Todos os anos, durante uma dezena de dias, um grupo de delegados reúne-se algures no mundo para decidir, ponto por ponto, o que passa a merecer proteção internacional em nome de toda a humanidade. Este ano coube a Busan, na Coreia do Sul, receber a 48ª sessão do Comité do Património Mundial da UNESCO, entre 19 e 29 de Julho, e o resultado foi um dos mais generosos dos últimos anos: 25 novos bens culturais e naturais entraram para a Lista do Património Mundial, elevando o total global para 1.273 sítios espalhados por 173 países.
O equilíbrio entre categorias diz muito sobre as prioridades atuais da organização. Dos 25 sítios aprovados, dezanove são culturais, cinco naturais e um misto, e todas as candidaturas foram aceites por consenso entre os Estados-membros do comité — um detalhe que a própria UNESCO fez questão de sublinhar, num momento em que a cooperação internacional em torno de temas patrimoniais nem sempre é fácil de alcançar. Paralelamente às novas inscrições, o comité aprovou ainda três inscrições de emergência, destinadas a sítios ameaçados por conflitos armados ou pelas alterações climáticas, e adotou a chamada Declaração de Busan, um documento que compromete os países signatários a reforçar a proteção do património face a estas duas ameaças crescentes.
A Ásia continua a dominar as novas entradas na lista
Como tem vindo a acontecer nas últimas edições, a Ásia foi a região com mais candidaturas aprovadas. Na Tailândia, entra para a lista o Wat Phra Mahathat Woramahawihan, em Nakhon Si Thammarat, um dos templos budistas mais antigos do Sudeste Asiático em funcionamento contínuo, e que continua a receber peregrinos tal como há séculos. No Japão, o reconhecimento recai sobre as antigas capitais de Asuka e Fujiwara, testemunhos do período em que se consolidou o primeiro Estado japonês centralizado, muito antes de Quioto ou Nara assumirem esse papel.
A Mongólia vê reconhecidos os complexos funerários da nobreza Xiongnu, ligados a uma das primeiras grandes confederações nómadas da Ásia Central, cuja influência se estendeu muito para lá das estepes onde estes túmulos foram erguidos. Já na Índia, o antigo sítio budista de Sarnath — o local onde, segundo a tradição, Buda terá feito o seu primeiro sermão após alcançar a iluminação — junta-se finalmente a uma lista que já inclui outros marcos fundamentais do budismo.
O Cazaquistão contribui com as mesquitas rupestres e os lugares sagrados associados de Mangystau, um conjunto de espaços de culto escavados na rocha ao longo de séculos numa região árida do oeste do país, enquanto o Uzbequistão vê reconhecida a arquitetura modernista de Tashkent, um capítulo menos óbvio da história arquitetónica soviética, construído a partir dos anos 1960 e que hoje é revisitado como um raro exemplo de modernidade e tradição centro-asiáticas a coexistirem no mesmo traçado urbano.
Europa soma memória de guerra, mitologia e modernismo
Do lado europeu, a inscrição mais mediática é, sem surpresa, a das praias do Desembarco do Dia D, na Normandia francesa, palco em 1944 de uma das operações militares mais determinantes do século XX e destino que já atraía, muito antes deste reconhecimento, milhões de visitantes todos os anos em peregrinação à história. A França soma ainda uma segunda entrada, com as fortalezas reais dos Capetos no Languedoc, um conjunto de castelos que marca a expansão do poder da coroa francesa para o sul do país na Idade Média.
Na Grécia, é a zona mais ampla do Monte Olimpo que passa a estar protegida — não apenas o pico mais alto do país, símbolo maior da mitologia grega como morada dos deuses, mas todo o maciço envolvente, com o seu valor ecológico e paisagístico reconhecido a par do simbólico. A Finlândia junta-se à lista com as obras de Alvar Aalto, entre as quais se destaca a Igreja das Três Cruzes, um dos exemplos mais citados da capacidade do arquiteto finlandês de conciliar funcionalismo moderno com uma sensibilidade quase espiritual pelos materiais e pela luz.
A Itália vê reconhecido o sistema de teatros de ópera à italiana construídos nos séculos XVIII e XIX no centro do país, uma rede de salas que moldou não só a vida cultural das cidades onde foram erguidas, mas também a própria forma como se pensa a experiência de assistir a um espetáculo. A Polónia soma o centro urbano modernista de Gdynia, cidade portuária projetada quase de raiz no período entre guerras como símbolo de progresso e ambição nacional, e a Dinamarca entra pela porta da paleontologia, com os fósseis de peixes ósseos do Limfjord ocidental, um registo excecional da evolução e da adaptação climática durante o Eocénico inicial.
