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Cabo Verde 2015 – Mindelo, Praia – Dia 10

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A ideia era acordar o mais cedo possível, tanto quanto a hora do pequeno-almoço o permitisse. E assim foi, mas o pequeno-almoço não estava lá. Atrasado. E quando veio foi decepcionante. O pior que tomei em Cabo Verde. Este local não deixa saudades. Contas pagas, estamos prontos a partir. Temos muito tempo. O voo parte ao meio-dia. São cinco horas para preencher, um pouco menos porque há que chegar antes ao aeroporto.

E por falar em aeroporto. A situação é a seguinte: o aeroporto fica a pouco mais de um quilómetro da aldeia de São Pedro que é um dos poucos locais de menção que existe na ilha de São Vicente, para além do Mindelo, claro. Ora a ideia era termos visitado São Pedro à chegada, caminhando até lá a partir do terminal e depois tomando um transporte local para a cidade e poupando assim no custo do táxi. Não aconteceu porque o voo atrasou mais de duas horas e quando chegámos já era de noite. Então vamos fazer à partida. Procurar um “colectivo” para São Pedro, dar uma vista de olhos e – quase inédito – chegar a um aeroporto a pé.

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O ponto central para encontrar transportes colectivos no Mindelo é a praça Estrela, onde encontramos o mercado de legumes e vegetais apresentado num outro artigo deste blogue. E para lá que teremos que ir, mas antes, uma última voltinha, muito resumida, por algumas das ruas mais emblemáticas do Mindelo. Dá para reafirmar o sentimento de amor-ódio por esta cidade: amor pelas bonitas vias, pela arquitectura pelo ambiente de porto grande de outros tempos; ódio pela insegurança, pela fauna desagradável que por lá anda e, pior, nos aborda a toda a hora.

Encontrar a praça Estrela não foi nada complicado. Sabia bem onde era, já lá tinha estado, até mais do que uma vez. Quando chegámos já o mercado estava montado mas ainda a engrossar. Perguntámos a alguém onde era o ponto para se apanhar o “colectivo” para São Pedro. Ali. Ali mesmo. E para ali fomos, sentámo-nos no muro, lado a lado com vendedoras de legumes.

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O tempo começou a pensar e nada de carrinhas. Ao princípio pareceu-me normal. Foram quinze minutos. Depois a meia-hora. Confirmámos com outras pessoas. Sim, era ali mesmo. Deve estar a vir. Mas não vinha. Quarenta e cinco minutos. E o pensamento a começar a derivar para o voo para a Praia. Uma hora e começámos a pensar que não ia acontecer, que teríamos de ir de táxi directamente para o aeroporto.

Pelo menos já iam aparecendo carrinhas. Outras, para todo o lado menos para São Pedro, mas comparando a situação com o que vimos quando chegámos, já era uma melhoria. De qualquer modo, não seria uma manhã perdida. Ali postados, sem nada para fazer, observámos todo aquele ambiente, e durante mais de uma hora houve muito para ver. O velho italiano com ar empertigado que se recusou a pagar o que a mulher pedia por um molho de coentros e acabou por ficar sem nenhuns; a mãe gata que cheirava os pneus de um carro na companhia do filho gato que era uma réplica exacta de si; o “puto” muito “dread” que passeava um cãozinho lulu pela trela; as vendas de vegetais que iam abrindo e enchendo de cores aquelas paragens; as carrinhas de “colectivos”, sempre cheias de variedade e detalhes.

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E íamos vendo tudo isto quando em vez de encontrarmos o “colectivo” para São Pedro fomos encontrados pelo “colectivo” para São Pedro. Um senhor apareceu vindo do nada e perguntou-nos se era para lá que queríamos ir. É sim senhora, vamos!

Quando chegámos à carrinha fiquei logo desanimado. Estava vazia. Nem um só passageiro. Depois de mais de uma hora à espera perfilhava-se outra mais, e desta vez não iria dar. Sentámo-nos no interior. Não aparecia ninguém e o ajudante ia aproveitando para uma lavagem do carro. E então aconteceu o que menos esperava. Assim que o rapaz acabou as limpezas o patrão, que acho que era o pai, deu à chave e fomos. Afinal sempre íamos visitar São Pedro.

Parte do caminho já conhecia. Tinha sido o tomado à chegada, desde o aeroporto. Mas nesse dia estava escuro e hoje… bem… não tinha melhorado muito. Aquela névoa estranha continuava. Passámos o terminal e logo chegámos à aldeia. O valor a pagar é irrisório. Não me lembro quanto, talvez 150 Escudos. Menos de 1,50 Eur. Uma significativa melhoria em relação aos 7 Eur para um táxi.

