Dia 26 de Janeiro de 2020, Domingo

Este foi um dia deliciosamente longo, que começou em Loja e acabou numa quinta perdida nas montanhas. Mas para iniciar da melhor maneira, mais um passeio por esta cidade onde pernoitámos.

A um Domingo a maioria da cidade está ainda mais sossegada do que na véspera. Mas em alguns pontos a situação é diferente.

Descobrimos uma nova rua, que nos tinha passado despercebida anteriormente. Encantadora, com casas antigas. Depois, outra praça, e numa das suas faces a entrada para o mercado. Aqui sim, há pessoas. Da porta da igreja sai uma multidão que acabou de assistir à missa. Há meninos que jogam à bola. E do templo as pessoas passam para o mercado, reforçando a massa humana que já ali se encontrava.

Também nós ali entramos. Um verdadeiro mercado, muito local, com um festival de cor e aroma que se estende perante os nossos sentidos. Todos os produtos que se encontram presentes no Equador estão ali. Há bancadas de queijos e outros lacticínios, carnes estranhas, peixe e muitos vegetais e frutas.

Existem também tasquinhas. Não falta comida e bebida. Tomo uma espécie de pequeno almoço sentado ao balcão. Nem sei bem o que é aquilo. Pedi à senhora um copo igual ao que o tipo do lado bebia. Saiu-me algo denso e lácteo, mas ao preparar ela parecia um polvo, enchendo o copo com mil mãos que buscavam ingredientes um pouco por toda a loja. A visita ao mercado fez-me subir o astral, afectado que andava com o tempo cinzento que se mantinha para este Domingo.

Na hora de deixar Loja para trás o balanço é feito de sentimentos opostos. Gostei da cidade mas falta-lhe chama humana, vida. O tempo, sempre cinzento, não é culpa dela, mas não deixou de marcar a minha memória de Loja com uma nota de tristeza.

Agora é regressar ao hotel, pegar nas coisas, chamar um Uber e seguir para o terminal de autocarros. O que se segue é digno de nota: ficar numa hacienda nas montanhas era algo planeado há muitos meses. Nem sei como dei com este lugar no Booking.com. Não me recordo. Mas de repente ali estava e pensei, “tenho que ficar aqui”. Uma fazenda tradicional, que recebe hóspedes. E a um preço fabuloso, do género de 15 Euros por um quarto duplo com pequeno almoço.

Contudo, não marquei de imediato. Nem depois. Fui marcar a poucos dias de chegar, já durante a viagem. E que vejo eu? O preço tinha subido para o dobro. O que não sendo muito é, enfim, o dobro. Verguei o orgulho e fiz algo que não é muito meu: contactei a dona, no Facebook, e apresentei a situação e tentei explicar-lhe como era injusto para mim. E lá chegámos a um compromisso entre os dois valores.


Ela deu-me todas as indicações de como lá chegar. Que companhia de autocarros fazia o trajecto e qual era o destino final da rota. Chuquiribamba. Não tente repetir esta palavra. Pode ser lesiva. Bem brincadeiras à parte, lá se comprou o bilhete sem nenhum problema, e num instante íamos a caminho.

Primeiro por asfalto para pouco depois sairmos para um caminho de terra batida. Seguiram-se quilómetros de uma paisagem grandiosa, com montanhas cobertas de vegetação muito verde em redor e muita presença humana. Pequenas aldeias, quintas, hortas.

Segue-se um pequeno problema: as coordenadas que tinha não estavam correctas e o ajudante do autocarro vem perguntar onde é que queremos sair. Digo-lhe: Fazenda Gonzabal. Não parece fazer-se luz e sai para a frente para conferenciar com o condutor. Mais uns quilómetros volta para perguntar melhor. Claramente isto pode não correr bem, porque nem eles nem eu sabemos onde deveremos sair. Felizmente um vizinho houve a nossa conversa e diz que também vai para lá e que devemos sair juntos. Excelente.

E já está. Luz verde. O autocarro pára, saímos todos. Nós e eles os dois, um casal. Caminhamos mais ou menos juntos e, claro, o estabelecimento de conversa é inevitável. Gente simpática, vão-nos explicando uma série de coisas sobre o local. Mostram-nos, a grande distância, uma manada de cavalos que pasta sobre uma árvore com uma copa de grandes dimensões. São os cavalos da fazenda.

 

Adeus autocarro que nos trouxeste a este lugar magnífico.

Chegamos a uma bifurcação. Vamos separar ali e dão-nos as últimas recomendações. Para chamarmos antes de entrar porque há cães e pode ser chato. É já ali em baixo, não há que enganar. Sim senhor.

E pronto, chegamos. Os cães lá estão, ladram, são postos na ordem pela senhora que está ali mesmo. Estava à nossa espera, mostra-nos os aposentos.