Médio Oriente e o peso da história religiosa e militar
No Médio Oriente, o Irão vê reconhecido o Castelo de Alamūt e as fortificações que lhe estão associadas, célebre fortaleza montanhosa que serviu de sede à ordem dos Assassinos entre os séculos XI e XIII e que continua a alimentar o imaginário popular em torno da região. O Líbano soma os castelos do Monte Amel, testemunhos de séculos de disputas territoriais entre diferentes poderes regionais, e a Jordânia vê protegida a Reserva Marinha de Aqaba, reconhecimento que une valor ecológico — os recifes de coral do Mar Vermelho junto à cidade — a uma crescente pressão turística e urbana sobre a costa.
O Estado da Palestina vê inscrita Sebastia, cidade com camadas de ocupação que remontam a períodos bíblicos e que atravessou impérios sucessivos, da dominação romana à otomana. Nos Emirados Árabes Unidos, é o Wadi Wurayah que entra para a lista, uma das poucas áreas de água doce permanente na península arábica e refúgio de biodiversidade num contexto regional dominado pela aridez. Já na Tunísia, a aldeia de Sidi Bou Saïd — com as suas casas brancas e azuis suspensas sobre o Mediterrâneo, há muito um dos postais mais reconhecíveis do país — recebe finalmente o estatuto que muitos visitantes já lhe atribuíam informalmente há décadas.
Três países entram pela primeira vez na lista
Talvez o dado mais significativo desta edição não seja nenhum sítio em particular, mas o facto de três países passarem a figurar, pela primeira vez, na Lista do Património Mundial: as Comores, São Tomé e Príncipe e o Sudão do Sul. Nas Comores, o reconhecimento recai sobre as medinas dos antigos sultanatos históricos do arquipélago, núcleos urbanos que preservam séculos de trocas comerciais e culturais entre a costa africana, o mundo árabe e o Oceano Índico.
Em São Tomé e Príncipe, entram para a lista as antigas roças — o sistema de plantações coloniais que estruturou a economia do arquipélago durante séculos, e que hoje é lido também como testemunho de um capítulo mais sombrio: o da migração forçada e do trabalho escravo que sustentou essa economia. É um reconhecimento que, mais do que celebrar arquitetura ou engenharia agrícola, obriga a olhar de frente para a história do colonialismo português no Golfo da Guiné.
Já o Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo, vê protegida a paisagem migratória de Boma-Badingilo, palco de uma das maiores migrações de grandes mamíferos terrestres do planeta — comparável, em escala, à migração anual do Serengeti, ainda que muito menos conhecida do público internacional. A inscrição chega num país marcado por décadas de instabilidade, e representa também uma aposta na proteção ambiental como ferramenta de desenvolvimento a prazo.
O Brasil e China somam também novas entradas
Fora da Europa e da Ásia central, há ainda dois casos que merecem destaque. No Brasil, entram para a lista os teatros históricos da Amazónia, em Manaus e Belém, edifícios que simbolizam a riqueza acumulada durante o ciclo da borracha no final do século XIX, quando estas cidades amazónicas rivalizavam em opulência com capitais europeias — um contraste que hoje, rodeado de floresta, continua a intrigar quem visita a região.
Na China, o reconhecimento vai para os sítios da indústria artesanal de porcelana de Jingdezhen, cidade que durante centenas de anos foi o principal centro de produção de porcelana do país e, por extensão, de uma boa parte do comércio mundial deste material — uma espécie de Vale do Silício da cerâmica antes de o conceito sequer existir.
O que ficou de fora — e o que fica em aberto
Nem todas as candidaturas tiveram o desfecho esperado. A proposta espanhola da Ribeira Sacra, na Galiza, que juntava paisagem vinícola em socalcos, património religioso e um vale escavado pelo rio Sil, não foi rejeitada, mas também não foi aprovada: o comité decidiu adiar a decisão, pedindo melhorias técnicas ao processo de candidatura antes de a reapreciar numa sessão futura. É um desfecho comum neste tipo de processos, que podem arrastar-se por várias edições antes de chegar a bom porto — ou, nalguns casos, nunca lá chegar.
Em paralelo às novas inscrições, o comité voltou também a atualizar a Lista do Património Mundial em Perigo, com seis sítios acrescentados este ano, a maioria ameaçados por conflitos bélicos ou por pressões ambientais diretamente ligadas às alterações climáticas — um lembrete de que a proteção formal atribuída pela UNESCO não é, por si só, garantia de sobrevivência de um lugar, mas sim o ponto de partida para um esforço de conservação que muitas vezes se prolonga durante décadas.
