29 de Novembro de 2025

De manhã a insatisfação com o trabalho do guia mantinha-se. Estavamos prontos a sair para a estrada sem qualquer informação ou experiência na cidade de Kaédi, onde tínhamos passado a noite. Dei um passo à frente e disse que tínhamos que ver a mesquita. Pelo menos isso. Não sabia no que me estava a meter mas pelo menos online via-se ali uma mesquita e queria ver.

Foi talvez intuitivo. Porque passámos ali um belo bocado. Com o carro parado discretamente ao fundo da pequena praça de fronte da mesquita fomos observando as gentes. E podia ter ficado ali a manhã toda, assistindo ao desfile.

Um rapaz atestava bidões de água alinhados na pequena caixa da carroça puxada por um burrico. Um após outro, com grande paciência, a mangueira verde mudando de gargalos. Uma jovem mulher vestida com os coloridos panos africanos passava com um peixe que não cabia no alguidar que trazia sobre a cabeça.

O Havel tratava da sua higiene pessoal com a água que jorrava de uma torneira do chafariz. Um homem passa na sua motorizada. A avó atravessa o terreiro de mão dada com as duas netas e senta-se ao meu lado.

Mais moças levando consigo um mar de côr. O Havel agora passeia-se pela praça, abrindo os braços e levantando assim o esplendor da sua veste azul clara, como um esquilo-voador sem voar. E eu a pensar o que teríamos perdido se não fosse a insistência. Sem saber, seria aquele o último momento de descontamento azedo com a nossa tripulação. O ambiente só iria melhorar até chegar à catártese final. A partir daí seríamos um grupo de amigos viajando juntos, em grande harmonia, com a boa disposição colectiva a imperar.

E entretanto a parada prossegue. Passa agora um outro carro de burro, este carregado com algumas sacas de cimento. Um miúdo muito escuro vestido de preto, dando a impressão visual de estar nu, fica parado a observar-nos, seres estranhos no quotidiano de Kaédi. Segue-se um homem que carrega à cabeça uma trouxa que deve ter o dobro da sua massa corporal, e que ainda arranja habilidade para levar um balde pendurado no pulso.

Saímos para a estrada, a viagem até M’Bout é de pouco mais de 100 km, o piso é bom e o trânsito escasso. Prosseguimos a bom ritmo, apenas abrandado para passar pelos rebanhos que atravessam a estrada.

A paisagem lá fora continua a desfilar como se de um filme se tratasse. As pequenas mesquitas locais nunca desiludem. Algumas pintadas recentemente, outras de cor mais desbotada, mas todas interessantes. Passamos por aldeias rodeadas dos campos dourados de erva amarela, seca do sol.

Se esquecer a edificação local, dominada pela cubata africana, a paisagem transporta-me para o Alentejo dos grandes calores de Agosto, onde as árvores de folha perene são como nódoas de verde num mar de deserto dominado pelos tons de amarelo e castanho.

O gado é omnipresente. Caprino ou bovino. Há animais em rebanho, devidamente pastoreados, mas também em currais junto às habitações ou apenas vagueando em semi-liberdade, por detrás de vedações.

O almoço foi uma “bucha” comida à sombra de uma árvore raquítica, o melhor que se conseguiu encontrar naquela área. Por esta altura o asfalto tinha sido deixado para trás, substituído por muito rústico estradão de terra batida.

Parámos brevemente numa povoação chamada Bouanze. Dali até ao destino deste dia fizeram-se paragens para apreciar momentos avulsos. Como aquela enorme árvore baobao. Um cortejo de três burros montados por mulheres, uma delas levando consigo uma criança. Um toque pitoresco vindo do nada. Mais um.

Chegamos a M’Bout. Tínhamos esperança de encontrar aqui alguma tasca para comer algo decente, mas nada. Temos que voltar à estrada. A tarde avança, a luz muda, torna-se dourada. O dia está a chegar ao fim. Acabamos por atingir Kiffa. Foi uma jornada de trânsito, mas bem aproveitada.

Na chegada, mais uma corrida na procura de um cantinho onde cair para dormir. Arranjou-se algo na linha de qualidade que haveria de dominar toda a viagem. É o que se vê na imagem que se segue.

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