9 de Janeiro de 2026

A viagem a sério, na estrada, vai recomeçar, depois de uns dias de recarregar baterias passados na calma de Jinja. É tempo de pagar a conta e aceitar a oferta do proprietário do alojamento para arranjar um carro para nos levar ao ponto onde iremos encontrar as carrinhas de transporte para Entebbe.

Entebbe fica no distrito do mesmo nome, na margem norte do Lago Vitória, a pouco mais de trinta quilómetros a sul de Kampala. Para lá chegar era portanto necessário passar ao largo da caótica capital do país, o que foi feito facilmente, sem grand trânsito, e num instante estávamos a chegar.

A cidade foi fundada no final do século XIX pelos britânicos, que a escolheram como sede administrativa do protetorado do Uganda, e manteve o estatuto de capital até 1962, ano da independência, quando esse papel passou para Kampala. Dos seus tempos de capital restam ainda alguns edifícios coloniais, ruas largas e arborizadas e um traçado urbano bem mais ordenado do que o da vizinha, mais caótica e populosa. Mas mesmo assim espanta como no espaço temporal de pouco mais de cem anos a cidade cresceu do zero até ao seu estado actual, agora com uns 100.000 habitantes.

Uma imagem do Jardim Botânico de Entebe
Uma imagem do Jardim Botânico de Entebe

Nos dias de hoje a cidade é sobretudo conhecida por dois motivos: o Aeroporto Internacional de Entebbe, que continua a ser a principal porta de entrada aérea no Uganda e ponto de partida habitual para quem segue depois para os parques nacionais e reservas de gorilas do país, e o Jardim Botânico de Entebbe, criado em 1898 e um dos mais antigos da África Oriental, com mais de quarenta hectares de floresta tropical, plantações e zonas junto ao lago. A cidade tem ainda ligação a um episódio histórico bem conhecido fora do continente: foi aqui que aconteceu, em 1976, a operação israelita de resgate de reféns de um voo sequestrado, que ficou conhecida internacionalmente como a Operação Entebbe.

Quanto ao Jardim Botânico, teríamos oportunidade de o ver bastantes vezes pois o nosso alojamento ficava literalmente ao lado do portão de entrada no parque.

A entrada de nossa casa de Entebbe
A entrada de nossa casa de Entebbe

Portanto, chegámos sem problemas a Entebbe. Um Uber para o centro comercial próximo do alojamento, a melhor referência que tínhamos para o encontrar. E num repente estávamos em casa. É uma residência estranha. Como se fosse uma casa abastada, aquela imagem que se tem da África Britânica, com um relvado em redor, só que neste caso a habitação parecia em renovação permanente, vazia, uma amálgama de móveis sem sentido e um proprietário amigável, que tinha estado emigrado na Europa e com as suas poupanças meteu-se neste projecto.

A localização era óptima. Como disse, a uns 60 metros do portão de entrada do Jardim Botânico, um par de centenas de metros de um centro comercial moderno onde nos poderíamos abastecer de tudo. E para deslocações haveria sempre o Uber. Bem, na realidade só lá passámos uma noite. O suficiente para ver o que queria e o que havia.

Duas embarcações turísticas para passeios no Lago Vitória
Duas embarcações turísticas para passeios no Lago Vitória

 

Depis de descansar um pouco saímos para o Jardim Botânico. Entrada pagas, fiquei espantado com uma fila de carros que se formava junto ao portão. Então… um Jardim Botânico onde as viaturas entram? Na realidade não é um Jardim Botânico no sentido mais comum. É um parque popular, onde as pessoas se reúnem para eventos, reuniões familiares, festas de casamento e coisas assim. Felizmente escolhem o mesmo local para o fazerem, num espaço amplo perto da água.

Falámos um pouco com um par de jovens claramente alcoolizados, mas educados e simpáticos, que nos explicaram o que acabei de escrever. E descemos um pouco mais para ver o que ali se passava. De facto era uma festa pegada. Grupos enormes de pessoas, com mesas postas ao ar livre, música, jogos, carros a chegar e a sair. Uma alegria para os olhos.

O lago mesmo ali ao lado, com as suas modorrentas águas acastanhadas, duas embarcações turísticas para passeios aquáticos. E contudo, mesmo ao lado, a tranquilidade imperava. O resto do parque é sossegado, dificilmente se vêem outras pessoas e os sons festivos depressa se extinguem para dar lugar ao cantar da passarada e ao rumor das ramas das árvores a abanar com a aragem que vem do lago.

