3 e 4 de Janeiro de 2026
Um despertar matutino para iniciar a jornada. Passo o pequeno-almoço, não quero arriscar nada que possa atrasar a partida de Lamu. Há que caminhar até à margem, apanhar o barco, chegar à outra margem, encontrar o autocarro. Nada disso foi complicado. Vamos com um viajante que conhecemos no hostel. Na realidade conhecemos durante este breve momento compartilhado. Um tipo interessante.
Soube bem cruzar a água pela manhã, um pouco de fresco a quebrar a torreira dos dois últimos dias. Vemos logo os autocarros, partem para destinos diferentes. Há um par de lojas que vendem de tudo, tendo nos passageiros um mercado fiel.

Despedimo-nos do nosso novo amigo, tomamos lugares no autocarro. Vão ser longas horas até Nairobi. O ar condicionado é quase inexistente e com o passar do tempo o calor aperta. São umas dez horas que custam a passar, mas o prémio está no fundo do túnel: o agradável apartamento que já conhecemos da primeira noite em África.
Quando o autocarro finalmente se detém no centro de Nairobi já é noite. Nairobi não tem boa fama e aquela é das zonas menos recomendadas para se estar por volta da meia-noite. O pessoal do autocarro entrega-nos pessoalmente aos colegas do escritório, e entre todos garantem que não ficamos abandonados na rua. Só quando chega o Uber é que descansam.

E finalmente no repouso daquela agradável apartamento, adormecendo com o fresco do ar condicionado moderno.
O dia seguinte será deveras agradável, começando com a visita à casa de Karen Blixen, autora do livro África Minha, que deu origem ao filme com o mesmo nome, com Robert Redford e Meryl Streep nos principais papéis.
Como sempre o Uber a funcionar na perfeição. De porta a porta, sem problemas. Senti uma emoção ao ver aquele local. O filme foi marcante para a minha geração, e para a geração anterior. O meu irmão, muito mais velho, intentificou a casa numa fracção de segundo quando lhe enviei uma foto. E lembro-me da minha mãe suspirar de cada vez que via o filme.

E agora estava ali, pessoalmente, a ver a casa e a propriedade envolvente, que tantas histórias teriam para contar, para além das que ficaram registadas no livro, que por esta altura relia.
Para quem não conhece a história de Karen Blixen, nasceu em 1885 em Rungstedlund, na Dinamarca, numa família burguesa. Estudou pintura em Copenhaga, Paris e Roma antes de partir para África.
Em 1914 casou-se com o primo, o barão sueco Bror von Blixen-Finecke, e mudaram-se para o Quénia (então África Oriental Britânica), onde compraram uma fazenda de café – esta que agora visito – no sopé das montanhas Ngong. O casamento foi conturbado — Bror era compulsivamente infiel, e Karen contraiu sífilis dele, doença que a afectaria de forma crónica pelo resto da vida. Divorciaram-se em 1921, mas ela manteve o título de baronesa e continuou a gerir a fazenda sozinha durante quase uma década.

Nesse período teve uma relação amorosa longa e intensa com o caçador Denys Finch Hatton, figura central da sua vida africana. Finch Hatton morreu num acidente de avião em 1931, um golpe devastador para Karen.
A fazenda nunca foi verdadeiramente lucrativa — a altitude era desfavorável ao cultivo de café — e, entre dívidas crescentes, a queda dos preços do café e a morte de Finch Hatton, Karen viu-se obrigada a vender a propriedade e regressar à Dinamarca em 1931, aos 46 anos, sem dinheiro e fisicamente debilitada. Aí viveu o resto da vida com a família e dedicou-se à escrita, adotando pseudónimos como Isak Dinesen. Morreu em 1962, aos 77 anos.

Há muito que ver e usufruir da casa e na propriedade, hoje uma pequena fracção da fazenda original, cercada pelo crescimento urbano de Nairobi. A casa principal, aberta ao público, onde infelizmente não se pode fotografar, e a habitação contígua, onde vivia o seu fiel criado. Restos dos engenhos de café, espaços abertos, a remeter para as memórias das cenas do filme, aqui rodado. Ali encontro uma pequena colónia de macacos que trazem ainda mais vida ao cenário.
É no fundo um oásis de tranquilidade e paz, onde se sente uma tranquilidade inimaginável na grande cidade que é Nairobi.
Regressando a casa o resto do dia foi de repouso. Havia que recuperar do calor. Uma breve paragem no supermercado do fim da rua, um belo copo de sumo de cana da vendedora com banca montada já próximo do nosso edíficio e está contada a história deste dia em Nairobi.
