14 de Janeiro de 2026

Huye, antes chamada de Butare, é uma pequena cidade no sul do Rwanda. Criada durante o período belga, nos anos 20 do século passado, é considerada a capital intelectual e cultural do Rwanda. O seu primeiro nome foi Astrida, em homenagem à rainha Astrid da Bélgica. Depois da independência, em 1962, passou a chamar-se Butare. Logo no ano seguinte, em 1963, ganhou enorme importância com a criação da National University of Rwanda, ainda hoje a principal universidade do país.

E seria aqui que iríamos passar as próximas duas noites. A Kigali regressaríamos após este pequeno percurso pelo país, mas naquela manhã, deixando algumas coisas à guarda do gerente do restaurante, saímos relativamente cedo, de Uber, para a principal estação de autocarros da capital, próximo do ponto onde tínhamos chegado na véspera.

No meio da confusão imensa, entre autocarros que chegam, partem e manobram e o mar de gente que nos envolve, caminhando com passo certo em direcções por nós desconhecidas, logo aparece alguém que nos indica a viatura certa. A constante do caos, por vezes com o ganho de uma comissão em vista, noutras ocasiões simplesmente pelo instinto de ajudar.

Pela segunda vez em menos de 24 horas estamos nas estradas do Rwanda, fora da grande cidade. E confirmo a impressão inicial, de um país muito bonito, oferecendo ao viajante um desfilar de vistas que nunca são monótonas. O verde domina, cortado por aldeias feitas de casas que sobem pelas colinas, mantidas com um visual agradável, pelo menos vistas assim, à distância.

Vemos mercados de beira de estrada, onde abundam bens agrícolas. Por vezes são especializados. Vejo um mar de bananas passar-me diante dos olhos, noutro lugar o amarelo mantém-se mas a fruta é outra, o ananás. A cada paragem há sempre alguém a vender algo, de forma menos ansiosa do que noutras paragens, com mãos que se estendem do interior da autocarro para recolher as mercadorias adquiridas.

É verdade que estamos no Rwanda, aquele país africano onde sacos de plástico são proibidos, mas a limpeza e ordem das coisas não deixa de impressionar. A condução atinada que se observa nas estradas é outra manifestação de uma mentalidade diferente, de outra forma de estar na vida desta gente surpreendente.

Chegamos tranquiliamente a Huye. A pequena caminhada até ao alojamento marcado funciona como uma massagem de relaxamento depois do tempo na estrada. As sombras das árvores frondosas refrescam-nos, o piso é de uma pedra de calçada grande, como se via em Lisboa na minha infância, com passeios bem assentes em ambos os lados. Escolhi bem onde ficar, é uma rua tranquila que promete silêncio total durante a noite.

Depois de um momento de repouso no quarto, saímos para visitar o Museu Nacional de Etnografia, que fica na estrada para Kigali, não muito longe da estação de autocarros onde tínhamos chegado.

Trata-se de um dos principais espaços do país dedicados à preservação e interpretação da cultura tradicional ruandesa. Apresenta uma  coleção de objetos relacionados com a vida quotidiana, agricultura, caça, artesanato, religião e organização social, incluindo cerâmica, cestaria, instrumentos musicais, armas e utensílios tradicionais. A exposição ajuda a compreender como viviam as comunidades ruandesas antes das profundas transformações sociais e políticas do século XX.  Contudo, se as instalações são imponentes a exposição não corresponde. Falta-lhe sumo, a colecção é pequena para um espaço tão grande.

 

Seguiu-se um passeio a pé pelo centro da cidade. Como ainda era um pouco distante recorremos ao serviço de moto-táxis, que nos deixaram à porta de um supermercado conforme tínhamos pedido. Como noutras pequenas cidades africanas o coração da localidade é a via central, onde o comércio se concentra e as pessoas acorrem.

Sequiosos de explorar o centro da cidade andámos por ali, vendo lojas, observando os locais nas suas andanças e descobrindo alguns edíficios antigos. Num, deixando ao abandono, vê-se um nome português, certamente um estabelecimento comercial de outros tempos. Já na fase final da avenida encontro algo que procurava: o Hotel Faucon. Adoro hóteis antigos, com muita história, e este é um deles. O primeiro em Huye e um dos primeiros no Rwanda enquanto colónia belga.

Foi construído em 1943 por um belga apelidado Faucon, no local onde antes ficava uma casa usada pelo casal real belga durante a época colonial, destruída num incêndio. Nos seus primeiros anos, era um estabelecimento exclusivamente para brancos, frequentado pelos administradores coloniais do então Ruanda-Urundi, com uma placa à entrada que proibia a entrada a “pretos e cães”.

Há um episódio célebre associado ao hotel: por volta de 1955, o rei Rudahigwa do Ruanda, ao regressar de uma visita ao Burundi, quis parar para descansar no hotel e deparou-se com essa placa discriminatória — o que o deixou furioso. Por causa desse incidente, o hotel acabou por ganhar uma ala/cottage reservada ao rei, com duas suítes de design antigo que foram preservadas na sua forma original.

Actualmente parece já nada ter das funções originais. No piso térreo da fachada principal encontro uma loja de chineses e, mesmo a calhar, uma padaria, onde compramos bolos para o serão.

Estamos cansados de um dia já longo e como todos, quente. É hora de voltar a encontrar dois moto-táxis que nos levam de volta ao alojamento para uma noite descansada e, tal como previsto, silenciosa.

 

 

 

 

 

 

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