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Ásia Central 2019 – Dia 3 – Baku, Azerbaijão

Dois dias depois repete-se a receita. Uma noite a bordo de um avião com partida por volta da meia-noite e chegada pelas cinco da manhã.

O avião da Wizzair vinha cheio e de uma forma geral não foi uma boa experiência. Era velho para caramba, viam-se as rugas e verrugas em cada bocadinho daquele avião. E para piorar as coisas um bebé que tinha explosões de choro duas filas à frente da minha. Lá me fui entretendo. Li um pouco, trabalhei, vi um episódio de uma série, tentei dormir. E lá se chegou a Baku, numa aterragem suave ao nascer do sol.

A passagem pelo aeroporto foi uma maravilha. Verificação de passaporte e visto rápida e descomplicada, sem formulários ou perguntas. Depois, mesmo aquela hora, foi simples comprar um cartão para o telemóvel. Não foi barato mas foi fácil. Tratou-se do preço a pagar pela agilização (como os nossos políticos agora gostam de dizer) do processo. Sei que se o fizesse na cidade seria para aí metade do preço, mas viria com o triplo da complicação. Ali foi só entregar o meu telefone e recebê-lo com tudo a funcionar. 10 Gb de dados e 30 minutos de chamadas, 23,50 Euros, pagos com o Revolut.

Depois, trocar dinheiro. A uma taxa não muito favorável, mas nada de escandaloso, como no aeroporto de Budapeste. Verifiquei, e encontrava-se dentro da variação praticada pelos bancos no Azerbeijão para este dia.

Pelo caminho falei com um simpático funcionário das informações, que me disse onde tratar destas coisas e também do BakiCart, necessário para apanhar o autocarro do aeroporto para o centro.

Que foi o que fiz seguidamente. Estava reticente porque tinha a mente embargada pelo sono e sabia que lá fora ia estar frio e para entrar de novo era preciso passar por um apertado controle de segurança. Por isso não queria sair a não ser pela certa. E pela certa era coisa que não existia ali.

Bem, estava a ver o autocarro lá fora, mesmo do lado de lá da estrada que passa frente ao terminal e sabia que se tudo corresse bem podia entrar logo e imaginava que estivesse quentinho.

Fui lá direitinho, mas da anunciada máquina para comprar o cartão e respectivos créditos, nem sinal. Estavam dois tipos fardados a conversar ali perto e perguntei. Um deles apontou para a tal máquina, colocada mesmo junto ao terminal, e perguntou se queria ajuda. Queria. Veio lá comigo, tratou de tudo, não sem antes se oferecer para passar o cartão dele para eu viajar, o que me pouparia os 2 Manats do próprio cartão. Mas não, porque iria precisar dele para regressar quando acabasse a volta pelo Azerbeijão.

Pronto, fiquei com um cartão com crédito para a viagem de volta ao aeroporto e vi que era fácil de carregar. E muito barato. Com 2,50 Eur fiquei com ele e com duas viagens no expresso do aeroporto. Bem bom.

Entretanto o dia estava triste, escuro, deprimente. Um manto de nuvens baixo, do pior que há. Quando é assim, não faço nada. Sento-me ou deito-me e espero que passe. E foi assim, só que não precisei de estar muito tempo sentado: saímos do aeroporto com aquele cenário mau, mas quando meia hora depois chegámos ao centro de Baku o céu era azul e o sol brilhava. Parece que foi de encomenda!

Ainda era cedo. Teoricamente só podia entrar no hostel depois das 14:00 mas haveria de passar por lá pelo menos para deixar a mochila. Para já, apesar da segunda directa em três dias, sentia-me bem. Comecei a cirandar. Meio ao sabor do vento meio com um olho no Google Maps, onde tinha marcado uma série de pontos que queria visitar.

