América do Sul, Dia 7 – Jericó

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4 de Janeiro de 2020, Sábado

Este dia foi completamente passado em Jericó. Um dia glorioso que nos ofereceu uma caminhada memorável nas montanhas que envolvem a cidade. O objectivo era alcançar o chamado Cerro las Nubes, mesmo ali ao lado, mas com uma elevação acentuada.

Na realidade, teria preferido outra caminhada. Existiam várias propostas expostas numas folhas impressas e colocadas numa parede do hostel Los Cometas. Mas quanto mais as estudava mais abstractas, complicadas e com boas hipóteses de se gorarem a meio me pareciam. O Cerro las Nubes, tão próximo e tão famoso, era a minha última escolha mas foi o que acabou por acontecer. E no fim foi um grande passeio!

Como convém nestas coisas, a acção começou cedo. Comeu-se qualquer coisa ligeiro no hostel e lá vamos, direitos ao trilho que se inicia num ponto limítrofe da aldeia. Há um portão, um caminho que segue montanha acima, muito íngreme. Esse era o percurso indicado pelo mapa existente no hostel mas as coisas não correram bem.

Depois de uma primeira fase de ascensão por uma escadaria de pedra sem fim, chegámos a um local onde o que víamos não coincidia com que estava descrito nas direcções recolhidas. Tentámos o que parecia ser mais lógico, mas mais acima o caminho estava bloqueado pelo que restava do deslizamento de terras ocorrido há um par de anos. Tinha levado parte de um altar que ali existia e dali para a frente não parecia haver por onde ir.

Apareceram dois homens que procuravam também chegar ao topo do cerro. Eram locais mas não sabiam que o trilho estava bloqueado. Depois de “apalpar” terreno e tentar diversas coisas, desisti. Por ali não ia dar.

Vamos abaixo, tentar outra aproximação. Com pouca convicção, porque a informação existente é vaga. Aproveitámos para subir outra vez ao Cristo, já que se encontrava próximo do ponto de entrada no trilho para o Cerro las Nubes que tinha assinalado num mapa.

E ali estávamos, a contemplar a paisagem e pensar na vida quando chega um grupo de colombianos, malta jovem, da cidade, com um guia local. Trocámos umas palavras. Eles iam para o Cerro e convidaram-nos para os acompanhar. Mas não, não me apetecia nada ter companhia no passeio. Tentei entender as indicações dadas pelo guia, pouco convencido em abrir mão do seu conhecimento. Só o fez depois de encorajado pelos clientes.

Elas partiram e nós depois. A primeira fase fizemos de forma diferente. Eles, da forma correcta. Já eu, com um mapa na mão, tentei improvisar e consegui encontrar o trilho certo, mas depois de algumas aventuras que implicaram entrar em propriedade privada, saltar uma cancela e rodear uma casa com cães furiosos.

Agora via-os, só um pouco mais acima, e dali para a frente o trilho tornou-se claro. Foi sempre a subir, rodeados de beleza natural, com um céu lindo, azul, entrecortado com algumas nuvens altas.

O caminho torna-se mais estreito e acidentado, é preciso ter cuidado para não resvalar nalguma pedra mais solta, numa rocha mais lisa, num segmento mais húmido.

Já a chegar ao topo paro para descansar um pouco, estico-me na horizontal, sobre um banco longo. Ouvem-se vozes, há mais alguém a subir. Um casal de espanhóis com um cão. No tempo que falta em Jericó vou encontrá-los por diversas vezes, quase sempre a fumarem um charro. Viajam numa autocaravana de matrícula europeia. Interessante.


Chegamos então ao topo do trilho, que termina onde se encontrava a estação de teleférico. Sim, existia ali um teleférico que funcionava, até à derrocada que tornou a sustentação do sistema demasiado frágil para ser segura. As operações foram abandonadas, o maquinaria foi saqueada. A estrutura ainda lá está, mas tudo o que podia ser roubado já desapareceu.

A vista é de facto magnífica, mas não muito diferente da que se pode usufruir desde o Cristo. Ficamos por ali um bocado a recuperar forças e a apreciar tudo aquilo. Passam por nós mais pessoas, que desaparecem num trilho que prossegue. Eu pensava que o Cerro las Nubes era aquilo ali, aquele ponto, e mais nada, mas parece que não.

Fomos então ver o que havia para além. E que boa ideia! Agora que estamos no topo a progressão é mais simples. Andamos na cumeada. Os matos envolventes são fascinantes. Há flores desconhecidas e aromas maravilhosos. O chão é macio, o clima está perfeito. É um dia ideal para caminhar.

O trilho leva-nos ao lado oposto da cumeada e dali há uma nova perspectiva. Se antes tínhamos visto o vale onde se encontra Jericó, agora é natureza, montanhas despidas de presença humana a perder de vista. Magnífico!

Mais à frente há uma espécie de parque, uma extensão de relva silvestre que em dias mais populares se deve converter num enorme recinto de festa. Ou pelo menos assim aconteceria antes do encerramento do teleférico.

Há por ali mais pessoas, não muitas, não o suficiente para incomodar. Passa um casal, um grupo de amigos e mais dois casais amigos. Vimos outra vez os espanhóis ganzados. De repente já não havia mais gente, abandonaram todos a área e a magia acentuou-se.

Bem, e chegou a hora de descer. De regresso à aldeia, muito mais depressa e de forma muito mais fácil. Em determinado ponto há uma explicação, pelo menos parcial, dos cartazes coloridos com máximas de sabedoria que se encontram espalhados por todo o percurso, desde o início ao fim: parecem ser uma homenagem a um jovem que ali perdeu a vida.

Hoje iríamos permanecer em Jericó mas mudar de alojamento. Do hostel Las Cometas para um quarto no complexo BOMARZO, hoje ainda mais interessante do que ontem, com muita animação. Quem diria que iria ali encontrar um pouso para dormir, por um preço super agradável e logo numa cela do antigo convento. O único problema seria o barulho, mas durante a noite, tranquilo.

Passámos pelo hostel para trazer as mochilas, falámos com o pessoal de lá que já é amigo. O pobre do voluntário-chefe, um simpático italiano, fez um corte muito feio na mão. Vamos falando com os novos voluntários, um português e a sua companheira polaca, que como eu estão a atravessar a América do Sul, começando por baixo e com muito mais tempo. Foi um adeus e até logo porque ficou o convite para aparecerem ao serão no BOMARZO, onde irá acontecer um concerto de música local.

Pelo caminho uma paragem na mercearia já conhecida. Há um senhor, muito idoso, que fala… inglês. Um homem do mundo, uma figura super interessante que viajou por todo o lado. E não perde uma oportunidade de conversar com os estrangeiros que ali passam. Mais tarde veria ali os espanhóis dos charros, claro, a falar com ele. Já me sinto ali como um cliente da casa, o senhor dono do negócio começa-me a tratar como tal. Adoro a Colômbia!

Foi tempo para um adeus a Jericó, com um passeio pelos seus pontos mais emblemáticos com especial destaque pela praça principal, que estava tão ou mais animada do que na véspera.

O serão foi excelente. Para minha surpresa – não o esperava – os nossos amigos apareceram mesmo para o concerto, que foi prolongado e divertido. Com eles vinha um viajante espanhol, um jovem muito interessante. Grande momento de conversa e troca de ideias em redor da mesa.

 

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