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São Pedro é uma pequena aldeia piscatória, imensamente pobre, sombria (OK, a névoa é capaz de ter ajudado a formar esta opinião) mas igualmente interessante para quem visita. Aquilo nem chega a meia dúzia de ruas, mas gostei, valeu a deslocação. Tem um toque genuíno. Não tenho ilusões: tão perto do Mindelo deve receber imensos turistas que ali vão meter o nariz, mas não parece. Naquele dia havia um pequeno grupo de franceses transportados por uma carrinha privada que passeavam no areal, separados uns dos outros, e que entretanto se agruparam e partiram.

Surpreendentemente, considerando a pobreza, não encontrei um ambiente hostil em São Pedro. As pessoas reagem com indiferença positiva aos estrangeiros que ali passam. As crianças são simpáticas, os adultos não passam cartão. Fica a memória da carcaça de um velho camião militar português, um Unimog, que ali está abandonado junto a uma casa.

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Passamos para a praia. Há que gerir o tempo. A praia é imensa e finalmente esta névoa que persiste tem uma utilidade, oferecendo ao local um ambiente especial. Não há ninguém no areal. Apenas um grupo de homens que trabalha na faina da pesca, de volta de duas embarcações que deverão ter chegado recentemente do mar. Caminhamos pela praia. Ainda são quase dois quilómetros de extensão mas, de certa forma, estamos a ir na direcção certa. Quando por fim chegamos à extremidade oposta subo às falésias e aprecio a imensidão daquela praia. Entretanto uma vela de windsurf ergueu-se, num instante torna-se um pontinho no horizonte. Parece que os ventos locais fazem desta praia um excelente ponto para a prática deste desporto.

Agora há que ir para o terminal. O tempo é à justa. Controlado, mas à justa. Recomenda-se mesmo um passo rápido. Passamos junto a um pequeno resort. Há pessoas, clientes. Estão deitados em espreguiçadeiras à beira da piscina. Claro, que tolice a minha, andar pela praia, passear na aldeia, subir às falésias… bom mesmo é vir a Cabo Verde para passar os dias em espreguiçadeiras à beira da piscina, devidamente isolado do país.

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Desta vez não há surpresas com o voo. Vai partir à hora. O terminal está um pouco confuso, há um voo TAP para Lisboa. Tudo corre bem, logo estamos no ar e passado uma hora, na Praia. Telefono à Sueli. Está com um couchsurfer que vai ficar conosco nas próximos duas noites. Estavam a pensar em ir até à Cidade Velha. Boa! Vamos também, porque não. Apanhamos um táxi, chegamos ao apartamento. É só largar as mochilas, preparar o saco para um passeio mais curto e vamos caminhando até Sucupira. Já me sinto em casa, estar na Praia traz-me uma sensação de estar em casa.

Lá vamos no “colectivo” para a Cidade Velha. Porque não… já lá estive duas vezes mas posso regressar, aliás, posso regressar vezes sem conta. Gosto do preço do transporte, gosto do percurso, gosto do local e hoje gosto da companhia. Não vou escrever muito sobre esta incursão… foi um rever de paragens já conhecidas. Sentámo-nos a beber uma bebida numa esplanada junto ao mar e viemos relativamente cedo. Os “alugueres” acabam por volta das cinco e é melhor não arriscar. Mesmo à despedida compro uns doces a uma vendedeira. Doce de leite, é o nome. E delicio-me. De repente vem-me à memória um sabor que tinha esquecido, perdido nos últimos quarenta anos. Era o sabor de uma marca de chocolates que gostava muito na minha meninice, chamavam-se Top. Alguém da minha geração se lembra dos Top?

Na chegada à Praia paramos no mercado dos vegetais. Foi um prazer ver a nossa amiga a fazer compras, conhecedora dos produtos e de muita gente que ali estava, compradores e vendedoras.

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A Sueli tem uns petiscos em casa, marisco em boa quantidade, trazido directamente dos pescadores. Vai ser uma boa jantarada, vem a prima que se nos junta e é um serão divertido. Ficamos simplesmente em casa, a acabar com a comida e a bebida e a conversar. A prima pira-se mais cedo, quando percebe que ali ninguém está com vontade de ir para a festa algures na noite da Praia. É Sábado, a Sueli não tem que acordar cedo no dia seguinte. Dormimos todos na sala.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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