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Ásia Central 2019 – Dia 8 – Baku, Azerbaijão

Se o dia anterior tinha sido fraquito, o de hoje ia ser bem preenchido. Não começou bem: perdi a chave do quarto, o cabo para carregar o computador parecia ter morrido e não conseguia trabalhar no mau ambiente que se instalara no hostel.

Mas lá fora o sol brilhava, mostrando-me o augúrio desejado e fazendo-me mexer. Comecei por um pequeno-almoço de cereais, que tinha comprado num supermercado antes de me recolher na véspera. Depois, investiguei os cafés com potencial para trabalhar um pouco e o que vi fez-me sorrir. O Tik Talk Anticafe. Um anticafé em Baku!? Maravilhoso! Estava encontrado o meu destino imediato.

 

 
 

Saí para a rua e caminhei animado. Sabia quase exactamente onde ficava, na principal rua pedestre da cidade, a uns 5 minutos a pé do hostel. Aproveitei e comprei um cabo novo. Dois problemas resolvidos. A chave do quarto também não foi questão. Deram-me outra com um sorriso.

Descobri o Tik Talk e senti-me logo bem. Era mesmo aquilo que precisava. Instalei-me na sala principal, mas havia um grupo de crianças a aprender inglês num espaço contíguo e mudei-me para um cantinho mais sossegado, na cozinha.

E ali fiquei. A trabalhar sem parar, durante mais de três horas, produzindo bem e bebericando chá de jasmim. Foram chegando mais pessoas ao anticafe. Iam fazer uma sessão de jogos de mesa. Um deles ofereceu-me um bolinho, de passagem pela cozinha. Foi um excelente local e quem vier a Baku e precisar de relaxar um pouco num canto sossegado (embora suspeite que por vezes não o seja tanto) deverá visitar o Tik Talk. Paguei quatro Euros e pouco pelas três horas, durante as quais bebi três chávenas de chá. Foi verdadeiramente um bom investimento.

Eram quase duas e começava a ter fome. Ia pensando se iria à pizzeria onde tão bem tinha comido na véspera. Hesitava e enquanto hesitava os meus olhos arregalaram-se: estava mesmo em frente a ela. Só podia ser um sinal do destino e acabei por me regalar com uma bela segunda pizza. Aposta ganha.

Agora estava decidido a ver uma coisa que queria desde o primeiro momento em Baku mas cuja visita tinha vindo a ser adiada: o edifício do circo, que segundo li é uma estrutura de referência no capítulo da arquitectura soviética. Foi um bocado “beh”. O dia estava óptimo mas o circo não me impressionou. Era Sábado, o tempo sorria, com muito sol e temperaturas agradáveis e havia pouco trânsito nas ruas.

Valeu mais o passeio até ao circo e o regresso. O edifício é  deveras banal, degradado e sem a monumentalidade que eventualmente se poderia esperar da grande arquitectura soviética, sendo além disso desprovido de qualquer detalhe que pudesse roçar o “delicioso”.

Agora dirigia-me para a beira mar, queria ir ao Museu das Carpetes. Quer dizer, ao local onde ele se encontra, não lá dentro. E junto a ele, a chamada “Pequena Veneza”, que imaginei poder ser fotogénica.

Entrei na zona da baixa. O ambiente estava fantástico, com dezenas ou centenas de milhares de pessoas que ali vão passear numa solarenga tarde de fim-de-semana. As vias pedonais especialmente agradáveis, com esplanadas cheias e pessoas para observar. Há campónios que vêm à cidade, roupas coloridas, trajes tradicionais, uma vida trabalho em cima, que parece ser aliviada por esta jornada diferente, rugas nas faces e contudo, porque o tempo não pára e chega a todo o lado, telemóvel para o retrato nas mãos calejadas.

Namorados trocam cortesias secretas nos bancos juntos às fontes. Uma prostituta em fim de carreira aborda um homem de idade. O negócio não se faz, mas há uma doação caridosa. Nas escadas da passagem subterrânea um jovem que parece não pertencer ali toca um instrumento tradicional em troca da casual moeda.

Nos blocos de letras gigantes que agora invariavelmente se iniciam com um “#” a criançada alinha-se para a fotografia. Um homem com uma câmara enorme que tomo por um profissional do retrato à cata da clientela doméstica é afinal  um pai de família que guarda a recordação do dia com os seus.

Nas esplanadas moças muito aperaltadas gozam do momento especial. Em frente ao Hard Rock Café Baku uma pedinte tenta sacar uma contribuição de uma pequena família americana – gente ligada ao petróleo azeri concerteza – sob o olhar atento do bouncer.

Sentado num muro um homem já para os seus setenta anos tenta vender uns bouquet de flores, certamente da sua produção. Tem uma expressão simpática e faço figas para que a mulher que vê a mercadoria feche negócio.

E é assim, com os sentidos atentos, que cruza a baixa e chego à cidade antiga, aquele segmento da cidade tão injustamente promovido pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, pouco mais do que um caldeirão de turistas de vistas curtas que a pouco mais devem chegar para além daqueles poucos metros quadrados de Baku.

Vejo a Maiden Tower de longe e de passagem, enquanto que do outro lado uma equipa de Bollywood tenta elevar com uma grua uma mota com os dois actores nela montada.

De repente entendo o significado daquelas perturbadoras barreiras que tinha notado no primeiro dia: estão ali por causa do grande prémio de Fórmula 1 que, compreendo agora, é um traçado urbano em Baku!

Passo por um túnel pedonal para o outro lado, caminho por uma rua e vou ter ao pé do edifício do Museu das Carpetes e da beira-mar. Pitoresco. Mais gente. Vou caminhando, pelos jardins, passo junto a uma bandeira. Num banco está uma velhota com ar de quem já não tem mais nada a fazer na vida, de quem espera e enquanto o faz, se senta num banco sob a bandeira.

O dia está a ser em grande mas estou cansado. Começo a pensar em regressar, aponto de novo à baixa, que é sempre um farol que me indica que estou próximo do porto seguro que é o meu querido Sahil Hostel.

Detenho-me por uns momentos a ver um conjunto de homens que cerca um tabuleiro gigante de xadrez. Um dos jogadores é talvez o mais jovem do grupo. Apoia-se sobre um peão, esfregando o queixo, pensativo.

Volto às ruas pedonais, troco para Euros o excesso de Manats, num banco, e isto num Domingo. Vou ao supermercado, ali perto, antes de me recolher. Todos os objectivos do dia cumpridos, tal e qual como eu gosto.

O ambiente no hostel está hoje mais agradável. A música de pastilhar não se nota e há menos gajos a fazer barulho. Sento-me na sala comum a trabalhar, vou bebendo cervejas, que se alinham na mesa. Pela uma da manhã, estão lá seis meio-litros, que terão ajudado o Sporting a bater o Desportivo das Aves por 3-1. Visto com recurso às maravilhas da IPTV, no meu telemóvel.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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