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Cabo Verde 2015 – Santo Antão – Dia 6

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Com tantas propostas interessantes em Santo Antão, escolher o que fazer foi como pedir a uma criança em loja de doces para tirar apenas um chupa-chupa. Acabou por ficar assente que no primeiro dia daríamos a volta das povoações, deixando os percursos pedestres e outras aventuras para os dias seguintes. Era o que fazia sentido. Mais fácil fisicamente, depois dos percursos sucessivos desde a Praia, e também a actividade mais suave do ponto de vista psicológica, sem grandes problemas para resolver.

Mas antes de tudo o mais foi o acordar, doce, bem matutino. Foram sempre assim, em Santo Antão, na bela Casa das Ilhas, um turismo de habitação localizado nas montanhas, com uma vista de sonho para o vale do Paul, epicentro das melhores actividades de caminhada da ilha. Todos os dias o corpo despertava, muito cedo, quase de noite, e lá fora o fresco da noite reinava ainda, uma penumbra cobria o horizonte e o sossego era imenso. A melhor forma de começar mais um dia.

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O pequeno-almoço era servido à hora escolhida, uma agradável refeição no primeiro dia… e ainda no segundo, mas como era sempre a mesma coisa, a partir daí começou a fartar e a vantagem limitou-se mesmo a encher o bucho bem para aguentar o máximo do dia.

Partilhámos a mesa com um casal de belgas flamengos, já bem idos para os sessenta e tal anos, mas prontos para a aventura. Despedimo-nos e… let the show begin. Trilho abaixo, até chegar à estrada e depois até à aldeia, num total de três quilómetros e meio, simples ao descer, provavelmente um inferno à subida que nunca aconteceu. Quer dizer, subir subimos, mas à boleia de um qualquer “aluguer”, nunca a pé.

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Este primeiro troço foi um passeio delicioso. Boa parte da estrada é de calçada, enquadrada pelas plumas brancas da cana de açúcar, que parecem ser omnipresentes nesta parte da ilha. Há crianças que vão para a escola a pé. Muitas. E “alugueres” que param para nos oferecer transporte. Seria uma loucura aceitar. Este passeio vale ouro. As condições metereológicas estão ideais e parece que atravessamos o paraíso a pé.

Passamos por lugarejos, agrupamentos de casas, todas com a sua mercearia. Vimos várias escolas, casas antigas, dos nossos tempos, algumas basicamente em ruínas, outras ainda bem vistosas, relativamente bem tratadas. A ribeira corre sempre ao lado, há um pitoresco aqueduto. Um mural ostenta frases de prevenção contra a SIDA. Numa árvore enorme ali bem próximo de onde passamos vimos um cartaz pendurado com uma frase que nos fez sorrir e brincar durante dias: “Ho suas feas aqui nao é pa detar lixo *Oki#”.

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Nota avulsa: é tão bom que em Cabo Verde ninguém nos liga. As pessoas tratam-nos bem, como tratariam qualquer visitante,  mas não param para mirar, não observam como quem tem uma delegação de extra-terrestres no quintal. Podemos simplesmente fazer estes passeios e não sentirmos olhos cravados nas costas, pessoas a virarem-se para nos mirar. A mim isso sabe-me muito bem.

Aproximamo-nos da aldeia e a ocupação humana intensifica-se. Passamos um supermercado e uma tasca. Lá em cima, num morro altaneiro, uma grande estátua de Santo António zela pela povoação. É o seu santo padroeiro e no Verão organizam-se aqui festas de arromba em sua honra. O leito da ribeira, quase sempre seco, é limpo e cheio de areia e ali se fazem corridas umas corridas de cavalos que devem ser um espectáculo. Se calhar o par de cavalos que pastam num campo ali junto à estrada, que todos os dias me cativarão e inspirarão umas quantas fotografias, terão algo a ver com o evento.

E agora o que fazer. Chegamos à beira do mar e a uma encruzilhada. Viramos à direita. Há ali um café, moderno e espaçoso, onde dizem existir boa Wi-Fi, para quem não servir a Internet gratuita disponibilizada na praça principal, quase em frente.

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Passámos por todas as ruas que encontrámos, que não são muitas. Como seria de esperar há um misto de casas mais recentes e de edificação colonial. É uma aldeia muito agradável. Não falta um largozinho da igreja, com um pequeno supermercado e um café, como em qualquer aldeia portuguesa. E quando batemos tudo ali naquela parte da aldeia, fomos até à beira do mar e apanhámos uma rua que passa mesmo junto à praia de seixos.

É ali que se encontra o cemitério local e uma fiada de casas degradadas onde habita gente pobre. Um miúdo está de pé junto à rebentação das ondas, uma placa de madeira debaixo do braço que terá que servir como prancha de surf. Um abrigo ali construído, provavelmente para que os compadres se sentem nas suas conversas de sempre ao abrigo do vento marítimo, está decorado com símbolos do Futebol Clube do Porto.

Parece que esta secção de Vila das Pombas foi muito mal tratada quando a cauda de um furacão (desculpem, esqueci o nome) acertou em Cabo Verde há uns poucos anos. A mim arrepiar-me-ia viver tão próximo de um oceano.

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E agora começamos a pensar que seria interessante dar uma vista de olhos à povoação anterior, que atravessámos na véspera, quando chegávamos a casa. Vamos andar? Talvez. Ainda são uns 5 km. Ou podemos apanhar um “aluguer”.  E estamos nisto, enquanto caminhamos em busca da estrada que sai da aldeia, quando de facto a atingimos, e nesse instante vejo uma série de pessoas dirigirem-se para uma carrinha de caixa aberta. Alto que isto parece-se mesmo com a partida de um “aluguer”. Pergunto se vão para cima. Sim. Vamos! Divertido! Uma carrinha de caixa aberta.