Há um sabor agridoce que me aflora à alma. O lugar não deixa de ser encantador mas à primeira vista há uma série de decepções. Não importa muito mas vamos a elas: o quarto é num barracão anexo, não na casa principal, e pelas fotos que tinha visto não era isso que esperava; a pessoa que nos recebe é a caseira, a dona não vive ali, e eu tinha idealizado aquele turismo de habitação com proximidade a uma família oligárquica com séculos de histórias para contar… enfim, partidas do meu imaginário. O próprio quarto tem um aspecto um bocado rasca, o que também não ajuda.

A senhora mostra-nos a casa principal que adiciona outra decepção. Apesar de ser uma casinha encantadora, não é o que eu esperava, de novo pelas fotos que tinha visto, e que ilustravam uma casa muito mais tradicional.

Agora vamos comer. Ela prepara o almoço. E que almoço fabuloso! O preço? 7 Euros! E é uma coisa dos céus! Tudo excepto a carne é produzido na quinta. Pode-se ver na fotografia a variedade. Comida regada por sumo acabado de espremer, e depois da refeição, um chá de lúcia-lima, a que por aqui se chama simplesmente “un aromatico”.

Agora é relaxar. Foi para isso que viemos. Há redes por todo o lado. No alpendre do nosso pavilhão são dias. Em frente à casa principal, de onde se aprecia uma vista fabulosa, há mais umas quatro ou cinco.

O ambiente é fantástico. A casa, apesar de não ter aquela aparência que esperava, é rústica, como gosto. Há retratos de família, objectos com centenas de anos decoram as paredes. Muito agradável.

Entretanto tive uma conversa com a senhora que dissipou algumas das minhas frustrações. Explicou-me que a casa que eu tinha visto existe, é já ali atrás, mas não está a ser usada. E que posso usar a casa principal quando quiser, e se preferir pode-me preparar um quarto lá mas que pensou que era melhor ficar na outra porque há dois colombianos que estão a supervisionar uma obra na estrada e que estão ali hospedados e que assim fica toda a gente mais à vontade. Esclarecidas as coisas, o meu ambiente mental ficou muito mais limpo.

Agora vamos então explorar a tal casa antiga, que era dos avós da actual proprietária. Lá está ela, logo ali atrás, de facto. Está vazia, é uma cornucópia de histórias, certamente, mas ninguém mas conta. Sinto-as contudo. Algumas salas estão vazias. Outras têm mobílias básicas e encontram-se alfaias agrícolas. Numa delas estão reunidos os objectos de montar a cavalo. Selas, arreios, tudo isso.

No primeiro andar as paredes estão decoradas com pinturas básicas. A minha teoria é de que os país da actual dona da propriedade construíram a casa nova e deixaram a antiga para a “miúda” que ali terá passado grandes momentos com os amigos, sei lá, consigo imaginar as festas de adolescentes, de jovens adultos, os amigos que vinham da cidade e se reuniam ali, refúgio dos mais novos sob o olhar beneplácito dos mais velhos que se mantinham à distância.

Ali próximo há um mecanismo, num terreiro, um engenho de tracção animal que servia para fazer farinha. Descobrimos o forno a lenha, vimos a capela privada da família, para já apenas por fora. É uma verdadeira quinta, com maquinaria arrumada a um canto, projectos que correm em simultâneo. Foi de facto um grande achado!

Agora vamos dar um passeio a pé, pela estrada que nos trouxe até aqui. Pelo caminho vi coisas muito interessantes, perspectivas mágicas das montanhas, uma aldeia a uns quantos quilómetros com casas antigas.

Mas a distância era superior à que calculava ou simplesmente estava mais cansado. A altitude também não ajuda, claro. E assim, a meio caminho, regressar à base. Valeu pelo bocadinho. Pela senhora que passou montada numa mula. Por tudo aquilo. Mas regressamos.

Na volta procurámos um café de que o casal que vinha no autocarro nos tinha falado. Bem, não seria bem um café. Mais uma vendazinha de lugarejo. Fomos pela estrada indicada, vimos uma casa com alguma animação. Seria ali? Não queria arriscar, invadir propriedade privada sem mais nem menos. E estava naquela hesitação quando sai de lá a jovem que tínhamos conhecido. Sim é ali mesmo. Ela vai embora, regressar à cidade.

Pois bebi ali uma cerveja, sentado na relva, com uma vista sem igual. Estavam lá uma série de homens, já bem bebidos e um deles vem para o pé de mim para dois dedos de conversa. Foi interessante. Apesar da bebida, que se notava, não estava tão mal que não pudesse conversar e estivemos um bom bocado no paleio.

E pronto. O cansaço já pesava. Hora de regressar a casa. As redes estavam à espera para uma agradável sessão de leitura. Pouco depois chegaram os hóspedes, suponho que engenheiros civis. Educados e discretos.

O jantar foi servido na casa, tal como o almoço, depois deles terem tomado a sua refeição. A noite chegava, estava na hora de recolher ao quarto e gozar de um bom descanso em silêncio absoluto.

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