Iniciou-se logo ali, junto ao ponto onde o autocarro me deixou, com a antiga estação ferroviária, muito bonito. Depois andei e fiquei surpreendido. Não esperava que Baku fosse assim. Mais moderna do que esperava, num sentido muito bom. As ruas estão cheias de edifícios clássicos, mas tudo muito bem mantido e arranjado, com a excepção de uma aberração omnipresente: umas redes metálicas que dividem os passeios em dois, criando uma barreira para a qual não encontrei explicação, mas que suspeito prender-se com razões de segurança e ordem pública. Fica mesmo muito mau e complica a tarefa de caminhar. De repente a passagem está barrada. E se uma pessoa está a andar de um dos lados e se cruza com um amigo, azar, ficarão à conversa com uma rede pelo meio, como num campo de concentração.

Encontrei belos parques e bonitas fontes. Parece que o pessoal de Baku é louco por fontes. Há tantas e tão belas! E as avenidas e ruas, muitas ladeadas de árvores e belos edifícios que revelam influência russa com um toque oriental. Por vezes a cidade fez-me lembrar Sarajevo, uma urbe muçulmana mas com uma religiosidade muito moderada, marcada por uns poucos, muito poucos, lenços nas cabeças das mulheres e uma ou outra mesquita.

No fundo uma cidade ocidental com um perfume asiático. Carros modernos, lojas modernas, gente moderna. Fui andando e acabei por chegar ao hostel Sahil. Eram umas dez horas. Deixaram-me logo ficar instalado o que foi muito jóia. De resto gostei de tudo no hostel, fora o facto do sistema eléctrico deles estar marado e ter-me queimado um dos carregadores. Isso e o vizinho de dorm, um alemão, feder e impestar o quarto. Mas tudo bem, posso bem com esse tipo de situação.

Acomodei-me e dormi um par de horas. Acordei cheio de fome de explorar. Saí para a rua. O dia continuava lindo.

Tentei chegar ao passeio marítimo e só vi vias de muitas faixas e barreiras de arame. Desisti. Mas encontrei logo à frente a cidade velha. Disso não gostei. Vinha com outra expectativas. É mais um caso de inclusão absurda na prestigiada lista de locais Património Mundial da UNESCO.  As ruas não têm nada de atmosférico e fico a pensar como é que li um blogger escrever que andar ali era como caminhar num conto das Mil e Uma Noites. Talvez para quem nunca tenha saído de Chicago. Há unidades de ar condicionado por todo o lado. Contadores de água e electricidade montados sobre um bocado de tubo metálico, carros estacionados por todo o lado, edifícios mal restaurados. Não há ali alma nenhuma.

Saio da área, depois de verificar que o bilhete para estrangeiro visitar o palácio é sete vezes mais caro do que para os locais. Chega da cidade velha de Baku. Gosto mais da cidade “nova”.

Ali encontro bonitas ruas, algumas pedonais, com muita vida. Perco-me por ali a andar para trás e para a frente, descobrindo sempre mais uma bela praça, uma encantadora fonte, um novo jardim. Vejo um grande grupo de jovens a jogar voleibol num amplo círculo, e mesmo junto, um outro, mais pequeno, a fazer o mesmo. Ali sim, grande ambiente!

Ainda penso em visitar uns cemitérios que estão na minha lista mas são demasiado longe e começo a ficar cansado e sei que o frio vem ai, com o aproximar do final do dia. Tinha comido uma espécie de kebab e a fome para já não era inimiga. Vou até ao hostel, descansar e relaxar. Assim fico durante um par de horas ou mais. Mas apesar do cansaço preciso de ver Baku “by night”.

Saio para a rua por volta das 20 horas e ando por ali, a rever o que já tinha visto, e mantenho-me assim durante duas horas, com uma paragem para um segundo kebab, que tenho horror a adormecer com fome. E durante todo este tempo a cidade esteve sempre a bombar. Gente e mais gente a encher de vida as ruas de Baku, num serão lindo, adornado por uma iluminação maravilhosa que realça a beleza dos prédios.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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