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América Latina 2016 – Dia 48 – Santa Fe de Antioquia

Acordei no hostel de Guatapé bem ciente que iria ter um longo dia pela frente. Todo o povo ainda dormia, garrafas espalhadas testemunhavam a grossa farra da noite anterior, um vestígio do barulho que me tinha dificultado o sono. Lá fora as águas serenas do lago eram perturbadas por um minúsculo barquinho que se afastava para parte incerta. Havia uma calmaria perturbante e as colunas de fumo, certamente de queimadas, elevavam-se no céu diluindo-se nos últimos traços de nevoeiro matinal.

Pus a mochila ao ombro e saí, caminhei para a estrada, esperei pelo transporte para Medelin. O percurso foi tão fascinante como o tinha sido à vinda, especialmente o trecho até se atingir a via principal que vem não sei de onde e chega a Medelin.

De novo na Estação Este. A cena repete-se. Procuro os escritórios da empresa que assegura o serviço para Santa Fe de Antioquia entre as dezenas de opções e tal como da primeira passagem por aqui será o pessoa da segurança que me indicará com precisão cirúrgica os números que me servem. Compro o bilhete e espero, e enquanto aguardo compro qualquer coisa para comer.

Corre tudo bem. Logo estou a bordo de um autocarro que se dirige a Santa Fe, uma localidade que escolhi para passar um par de noites pelo seu carácter histórico. Tal como sucedeu no percurso para Guatapé, delicio-me com a vista que me passa pela janela, o panorama de uma pacata Colômbia rural. Não me recordo quanto tempo estive no autocarro… algo entre uma a duas horas.

Quando cheguei e se abriram as portas, senti o bafo ardente do calor do meio-dia. Foi como se entrasse num forno e o meu primeiro pensamento foi “como é que vou viver aqui dois dias?”. A estação de autocarros fica junto à estrada principal, que em vez de atravessar a localidade passa na sua margem. O que significou uma certa caminhada, já se vê, sob aquele calor abrasador.

Ainda por cima, não sabia onde iria ficar alojado, teria que procurar uma solução. Encontrei várias possibilidades e serenei. Não dormiria na rua, agora seria caso de encontrar o que melhor se adequasse. Na praça principal havia uma pensão mas apesar de aberta estava deserta. Passei por outro alojamento, muito catita, com piscina, mas um pouco acima do orçamento e uma senhora antipática. Ficaria para segunda escola, se mais nada aparecesse. Mas apareceu. mesmo no centro, meti  o nariz no que parecia ser outra pensão e um rapaz mostrou-me um quarto com casa de banho privada onde poderia ficar por uns 7 Euros. Era mesmo aquilo!

Instalei-me e senti-me imensamente bem. O que tinha já visto de Santa Fe prometia e estava bem instalado, sem danos no orçamento e com o fresco da ventoinha a acariciar-me entrei na rede wi-fi ao dispôr dos clientes. Tomei um duche, refresquei-me e saí para a rua.

E como descrever esta localidade? É de um charme sem fim, e tudo o que se vê é histórico. As suas ruas são ladeadas por velhas casas, encontrando-se um bom número de igrejas e capelas, um par de praças públicas e uma animada praça central onde tudo acontece. Ali destaco os velhos e originais veículos que fazem as vezes de transportes públicos, a catedral e os cafés debaixo das arcadas. Sem falar no quiosque de venda de sumos naturais, sempre rodeado de clientes que procuram matar a sede, especialmente com a popular limonada a que rapidamente aderi.

Apesar do seu encanto, Santa Fe é um local onde não se devem gastar mais de dois dias. É pequeno, percorre-se na totalidade num par de horas, e mesmo dando um desconto para relaxar e absorver a vida local, não me demorou muito a sentir-me despachado. Mas já lá vamos. Para já, tinha muito para calcorrear.

Adorei ver as velhas lojas, como as que tinha guardadas no fundo da minha memória, do Alentejo profundo dos anos 70, onde se vendia um pouco de tudo, incluindo ferraduras e munições. Nas ruas os homens andam à moda antiga, de chapéu de cowboy, manta de lá sobre o ombro (sim, apesar do calor) e catana à cintura.

As ruas fazem-me lembrar as das vilas alentejanas com um perfume andaluz, que se revela em pormenores como o das grades nas janelas. Passa um enterro por mim e um retardatário apeia-se de um tuc-tuc, que nesta parte do mundo faz as vezes de táxi e nunca as de cicerone turístico.

Observo um par de cafés mais cosmopolitas e uma série de casas apalaçadas, claramente pertencentes a uma elite provincial ou talvez a gentes endinheiradas de Medelin.

Com o avançar da tarde o calor dilui-se. Descubro outra casa de sumos onde me delicio com uma elaborada mistura. Entretanto chegam algumas nuvens que ajudam a aligeirar o clima. As pessoas estão agora na rua. É hora de ponta em Santa Fe, e isso significa um enxame de motas nas ruas. Um polícia vai para casa, arma de guerra ao ombro.

Deixo o dia acabar sentado numa esplanada onde bebo um cerveja bem gelada. Mesmo em frente uma igreja tem as porats abertas e há missa no seu interior. Que bem que se está em Santa Fe de Antioquia e que excelente escolha para gastar dois dias da minha passagem pela Colômbia!

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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