28 de Novembro de 2025
Este foi o dia em que depois de uma insatisfação crescente com a organização e com o guia, explodi, escrevi um longo e-mail à Chinguitours reclamando do curso da expedição e, afinal, quem diria, foi também o dia em que tudo começou a melhorar, num crescendo que tornou esta viagem na melhor de sempre.
Depois da noite passada naquele sítio chungoso de borda de estrada voltamos ao caminho. De Tiguend até Podor, 210 km. Podor?! Mas isso é no Senegal! Pois é, tinha sido uma fantasia, queria revisitar esta aldeia que me encantou na minha viagem da Guiné até ao Senegal, e arranjei forma de incluir este capricho no plano de viagem.
Seria um dia excepcional, no qual as despesas não estavam incluídas, foi um arranjo especial e neste caso pagaríamos a estadia do nosso bolso. Mas não foi preciso. Depois de uma cansativa viagem que durou toda a manhã, chegámos finalmente à pequena aldeia mauritana que se encontra frente a Podor, com o rio Senegal.
Direitos ao posto de fronteira para carimbar a nossa saída do país. Vinha o senhor guarda a sair, ia tratar da sua vida algures e logo nos disse que não seria possível. Desde há algum tempo a fronteira está fechada aos estrangeiros. Apenas cidadãos de um dos dois países estão autorizados a passar o rio. E pronto.
Tinha pedido expressamente que esta situação fosse verificada e tinha recebido luz verde, construindo o plano em torno desta premissa. Tirámos vistos multi-entrada, a custar o dobro, assumindo esta mudança de país. Tínhamos reservado estadia em Podor para esta noite. E tudo isso foi perdido. Ficou uma grande frustração que se misturava com a irritação causada pela incompetência da empresa.
Mas como se costuma dizer, não vale a pena chorar sobre leite derramado. Estávamos na hora de almoço, nada de comida nem de restaurantes à vista. Ainda demos uma vista de olhos a uma casa onde nos disseram que serviam comida, mas aquilo tinha um ar tão deprimente que o Sidi nem nos disse nada, simplesmente seguimos viagem.
Mais à frente parámos junto à estrada para uma miserável refeição, teoricamente almoço, feita por uns enlatados. Tão cedo não chegaríamos a lado algum com comida publicamente disponível. Esse local seria Kaédi, onde também pernoitaríamos, mas ainda estávamos relativamente longe e além disso havia algo para fazer pelo meio.
O chamado complexo abandonado de Kaédi é uma antiga estância turística, hoje completamente abandonada, situada nos arredores da cidade de Kaédi. Trata-se de um lugar inesperado pela arquitetura pouco comum. Os edifícios são construídos em tijolo vermelho e organizam-se em pequenas unidades cobertas por cúpulas arredondadas, ligadas entre si por corredores abobadados.
As janelas são pequenas e discretas nas paredes laterais, enquanto no topo das cúpulas existem blocos de vidro que deixam entrar luz natural de forma difusa, criando interiores surpreendentemente frescos apesar do calor intenso da região. Este tipo de solução arquitetónica parece ter sido pensada para responder ao clima do Sahel, reduzindo a exposição direta ao sol e melhorando a ventilação natural.
Embora não existam muitos registos oficiais sobre a origem do projeto, o estilo lembra fortemente o do Hospital Regional de Kaédi, projetado no final dos anos 1980 pelo arquiteto italiano Fabrizio Carola, conhecido por reinterpretar técnicas e formas tradicionais africanas — como as cúpulas de adobe — numa linguagem arquitetónica contemporânea.
É geralmente aceite que esse hospital terá servido de inspiração para o resort, embora não haja confirmação formal de quem o desenhou ou financiou. O complexo terá funcionado como unidade turística até cerca de 2017, mas acabou por encerrar sem razão aparente. Desde então, permanece abandonado, com quartos vazios, corredores silenciosos e sinais evidentes de degradação progressiva.
Atualmente o espaço encontra-se acessível de forma informal. Uma família que vive na ruina costuma indicar como entrar e é esperada uma gratificação. e apesar de não existir um bilhete oficial, é comum deixar uma pequena gorjeta. O local atrai sobretudo viajantes curiosos, fotógrafos e pessoas interessadas em arquitetura ou lugares abandonados, já que combina uma estética muito particular com uma atmosfera quase fantasmagórica. A proximidade do rio Senegal reforça ainda mais o contraste entre a paisagem fértil das margens fluviais e o abandono silencioso do complexo, num território que marca a transição entre o deserto e as zonas agrícolas do sul da Mauritânia.
Esta paragem agradável levantou-nos a moral. A visita interessante e uma serenidade natural que emanava neste fim de dia melhorou a azia que se vinha a sentir desde Podor. Explorei o local de forma detalhada. Numa das salas, um escorpião morto relembrava-me dos cuidados a ter nestas terras.
A luz que entrava por orifícios nos tectos das abóbadas criava um efeito mágico, salientando as partículas de poeira que pairavam no ar. Não se ouvia nada para além do muito ocasional carro que passava na estrada.
Terminada a visita prosseguimos para Kaédi, já bem próximo. Era preciso encontrar alojamento, pois nada estava marcado. Isto foi algo que me deixou mal impressionado com a organização. Uma coisa é viajar à aventura e estar aberto a qualquer curva do destino. Outra coisa é ser-se responsável por clientes que pagaram para ter um plano fiável que funcione, e andar por aí a bater às portas em busca de um local para pernoitar não deixa nada boa impressão.
Mas a coisa resolveu-se sem grandes problemas. Já instalados voltámos a saltar para o carro para um jantar antecipado, ainda com a luz do dia a brilhar. E o restaurante escolhido foi uma tasca local, onde se comia no chão, entre visitas de cabras que procuravam os restos deixados pelos humanos.








