27 de Novembro de 2025

Pela manhã o Siri estava no hall do do hotel pronto para começar o trabalho. Tinha ficado um pouco apreensivo com o guia na véspera. Simplesmente fiquei com a impressão que lhe faltava vocação e experiência. Introvertido, tenso, sem uma ideia muito clara do que é esperado um guia fazer. E no seu segundo ou terceiro trabalho faltava-lhe o calo que esperaria de alguém que deveria estar a altura de resolver qualquer problema. Tudo isto não me deixou muito tranquilo.

E ao segundo dia o desconforto continuou a crescer. Tinha pedido uma série de coisas, pequenas coisas, e revelou-se uma desconcertante tendência para o esquecimento. O silêncio continuado enervava-me e para piorar o condutor era ainda mais calado. Não, isto não estava a correr bem, e certamente não estava a corresponder às expectativas que tinha criado. Por mais que repetisse para mim próprio que logo se veria e que estava na hora de usfruir o que pudesse comecei a ferver por dentro.

Logo para começar, a tarefa simples de obter moeda local para os clientes foi embrulhada pelo Siri, que não verificou a taxa de câmbio do tipo a que me mandou fazer a troca. Isto seria da sua competência, não da minha!

Bem, mas estava a começar a verdadeira viagem e seria nisto que me deveria concentrar. E a primeira actividade era a visita ao mercado de camelos de Beila, que ocorre diariamente nos arredores de Nouakchott. Uma breve viagem de cerca de 15 km para leste e chegamos.

Uma experiência muito interessante, uma boa forma de abrir o livro. Apenas por uma vez tinha estado num local com algumas semelhanças, no sul da Arábia Saudita. Mas aqui o ambiente era mais rude. Homens com as vestes tradicionais faziam negócio, dinheiro mudava de mãos, clientes pediam demonstrações de animais que os interessavam, camiões descarregavam ainda mais camelos.

Um imenso manancial de fotografia, num país onde câmaras fotográficas não causam grande desconforto às pessoas. Excelente. Mas infelizmente a minha gente saciou-se rapidamente do mercado e senti a dinâmica da partida. Poderia ter ficado ali muito mais tempo mas não foi assim que aconteceu.

De regresso ao carro e de novo a rolar, agora em direcção ao chamado “mercado do peixe”, que na realidade não é um mercado, mas sim uma praia onde num corropio embarcações de pesca chegam, descarregam e partem. Na areia faz-se o negócio. Mulheres comprar menores quantidades de peixe, que levam à cabeça enquanto se afastam, já prontas para o passo seguinte, a venda ao cliente final.

Mas o dinheiro chorudo vem das sacas cheias de pescado que são levadas por carregadores para serem acomodadas em veículos que depois distribuirão o produto por restaurantes e outros compradores de quantidade.

Se o mercado de camelos já me tinha entusiasmado, aqui ainda é melhor. Na realidade é muito idêntico ao que encontrei em Saint Louis, no Senegal. E o Siri diz-me que uma boa parte daqueles pescadores vem do Senegal.

Tiro fotografias a bom ritmo. É fácil passar despercebido no meio daquele caos. A toda a hora chegam à praia novas embarcações e a rotina repete-se, com os carregadores a aproximarem-se para aliviarem o barco da sua carga de pescado. Uns afastam-se de novo para o mar, talvez para tentarem a sorte uma vez mais, enquanto outros encalham a embarcação e dão sinais de se ficarem por ali.

Observei os barcos colocados a seco, bem acima na praia. As pinturas decorativas, coloridas, e os nomes criativos. Em alguns os homens descansavam da faina. Mulheres de roupas de cor garrida abrigavam-se na sombra que os cascos proporcionavam.

Caminho pela areia, com cuidado para não pisar o muito lixo orgânico que se movimenta, ao sabor das ondas, espalhando-se restos de peixe pela praia. Mais tarde as aves marinhas terão o seu quinhão mas para já concentro-me em evitar que os meus pés descalços tenham encontros desagradáveis.

Aqui, no mercado de peixe, afastei-me do meu pequeno grupo. Precisava de espaço para mim, para absorver todo o cenário com plena concentração sensorial. E também de me fundir no cen, para fotografar sem perturbações. Um só estrangeiro consegue passar mais despercebido e devo dizer que correu bastante bem.

Um pouco acima da praia, onde o solo é mais sólido. Os carros aguardam a carga. Alguns são mais ou menos normais. Mas outros parecem saídos de um outro mundo. Há viaturas sem faróis e cobertas de ferrugem que sairão dali carregadas de sacas de peixe, uma visão surreal.

E pronto, os dois principais pontos de interesse da capital mauritana estão vistos. Há agora uma série de tarefas prácticas a cumprir antes de sair para a estrada. A mais importante será a obtenção de cartões de dados para os nossos telemóveis. Demorado, mas sem problemas.

Depois, uma visita ao mercado. Pessoalmente quero comprar um dos longos lenços azuis com que os homens aqui cobrem a cabeça, envolvendo-se completamente, protegendo-se contra o sol escaldante, o vento e a areia. Preciso também de uma pequena mochila, pois na Toyota Hilux não há espaço para a nossa bagagem no habitáculo.

No meio destas andanças, vejo uma camisola do Sporting, exposta para venda, ali mesmo, na rua. Os vendedores entusiasmados precipitam-se para mim antevendo já o negócio. Explico-lhes que é de uma equipa da minha terra.

Mochila comprada, lenço comprado. De volta para o carro. E é ali que o Siri nos apresenta um problema: o dia seguinte será importante na Mauritânia, é a comemoração do aniversário da independência, com muitas actividades previstas. Ora é de esperar que as autoridades encerrem a cidade durante os dois dias que se seguem. E portanto, temos duas opções: ou saímos hoje ou perdemos um dia do plano e saímos depois das coisas acalmarem. Decidimos partir a meio da tarde.

E foi assim que de um momento para o outro me vi privado de uma segunda noite no belo hotel de Nouakchott. E o que nos aguardava seria tudo menos conforto.

O Siri e o Havel (soa como o nome do antigo presidente da República Checa, mas escreve-se bem diferente) vão à sede da empresa preparar a carrinha para a longa viagem e carregar toda a carga necessária. Quanto a nós temos algum tempo para relaxar antes de fazer o checkout e nos encontrarmos no hotel para partirmos para sul.

E lá fomos, saindo da cidade, por uma boa estrada de asfalto, conquistando tempo que nos daria conforto para o perder mais tarde, onde achássemos necessário. Seria uma tarde sem grande história. O alojamento era em Tigent, uma desolada povoação de beira de estrada, onde o Siri desencantou um alojamento. A minha condição para aceitar a partida abrupta era ter um sítio para ver o futebol da Quarta-feira europeia, mas até isso me foi negado. Cafés com TV a dar a bola, nem vê-los, e no hotel tinham-se esquecido de pagar a conta da internet e por isso também não dava para ver em streaming.

Jantámos num restaurante local, instalados no chão e comendo com as mãos, como aqui é costume. Uma refeição agradável e uma noite sem história.

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