de sair para a rua. Bem, rua não será a melhor expressão. Do hostel até à beira-rio vão uma série de ruelas, habitadas por vacas e cabras, com umas lojinhas e pessoas geralmente simpáticas. Foi um passeiozinho que de início era desconcertante. Com tantas viradas as possibilidades de escolher a direcção errada eram consideráveis, pelo menos até à rota ficar perfeitamente mapeada.

E finalmente à beira do Ganges, agora sem mochila, para ver e apreciar. Que ambiente fantástico! O hostel e o ponto de partida para o passeio fica um pouco afastado do ghat mais central. Aí é a loucura, mas para já vejo algumas pessoas, não muitas, segundo os padrões indianos. Há quem se lave e quem lave as roupas. Existem ali autênticas lavandarias, um trabalho que aqui é desempenhado pelos homens. Há turistas, claro. Alguns ocidentais, outros indianos. Lojinhas, gurus, louros que há muito foram tragados pela Índia, que se perderam ou encontraram e andam por ali como se tivessem nascido em Varanasi. Vacas também as há, claro. E enormes pilhas das suas fezes. Felizmente é Janeiro, a melhor época para visitar. Não há lamas, nem chuvadas, nem esgotos arrastados. Está tudo catita.

Tinha lido sobre os ghats de Varanasi, mas uma vez no local aquilo parece-me mais como um imenso ghat ininterrupto. Apenas o segmento central é de facto outra coisa. E, claro, os locais onde são cremados os cadáveres. Tinha ouvido falar muita coisa sobre esta tradição. Esperava algo muito lúgubre. Também é verdade que sou pouco impressionável com estas coisas mas não achei ali nada de grande impacto. Um corpo carbonizado ardia, esperando tornar-se em cinza. O cheiro não era intenso, não vi nada de estranho a flutuar nas águas do rio.

As fotografias não são permitidas, mas isso é apenas um expediente dos homens da casta responsável pela operação de cremação. Qualquer estrangeiro é abordado com propostas de autorização para fotografar a troco de uma quantia. Aconteceu-me várias vezes, e numa delas fiquei um pouco a falar com o tipo. Ou ao contrário, enquanto a expectativa de fechar a venda não se dissipou.

Já falei aqui no ghat mais central. Nem sei o seu nome, mas acho que ninguém o poderá confundir. Há uma rua que vem do interior da cidade que ali desemboca e a multidão chega sobretudo por aí. Há milhares de pessoas. Entre as que se acomodam nos barcos para um passeio no rio e as que se sentam nos degraus do ghat. Outras comem qualquer coisa, consultam gurus que ali vendem conselhos. Há um casamento, claro. Um não, vários. O noivo passa a mão por cima do ombro de um menino, provavelmente o irmão especial de que sentirá a falta. Dirige-lhe algumas palavras, encorajamento para a sua nova vida sem o apoio fraterno.

Comprei uma bebida e sentei-me ali a observar tudo isto. Depois caminhei ainda mais um pouco, não muito mais, até ao ghat onde a cremação é mais intensa. Mais uma tentativa de vender autorização para fotografar. Imagino que seja um bom negócio, considerando a confiança de venda certa que o tipo emana.

Voltei para trás. A noite já cai. Tudo aquilo é tão interessante, tão intenso, que se andam vários quilómetros sem que nos apercebamos. Mas o tempo é necessário. E assim, quando chego à zona do hostel é noite cerrada.  Um grande passeio.

Ao serão, um jantar no hostel. Preços tão baixos que até dá vergonha de dizer. Barriguinha cheia e uma noite bem passada num hotel especialmente tranquilo.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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