Há voos que servem para levar passageiros de um ponto a outro. Há outros que servem, sobretudo, para provar que algo é possível. Foi este o caso da travessia que a Airbus e a Qantas concluíram esta semana, quando um avião partiu de Melbourne, na Austrália, e não voltou a tocar terra durante 24 horas e 24 minutos, até aterrar em Toulouse, no sul de França.

A aeronave em causa é o A350-1000ULR, uma versão de alcance ultralongo desenvolvida especificamente para o Project Sunrise, o ambicioso programa da Qantas que procura, há quase uma década, tornar viáveis voos comerciais diretos entre a Austrália e destinos como Londres ou Nova Iorque. O avião de teste, com a matrícula provisória F-WULR e o nome próprio “Vega”, tinha já feito o trajeto inverso poucos dias antes: saiu de Toulouse a 23 de Julho e chegou a Melbourne cerca de 19 horas e 12 minutos depois, seguindo uma rota que passou pelo Oceano Índico.

O regresso, no entanto, foi ainda mais exigente. Em vez de repetir o mesmo caminho, o avião rumou para nordeste, atravessando o Oceano Pacífico, o oeste dos Estados Unidos, o leste do Canadá e o extremo sul da Gronelândia, antes de descer sobre o Reino Unido e entrar em França pelo noroeste. No total, percorreu mais de 23 mil quilómetros sem uma única paragem para reabastecer — uma distância que corresponde, grosso modo, a mais de metade da circunferência da Terra.

O feito supera o recorde anterior de voo comercial de longo curso, estabelecido em 2005 por um Boeing 777-200LR que ligou Hong Kong a Londres em 22 horas e 42 minutos. A nova marca da Qantas ultrapassa esse tempo em quase duas horas, e o interesse do público acompanhou a proeza de perto: mais de 3,6 milhões de pessoas seguiram o voo em tempo real através do Flightradar24, tornando-o o segundo trajeto mais acompanhado de sempre na plataforma, atrás apenas do voo que transportou o caixão da Rainha Isabel II em 2022.

Importa sublinhar que este não foi um voo comercial. A bordo seguiam apenas engenheiros da Airbus e pilotos da Qantas, encarregados de monitorizar o desempenho dos sistemas, o consumo de combustível e o comportamento da aeronave ao longo de uma missão que testa os limites do que hoje se considera exequível na aviação civil. Para tornar possível uma autonomia desta ordem, a Airbus equipou o A350-1000ULR com um depósito de combustível adicional na zona traseira, capaz de armazenar cerca de 20 mil litros extra e de aumentar o alcance do avião em aproximadamente mil milhas náuticas.

Quando entrar ao serviço comercial, a configuração da cabina será também muito diferente da versão convencional do A350-1000, que pode acomodar entre 350 e 410 passageiros. A Qantas optará por apenas 238 lugares, distribuídos por seis suites de primeira classe, 52 camas planas em business, 40 poltronas reclináveis em premium economy e 140 lugares em económica — uma redução deliberada pensada para compensar a duração das viagens com mais espaço e conforto. Está também prevista uma “Wellbeing Zone”, uma área da cabina onde qualquer passageiro, independentemente da classe em que viaja, poderá levantar-se, alongar os músculos e beber água em pé, algo que a experiência de voos de duas dezenas de horas torna quase indispensável.

O calendário do Project Sunrise, anunciado pela primeira vez em 2017 e depois atrasado sucessivamente pelas disrupções causadas pela pandemia, parece agora finalmente próximo de se concretizar. A Qantas já encomendou doze unidades do A350-1000ULR, com entrega do primeiro avião prevista para Abril de 2027 e o arranque dos voos diretos entre Sydney e Londres agendado para Outubro do mesmo ano, encurtando significativamente uma viagem que hoje obriga sempre a pelo menos uma escala.

Resta saber como o corpo humano reagirá, na prática, a uma permanência tão prolongada dentro de um avião — ainda que, a julgar pelo entusiasmo com que meio mundo seguiu este voo de teste, a curiosidade sobre viajar sem escalas de um extremo ao outro do planeta seja, ela própria, parte do fascínio.

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