A época de montanha no Nepal começou. Há quem vá dar ao Annapurna, outros seguem para o campo base do Everest, e depois há toda uma série de trilhos menos óbvios que continuam a fazer do Nepal um dos países mais procurados do mundo para quem gosta de altitude.
Só que este ano há um problema. Um grande problema.
Em Março, as autoridades avançaram com uma investigação de grandes dimensões acusando dezenas de pessoas de fazer parte de um esquema organizado que envolvia agências de trekking, helicópteros e hospitais. Alguns indíviduos já foram detidos, outros estão em fuga. O que está em causa não é um pequeno golpe. Trata-se de milhões desviados de seguradoras internacionais ao longo de vários anos.
E como funcionava?
Em altitude, quase toda a gente sente alguma coisa. Dor de cabeça, cansaço, falta de ar — nada de extraordinário. Normalmente resolve-se com tempo ou a descer um pouco. Mas, segundo a investigação, era exatamente nesse momento que o sistema entrava em jogo: guias e pessoal local pressionavam os trekkers, dizendo que era grave, que podia correr muito mal, que tinham de sair dali rapidamente.
E “sair dali”, no Nepal, muitas vezes significa helicóptero.
Há indícios de que, em certos casos, os sintomas nem eram naturais — eram provocados. Medicamentos administrados sem necessidade, comida adulterada para causar mal-estar. Criava-se o problema para justificar a solução.
Depois vinha a parte “invisível”: a faturação. Um único voo com vários passageiros transformava-se em várias contas completas enviadas às seguradoras, como se cada pessoa tivesse tido um resgate individual. Nos hospitais, apareciam internamentos que nunca aconteceram. Houve até imagens que mostram “pacientes” perfeitamente tranquilos, a beber cerveja como se nada fosse.
Nada disto surgiu agora do nada. Já tinha havido alertas no passado, relatórios extensos, promessas de controlo. Mas ficou tudo por aplicar. Sem consequências, o esquema ganhou raízes.
O problema é o timing. Isto rebenta precisamente quando a época alta arranca. E quem está prestes a embarcar lê essencialmente isto: o sistema que devia garantir segurança pode, afinal, estar a funcionar ao contrário.
Para o Nepal, isto é complicado — não por causa dos acusados, mas por todos os outros. Há milhares de guias, operadores e trabalhadores que vivem disto e fazem tudo de forma legítima, em condições duras, muitas vezes no limite. Agora ficam todos numa situação muito delicada.
E há um efeito imediato: seguradoras a recuar. Algumas já deixaram de cobrir trekkings no Nepal. E sem seguro, muita gente nem considera ir.
No fundo, isto expõe uma fragilidade difícil de resolver: tudo acontece longe, alto, isolado. Verificar o que realmente se passou numa encosta dos Himalaias não é propriamente simples para uma empresa do outro lado do mundo.