Aviões de combate na Aero Beach.
Aviões de combate na Aero Beach.

Terminada a visita, o passo seguinte seria o Aero Park. Pelo que tinha visto era uma espécie de parque com aviões abandonados junto a uma praia. Mas depressa viria a descobrir que era muito mais do que isso. De novo um Uber – desta vez algo demorado – levou-nos até lá.

Então, a Aero Beach fica junto a Airport Road, no antigo terreno do velho aeroporto de Entebbe, mesmo em frente ao aeroporto atual. O que torna o local invulgar é a coleção de aeronaves abandonadas espalhadas pela areia junto ao Lago Vitória: o exemplar mais imponente é um Boeing 707 que voou décadas para a British Airtours antes de ser vendido, em 1981, à companhia local Coastal Airways — nunca chegou a operar sob essa bandeira e ficou ali estacionado desde então. Ao lado repousa um Caravelle, da Sud Aviation, e um pequeno grupo de aviões de combate de fabrico soviético, incluindo um MiG-17 e um MiG-21.

Há quem associe o local ao histórico resgate israelita de reféns em 1976, a chamada Operação Entebbe, e o próprio proprietário do espaço promove essa ligação — mas trata-se mais de uma narrativa comercial do que de um facto documentado, já que os aviões expostos não correspondem aos aparelhos envolvidos no episódio. Mais plausível é a explicação simples: tratando-se do antigo terreno aeroportuário, é natural que aeronaves fora de serviço tenham ficado ali esquecidas, até alguém decidir transformar os destroços em atração.

Já agora, tenho que falar nessa operação militar, para quem não conhece, até porque um dos filmes baseados nesses eventos me marcou enquanto criança: A 27 de Junho de 1976, um Airbus A300 da Air France, que ligava Telavive a Paris com escala em Atenas, foi desviado pouco depois da descolagem por dois membros da Frente Popular de Libertação da Palestina e dois militantes alemães das Células Revolucionárias. O avião reabasteceu na Líbia e seguiu depois para o Aeroporto Internacional de Entebbe, no Uganda, então governado pelo ditador Idi Amin, que recebeu os sequestradores com simpatia evidente e deixou reforços armados juntarem-se a eles no terminal antigo do aeroporto. Nos dias seguintes, foram libertados a maioria dos reféns não judeus, ficando cativos cerca de cem passageiros e a tripulação francesa, que se recusou abandonar o avião. Os captores exigiam a libertação de dezenas de prisioneiros palestinianos e de outros presos políticos, sob ameaça de começarem a executar reféns.

Na noite de 3 para 4 de Julho, Israel respondeu com a Operação Entebbe, planeada em segredo e com apenas dias de preparação. Um comando das forças especiais israelitas percorreu mais de quatro mil quilómetros a bordo de aviões Hercules, aterrou sem autorização em Entebbe e assaltou o terminal onde os reféns estavam detidos. Em poucos minutos abateu os sequestradores e vários soldados ugandeses, resgatando quase todos os reféns; três morreram durante o assalto e uma quarta, hospitalizada em Kampala, foi assassinada dias depois por ordem do regime de Amin. Do lado israelita, a única baixa foi o comandante da operação, Yonatan Netanyahu, irmão mais velho do futuro primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Voltando ao dia em que visitei, a Aero Beach foi uma agradável surpresa. É um popular espaço de lazer e a população local acorre em grande número. Há barraquinhas a vender todo o tipo de bebida e comida e também produtos diversos, como brinquedos, chapéus, material de praia.

Existe um restaurante com uma certa dimensão e bares dispersos pelo espaço. No meio de tanta festa os aviões tornaram-se secundários! A praia tem enorme sucesso. Está cheia de pessoas que se banham, brincam, correm, nadam. Foi uma experiência óptima, um dos pontos altos da viagem, daqueles que ficam na memória quando tudo o resto se esvai.

E na realidade, para Entebbe estava feito. Dali regressámos ao centro comercial junto a casa onde comemos uma magnífica refeição indiana por um preço muito simpático. Que barrigada!

O resto do dia passou-se em casa, onde ainda houve oportunidade de avistar a macacada que por vezes passa pelo jardim da propriedade. O dia seguinte seria de trânsito, em direcção à próxima fronteira, a do Rwanda, onde chegaríamos dois dias mais tarde.

 

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