1/1/2026

E desta voámos mesmo. Mais uma viagem de tuk-tuk até ao já conhecido aeroporto, um checkin sem precalços com a menina simpática que bem se lembrava de nós e pronto, a bordo da pequena aeronave da Skyward rumo a Lamu.

E porquê Lamu, um sítio tão pouco conhecido, o que há lá que desperte o interesse ao viajante? Bem, eu próprio nunca tinha ouvido falar em tal nome. Encontrei-o enquanto procrurava possíveis destinos para diversificar a passagem pelo Quénia. Nairobi teria que ser – e não desgostei – assim como Mombaça. Mas e mais…? Foi então que encontrei Lamu, a norte de Mombaça, com voos domésticos a rondar os 50 Euros, ligação de ida desde Mombaça e de partida para Nairobi. Pesquisei, e pelo que vi online ficou decidido. Ainda por cima tem o estatuto de UNESCO World Heritage Site.

Lamu é uma pequena ilha na costa norte do Quénia, perto da fronteira com a Somália, e um dos lugares mais singulares da África Oriental. Durante séculos foi um importante entreposto comercial da costa suaíli, recebendo comerciantes árabes, persas, indianos e africanos que deixaram marcas profundas na cultura local. O resultado é uma sociedade com uma identidade própria, onde a língua suaíli, a religião islâmica e tradições centenárias continuam muito presentes no quotidiano.

A cidade principal, Lamu Old Town, é considerada uma das mais antigas povoações continuamente habitadas da África Oriental. As suas ruas são tão estreitas que praticamente não circulam automóveis. Os habitantes deslocam-se a pé, de burro ou de barco, e o som dos motores é substituído pelo das conversas, das chamadas para a oração e do movimento das embarcações no porto. A atmosfera lembra mais uma cidade árabe antiga do que uma cidade africana moderna.

A arquitetura é uma das grandes atrações. Muitas casas possuem portas de madeira esculpidas, pátios interiores e varandas que revelam a prosperidade que a cidade conheceu nos tempos em que o comércio marítimo dominava a região. Caminhar sem destino pelas ruas é provavelmente a melhor forma de conhecer Lamu, observando oficinas, pequenas lojas, mesquitas e a vida quotidiana dos moradores.

O mar está sempre presente. Os tradicionais barcos à vela conhecidos como dhows continuam a ser utilizados tanto para pesca como para transporte entre as ilhas do arquipélago. Ao final da tarde, é comum ver dezenas deles navegando lentamente diante da costa, criando uma das imagens mais emblemáticas de Lamu.

E foi a este cenário que chegámos pela hora de almoço. Um calor abrasador. O aeródromo fica em frente à ilha, e logo ali encontramos o barqueiro encarregado pelo nosso anfitrião de nos receber… e a outros clientes de diferentes casas de hóspedes.

Travessia feita, do outro lado tínhamos alguém para nos levar até à Jambo Guesthouse, instalada numa construção perdida no emaranhado de ruelas e passagens da cidade antiga. Esperava-nos o Arnold, o alemão que se perdeu de amores por Lamu há muitos anos e por ali ficou. Uma personagem curiosa, com uma energia sem fim, um estilo nostálgico, parecendo saído de uma máquina do tempo, directo dos anos 70 do século XX.

Explicações dadas, quarto apresentado, arranjou logo uma tour guiada da cidade, combinada para depois de um breve descanso.

À hora combinada lá estava o nosso guia, um homem dos seus setenta anos, com um característico chibo no queixo e um inglês suficiente para o trabalho. Lá fomos, ouvindo as explicações, com paragens aqui e acolá. Focava-se sobretudo na arquitectura, que revela o ponto de convergência cultural que Lamu foi. Neste primeiro contacto Lamu era fascinante. A fazer lembrar a Stone Town de Zanzibar ou a medida de Essaouira em Marrocos.

As estreitas ruelas formam um labirinto, terminando muitas vezes em becos que obrigam a retroceder. Os burricos são omnipresentes, quase a única forma de transporte de cargas nesta planta intrincada. Mais próximo da água a principal via, muito comercial, atravessa as praças que são ponto de encontro da comunidade.

