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Ásia Central 2019 – Dia 4 – Baku, Azerbaijão

Tinha planeado um dia bem cheio e foi isso que tive. Acordei contudo sem grande pressa. Foi um som repousante, longo, de umas dez horas, num dormitório partilhado com um alemão fedorento, muito silencioso.

Na realidade ao despertar estava sozinho. A doninha germânica tinha empacotado e bazado, deixando a janela aberta, um toque agradável, porque notei logo que o cheiro tinha ido com ele.

Tomei o pequeno-almoço no hostel. Fechei a mochila e deixei-a na sala segura, onde só se entra depois de pedir a chave. Deixei o computador à carga na recepção e quando quis pagar o pequeno-almoço foi-me dito que não, como era membro do programa Genius do booking.com não tinha nada a pagar. Boa surpresa.

Bem, fui direitinho ao metro, mesmo ali ao lado. O primeiro objectivo do dia era comprar o bilhete de comboio para Sheki. Podia simplesmente ter caminhado, como fiz à chegada, mas tinha ali no bolso o BakiCard e sempre poupava algum tempo que poderia vir a ser precioso mais para a frente no dia.

A estação de comboios de Baku é incrivelmente moderna e funcional, uma coisa simples de usar e dotada de tudo o que se espera. Comprar o bilhete foi tão fácil que ainda estou a esfregar os olhos… uma menina da companhia está ali para ajudar toda a gente que precise de uma informação rápida, e a mim tirou-me uma senha de atendimento, garantindo-me que me chamaria quando fosse a minha vez, uma cortesia desnecessária porque o sistema é claro.

De qualquer forma assim o fez, e não se tinha passado mais de um minuto depois de me ter sentado. A pessoa que me atendeu… uma jovem mulher atraente, sem extravagâncias, e simpática, falava inglês corrente. Confirmou todos os detalhes do meu pedido e passou-me um vale para pagar na caixa da tesouraria. Mais uma vez este costume estranho, que em quase todo o lado “borra a pintura” de eficiência e modernidade no Azerbeijão. Mas sem problema. Processo rápido mesmo assim, bilhete pago, foi só levantá-lo na bilheteira e estava resolvida uma tarefa.

Paguei algo como 10 Euros para uma caminha no comboio nocturno para Sheki. Podia ter escolhido um compartimento de quatro pessoas por quase metade do preço, mas apeteceu-me o pequeno capricho.

Agora regressava ao metro onde iria percorrer um troço de apenas duas paragens. Apesar de que em Baku o distanciamento entre estações de metro ser substancial. Ia ver o moderno centro de arte, localizado a uns 3 km do centro. A estação mais próxima deixa-nos mesmo assim a pouco mais de um quilómetro, mas é um passeio que se faz bem e traz outra perspectiva.

Assim que acabei de subir as escadas senti algo de familiar, algo que demorou uma fracção de segundo a assentar: senti-me de novo em Praga, a minha cidade de adopção, rodeado pelos restos de um universo soviético em desaparecimento lento. Pus-me a pensar e liguei os pontos perdidos: era assim em tantos países para leste, todos aqueles que caíram na esfera de influência da União Soviética ou que se tornaram, eles próprios, repúblicas bolcheviques.

Depois fui andando, nas calmas, descontraído, a apreciar o momento. Vi a umas centenas de metros a ampla via onde tinha passado quando vinha do aeroporto e depois, ao virar de uma esquina, dei com ele: o Heydar Aliyev Center! É uma coisa impressionante. E eu não sou nada dado a este tipo de arquitectura, mas este deixou-me sem palavras. A máquina fotográfica muito trabalho. Recolhi dezenas de imagens, apenas usei aqui um par delas. Andei em redor, muito devagar, os sentidos todos abertos. Estava um bonito dia, que tinha acordado tímido, algo cinzento, mas como que adivinhando os meus planos, se tinha aberto para encher de luz e de sol o centro Heydar Aliyev Center.

Vi-o de diversas perspectivas e aproximei-me. Ainda pensei em entrar, mas não me pareceu ter nada de interessante que pudesse ser visto numa visita superficial. Um bocado vazio, passagem pela segurança… não sei… fui levado a ficar do lado de fora.

Ainda me mantive por ali um bocado, até que uma voz interior me disse que já chegava e parti. De volta ao metro, por outro caminho, para variar.

Transportei-me rapidamente para o outro lado da cidade. Saí numa espécie de cidade universitária, havia uma multidão sem fim de estudantes, uma maré humana que enchia os largos passeios da avenida. Contra o sentido daqueles jovens caminhei. Tinha um longo passeio pela frente, tendo como primeiro destino um cemitério, um curioso cemitério, que aparece nos mapas turísticos como Alley of Honor. É uma espécie de Panteão, onde os membros mais ilustres da comunidade nacional são sepultados. É de facto interessante, mas peca por ser demasiado novo. O espaço está dividido em linhas e começou a ser preenchido há relativamente pouco tempo. Afinal de contas, o país é relativamente novo, um dos fragmentos da União Soviética que se tornou independente no início dos anos 90. Por tudo isto, as sepulturas são demasiado semelhantes. Compreende-se. Ao contrário do que sucede em cemitérios mais antigos, não há uma sobreposição de eras históricas, de diferentes estilos de decoração tumular. Fica assim uma certa sensação de esterilidade mas mesmo assim dei como positiva a experiência da visita.