Também nos transportes as pessoas não reagem por aí além à presença de estrangeiros. Somos mais uns passageiros e pronto. OK, talvez um pouco, mas não muito. Perguntamos a um moço quanto é o preço do bilhete (sempre pago à saída ao condutor) e ele pergunta-me para onde vamos. É uma boa pergunta. Para a próxima aldeia, não sabemos, vamos por aí dar uma volta. E ele conclui que sim, que deve ser para a aldeia chamada Janela, que de qualquer modo é o destino final da viatura. E com aquele vento a bater-me “nas fuças” sinto a felicidade da viagem, o apogeu da “wanderlust”.

Observo os outros passageiros. Ao meu lado vai um tipo com ar de duro trabalhador agrícola, segue uma mãe jovem com a filha, o tal moço simpático, dois velhotes que chegaram depois e vão nos últimos lugares e uma mulher de meia-idade de face bonita mas sem um olho que mais tarde, ao sair, cai em cima de mim e põe-me uma mão na perna de uma forma demorada e suspeita.

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O nosso amigo fala-nos da pedra com inscrições, lá em Janela e explica-nos como lá chegar. Pronto, este pessoal não fala português no mesmo comprimento de onda que nós e não percebi bem todos os detalhes, mas parece ser um ponto de interesse. Nunca tinha ouvido falar, mas mais tarde, ao ler um guia na Casa das Ilhas, aprendo que de facto as inscrições são antigas e misteriosas, sendo talvez atribuídas ao descobridor das ilhas.

O “aluguer” chega, pagamos, despedimo-nos da companhia. Vamos à procura da tal pedra das inscrições, que estaria ali próximo, a uns duzentos metros, mas não encontramos nada. Só o casario junto ao qual se encontraria. Paciência. Na altura não sabia que aquilo era de facto importante, foi um encolher de ombros e voltar para trás, para parar na tasca que certamente teria uma cervejinha fresca para mim. O rapaz de lá ao princípio estava com uma atitude reservadas, mas foi abrindo e quando nos despedimos já era todo risos e sorrisos. Boa onda.

Ali perto há um farol. Para lá chegar ou se atravessa o túnel da estrada nova, cuja boca se encontra ali mesmo, ou se vai à volta, pela Pontinha da Janela, uma espécie de sub-aldeia, por onde só se passa com bom tempo. Quando chove muito ou o mar está alteroso é melhor não tentar.

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É uma bela ideia. Dali tem-se uma bonita vista. Chega-se às casas do outro lado da ponta. Há umas mercearias, algumas das casas são muito pobres, outras assim assim e há construção que está a ser feita. Uma mescla urbana interessante que atravessamos antes de chegar à estrada e de iniciar a caminhada final até ao farol. Serão 2 ou 3 km que se fazem bem. De junto do asfalto sobe uma escadaria que dá acesso ao trilho que conduz ao “Pharol Antonio Maria de Fontes Pereira de Melo”, construído em 1884. Está ao abandono mas é um local com uma atmosfera muito própria, com personalidade e ali retemperámos forças antes de iniciar o caminho de volta. Estamos no pico do calor.

O regresso a Janela é quase sempre a descer. Há ainda tempo para mais uma cerveja, desta vez num bar à beira da estrada, enquanto esperamos por um transporte para Vila das Pombas. Em Cabo Verde e especialmente em Santo Antão apanhar um transporte foi sempre uma tarefa simples. É questão de esperar um bocadinho e logo se materializará a solução que procuramos.

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De regresso à “nossa” aldeia a fome ia apertando. Estudámos algumas alternativas e acabámos no Atelier Bar, um pouso que se tornou o meu favorito para os dias seguintes. Um ambiente e pessoal a modos que alternativo. Uma moça de cara bonita que me arranjou uma bela omelete de queijo e legumes e um acompanhamento glorioso consistindo de uma selecção de vegetais diversos. Tudo por 500 Escudos, um pouco menos de 5 Eur. Gostei. Soube-me bem a comida, souberam-me bem as feições dela e soube-me bem um bocado passado na esplanada, primeiro a comer, depois a aviar uma segunda cerveja e por fim apenas a relaxar e saborear o momento. Conheci Ary, o dono do lugar, que me disse onde encontrar o engenho de grogue, o trapiche, que procurava.

Fomos visitá-lo. Pagam-se 200 Escudos para dar uma vista de olhos e incluídas estão umas quantas bebidas à prova. Não foi uma experiência especialmente positiva, havia um ambiente estranho que nem sei descrever bem. Não era hostilidade, mas como se tivéssemos aparecido em má hora e devêssemos ir embora rapidamente. O que foi feito.

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Para acabar o dia fomos espreitar a outra parte da aldeia, que se estende ao longo da orla marítima na direcção oposta, como quem vai para Ribeira Grande ou Ponta do Sol. E foi uma agradável surpresa, que contudo deixarei para descrever num outro artigo, já que diariamente se repetiu a visita a esta secção de Ribeira das Pombas.

Já havia algum cansaço. O dia, que deveria ter-nos levado até às duas povoações maiores de Santo Antão (excluindo Porto Novo) não deu para tanta descoberta. Os prazeres da jornada retiveram-nos por aqui, teremos que ajustar os planos e incluir as outras localidades num dia posterior.

Subimos a estrada num aluguer conduzido por um rapaz simpático que nos cobrou uns centavos a mais e enfrentámos o trilho. O serão foi de repouso. Grande dia, este primeiro de Santo Antão!

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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