Demorámo-nos especialmente numa obra de restauro de uma velha casa de família abastada, agora adquirida por um estrangeiro. Uma equipa de construtores e artesãos trabalha no interior. Os primeiros procedem com os trabalhos normais: recuperação de paredes, manufactura de portas e janelas, tratamento dos pavimentos. Tudo isso que se faz em qualquer casa. Os segundos estão dedicados à decoração. Usam como base técnicas tradicionais, recuperando o que já existe, quando possível, ou criando novos elementos com base no contexto. São intrincados trabalhos em pedra talhada que decoram todos os espaços.

Exploramos os vários pisos do imóvel graças aos contactos do nosso guia. E no final trocamos algumas palavras com o empreiteiro que só nos esperava para fechar a obra para o dia.

O resto do passeio foi mais banal. Pequenas histórias sobre a cidade, a origem da sua antiga riqueza, a chegada do capital estrangeiro e o renascer de velhos palácios como o que visitámos.

A visita terminou à porta do nosso alojamento. Subimos para refrescar um pouco. O calor abrasador será uma permanente durante a estadia em Lamu.

Estamos a ficar numa casa de vários pisos. Num canto do nível térreo fica o alojamento do proprietário. Há alguns quartos mesmo ao lado, mas o nosso fica no andar de cima. Um corredor com três ou quatro portas, com janelas para a cidade do lado direito. A acomodação é simples e, sem ar condicionado, um forno. As duas ventoinhas ajudam a refrescar, mas são de uma utilidade limitada. As noites serão o pior bocado. Depois de um dia escaldante com o sol inclemente a dar nos telhados e paredes o calor no quarto impede uma noite bem dormida. Ficaram memórias de exaustão causada por dias de caminhada sem descanso e com a promessa de um repouso nocturno retemperante.

No topo há um terraço, onde pela manhã é servido o pequeno almoço e onde existem painéis com fotos antigas da cidade e folhas impressas ou manuscritas com informações sobre a casa e conselhos e sugestões para o visitante.

Saímos para a rua para o primeiro passeio a sós. Percorremos vielas que já são familiares, chegamos à rua principal, de comércio, damos com a praça principal, onde se encontra a entrada do forte. O coração da vida social de Lamu. Homens vestidos de forma tradicional sentam-se nos muretes e conversam. Há um permanente cruzar do espaço por pessoas que se dirigem a destinos desconhecidos. Pessoas de todas as idades, géneros, estilos. Um local excelente para encontrar um canto discreto e observar a vida que se desenrola em redor.

Passamos por um mercado de fruta e vegetais. Espaços sempre coloridos, retratos de uma sociedade que nos contam algo da cultura pela alimentação que se adivinha através dos produtos expostos. Pelo menos ali os burros ficam no exterior.

Prosseguimos para a rua marginal, paralela a esta, muito próximo, logo a seguir. Também ela tem muita vida. As embarcações de pesca trazem cor acrescida ao cenário. Os pescadores que estão a trabalhar a esta hora focam-se em tarefas de manutenção. Há também aqui lojas, restaurantes para turistas estrangeiros e nacionais.

Pequenas bancas que vendem um pouco de tudo, propostas de passeios de barco, mais homens sentados a pôr a conversa em dia. A tarde vai chegando ao fim, as cores tornam-se douradas. E vou pensando sobre o que sinto em relação a este lugar. O encanto original começa a dissipar-se. O calor afecta-me os humores. Os omnipresentes burros cobrem as ruas de omnipresentes fezes de odor desagradável. Esgotos a céu aberto não ajudam. E é uma pequena cidade. Começo a pensar que a alteração no plano por causa da confusão com o voo foi uma benção.

A fome vai chegando e entretanto a noite caiu sobre Lamu. Escolhemos um restaurante na marginal com um terraço com vista para a água. Comeu-se bem, antes de recolhermos ao quarto para assarmos durante a noite.

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