Porque é que esta lista continua a importar
Vale a pena recordar a origem de tudo isto. A Lista do Património Mundial nasceu da Convenção sobre a Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural, assinada em 1972, fruto da fusão de dois movimentos que, até então, seguiam caminhos separados: um dedicado à preservação de monumentos e sítios históricos, outro à proteção da natureza. Mais de cinco décadas depois, essa junção continua a fazer sentido — não é por acaso que, na mesma sessão, o comité protegeu tanto um castelo medieval no Irão como uma reserva de água doce nos Emirados, ou tanto praias de desembarque militar como fósseis de peixes com dezenas de milhões de anos.
Há também um significado mais imediato nestas decisões, que ultrapassa o simples reconhecimento simbólico. A entrada na Lista do Património Mundial costuma vir acompanhada de acesso a fundos internacionais de conservação, de uma maior atenção por parte dos governos nacionais na proteção dos sítios envolvidos e, com frequência, de um aumento real do interesse turístico — algo que tanto pode ser uma bênção como um desafio para comunidades que, até aqui, viviam relativamente afastadas dos grandes fluxos de visitantes. Casos como o das praias da Normandia mostram bem esse duplo efeito: o estatuto de Património Mundial não cria o interesse do zero, mas tende a consolidá-lo e a justificar novos investimentos em interpretação histórica, sinalética e infraestrutura de visita, ao mesmo tempo que levanta questões sobre os limites da capacidade de carga destes locais.
Escolher Busan como palco desta 48ª sessão não foi, de resto, inteiramente acidental. A Coreia do Sul tem investido de forma consistente na sua própria presença na lista da UNESCO — do património histórico de Gyeongju às aldeias tradicionais de Hahoe e Yangdong — e acolher o comité que decide estas inscrições reforça essa aposta em posicionar o país como interlocutor central nas discussões internacionais sobre proteção patrimonial na Ásia. Não deixa de ser simbólico que, numa sessão sediada num país que fez da preservação cultural um instrumento de projeção internacional, tenham sido justamente as vozes de países como as Comores, São Tomé e Príncipe ou o Sudão do Sul — historicamente com pouca ou nenhuma representação nestas listas — a ganhar mais destaque.
Para quem viaja, cada nova inscrição funciona também como um convite indireto — um lembrete de que há lugares que, apesar de menos visitados do que Machu Picchu ou a Grande Muralha, guardam um valor histórico ou natural equivalente. As roças de São Tomé e Príncipe, os teatros de Manaus e Belém, ou as medinas comorianas dificilmente entrarão tão depressa nos roteiros turísticos mais populares, mas é precisamente essa distância em relação ao circuito habitual que, para muitos viajantes, os torna ainda mais interessantes de descobrir.
Cada candidatura, refira-se, tem de cumprir pelo menos um dos dez critérios de seleção definidos pela UNESCO — que vão do valor artístico excecional à representatividade de fenómenos naturais em curso — e percorre um processo longo, que começa com a inclusão numa chamada Lista Indicativa nacional, avança para a preparação e avaliação técnica do processo, e só termina, anos mais tarde, com a votação em sessões como esta de Busan. Para muitos dos países agora estreantes na lista, este momento representa não apenas reconhecimento simbólico, mas também um instrumento prático de proteção e, com sorte, um novo argumento para atrair visitantes interessados em ir além dos destinos mais óbvios.
Resumo dos Novos Locais da Lista
- Teatros da Amazónia — Brasil
- Sítios da indústria artesanal de porcelana de Jingdezhen — China
- Medinas dos sultanatos históricos das Comores — Comores
- Fósseis de peixes ósseos do Limfjord ocidental — Dinamarca
- Obras de Alvar Aalto — Finlândia
- Praias do Desembarco do Dia D, Normandia (1944) — França
- Fortalezas reais dos Capetos no Languedoc — França
- Zona mais ampla do Monte Olimpo — Grécia
- Antigo sítio budista de Sarnath — Índia
- Castelo de Alamūt e fortificações associadas — Irão
- Sistema de teatros de ópera à italiana (séc. XVIII–XIX) — Itália
- Antigas capitais de Asuka e Fujiwara — Japão
- Reserva Marinha de Aqaba — Jordânia
- Mesquitas rupestres e lugares sagrados de Mangystau — Cazaquistão
- Castelos do Monte Amel — Líbano
- Complexos funerários da nobreza Xiongnu — Mongólia
- Centro urbano modernista de Gdynia — Polónia
- Roças de São Tomé e Príncipe — São Tomé e Príncipe
- Paisagem migratória de Boma-Badingilo — Sudão do Sul
- Sebastia — Estado da Palestina
- Wat Phra Mahathat Woramahawihan, Nakhon Si Thammarat — Tailândia
- Aldeia de Sidi Bou Saïd — Tunísia
- Wadi Wurayah — Emirados Árabes Unidos
- Refúgio Nacional de Vida Silvestre de Okefenokee — Estados Unidos
- Arquitetura modernista de Tashkent — Usbequistão