Mais à frente comecei a ver as Torres de Fogo, que até à construção do Heydar Aliyev Center eram as grandes estrelas de Baku. Lá estão elas, agora, à minha frente, recortadas contra um céu que entretanto se tornou totalmente azul. A sua superfície espelhada reflecte aquela cor, tal como um camaleão, confundindo-se com o infinito.

Passo por elas, do outro lado da rua. Chego ao Parlamento, atravesso, e entro num outro lugar dedicado aos mortos: o Martyr’s Alley. É um espaço ajardinado, com muito mármore como chão e revestimento lateral, e ao longo do corredor encontram-se imagens dos que tombaram em combate na guerra que opôs o Azerbaijão à Arménia, logo após a independência destes dois países. O motivo da disputa era o território de Nagorno-Karabach.

À minha frente caminha uma mulher, tradicional, coberta de preto, dos pés à cabeça. Vai seguir assim até à Chama Eterna, que se abriga numa estrutura alta, já no fim do “alley”, tendo-se daquele ponto uma vista deslumbrante sobre Baku.

 
 

Este é um ponto imperdível para qualquer visitante de Baku. Dali se podem ver quase todos os principais pontos de interesse da cidade e ao lado do Martyr’s Alley há um um amplo terraço, mais romântico e menos dramático, com bonitos candeeiros, árvores baixas e canteiros de flores. No fim umas escadas conduzem de volta à cidade, deixando-se para trás a tranquilidade do topo.

Entro numa parte da cidade que me mostra uma outra Baku. Há lá para baixo a Old Baku, que se transformou numa tourist trap sem personalidade, mas na realidade a “Old Baku” ainda existe, noutros locais. Está a desaparecer. Mesmo ali defronte de mim está a prova disso. Há uma vasta área cheia de entulho pesado, resultado sem dúvida de demolições, e as obras de construção de modernos edifícios rodeiam-me. Mas ainda resistem algumas ruas, de aspecto pobre e negligenciado, mas essenciais para compreender a cidade e o seu passado.

 
 

Gostei imenso desta parte. E fui andando até encontrar uma mesquita que surge nos mapas como madraça. Encantador. Deixei as botas no armário exterior e entrei. Dois ou três homens encontravam-se no interior. Dirigi-me a um canto e sentei-me, em meditação. Chegou outro homem pouco depois. Rezou. Fiquei por um longo instante naquele espaço sagrado, tranquilizador, relaxante.

Saí para mais um percurso por um bairro verdadeiramente antigo de Baku. No vão de uma janela alguém deixou uns quantos limões com um preço. Uma venda de confiança, a quem quer que precisasse de levar algumas peças.

Estava a ficar cansado e com uma vontade crescente de urinar. Um problema numa cidade densamente habitada e sem casas de banho públicas. Passei ainda por uma ampla alameda. Deveria ser bonita em dias de sol, mas com o correr das horas o tecto cinzento tinha regressado a Baku. E a pressão na bexiga não me deixava contemplar devidamente o que via.

Fui andando, com passo cada vez mais rápido, até ao hostel. Satisfiz as necessidades fisiológicas e instalei-me a trabalhar. Já tinha deixado a mochila devidamente arrumada numa arrecadação que eles têm para estes casos. À hora da partida para a estação de comboios pedi para abrir, despedi-me, e fui andando.

Podia simplesmente ter usado o metro mas a noite estava agradável e gostava tanto da cidade que preferi esticar um pouco mais as pernas e ter uma perspectiva diferente de Baku. Foi um passeio bom. A estação é um pouco confusa. Maravilhosa, mas sem informação. Há ali tudo o que o utente possa querer: mercearias, restaurantes, mesas, wi-fi, fichas de electricidade. Mas quanto a dados sobre as partidas, nada. Lá perguntei a uns funcionários que estavam à conversa. E num instante estava instalado no meu compartimento.

O drama seguinte foi lidar com o revisor, que insistia em cobrar um suborno para garantir que ficaria com o compartimento só para mim. Não me interessava, até porque provavelmente assim seria de qualquer forma. Fui-me fazendo de tolo, fingindo que não percebia, mas ele foi melhor do que eu, venceu-me pelo cansaço. No fim dei-lhe o que pedia, o equivalente a 3 Euros, o que me valeu uma chávena de chá e um pratinho com caramelos e rebuçados. Que se lixe! E a caminho de Sheki fui, pela noite dentro.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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