Jardim Qianlong: Um Tesouro Imperial Reaberto 

O Jardim Qianlong, localizado no canto nordeste da Cidade Proibida em Pequim, reabriu ao público em 30 de setembro de 2025 após séculos de encerramento total. Trata-se de um momento histórico, já que muitos dos seus pavilhões sofisticados e interiores ornamentados nunca antes haviam sido acessíveis para visitantes comuns. A reabertura coincide com a celebração do centenário do Museu do Palácio, e representa não apenas uma vitória da preservação cultural, mas também um símbolo do compromisso contemporâneo da China com a memória histórica.

História do Jardim Qianlong

A construção do jardim ocorreu entre 1771 e 1776, durante o reinado do imperador Qianlong, na dinastia Qing. Ele concebeu esse espaço como o seu retiro pessoal para o ocaso da vida, dentro do complexo maior do Palácio Imperial.

Diferente das amplas praças grandiosas da Cidade Proibida, o Jardim Qianlong tinha uma escala mais íntima e contemplativa: quatro pátios interligados, com rochas ornamentadas, colinas artificiais e 27 edifícios distribuídos entre eles.

O estilo arquitetónico reflete os gostos refinados de Qianlong, combinando elementos tradicionais chineses com influências ocidentais, especialmente visíveis nos frescos em trompe-l’œil criados por artistas como Giuseppe Castiglione, um missionário jesuíta e dotado artista milanês.

Após a abdicação de Qianlong, o lugar permaneceu praticamente fechado ao uso público e acabou por se deteriorar com o tempo.

O processo de restauração

A reabertura do jardim é fruto de um meticuloso projeto de restauração que durou 25 anos, em parceria entre o Museu do Palácio e o World Monuments Fund (WMF). Esse esforço envolveu não apenas a reconstrução física, mas também a recuperação das técnicas tradicionais de artesanato imperial, muitas das quais estavam em risco de se perder.

Os trabalhos de restauro iniciaram-se em 2002, no Juanqinzhai, também conhecido como “Estúdio do Esgotamento pelo Serviço Diligente“, um dos pavilhões mais emblemáticos. Ali, os técnicos recuperaram frescos pintados em seda com trompe-l’œil, marchetaria em bambu, incrustações de jade e entalhes intrincados feitos com casca interior de bambu.

Esse pavilhão serviu como modelo para o restante do complexo, mostrando como tradição e ciência moderna podiam andar juntas.

Após concluir Juanqinzhai em 2008, o trabalho avançou para outras estruturas importantes como o Fuwangge (Belvedere da Conquista), o Zhuxiangguan (Refúgio do Bálsamo de Bambu) e o Yucuixuan (Jardim da Jade mais Pura).

Cada edifício exigiu uma abordagem ad hoc: pigmentos raros foram identificados, técnicas antigas resgatadas, móveis recriados, e cada componente estrutural foi documentado, desmontado e remontado com precisão arqueológica.

A restauração, segundo o WMF, exigiu restauradores treinados nos métodos mais tradicionais da época Qing, garantindo a autenticidade histórica ao mesmo tempo que integrava práticas de conservação modernas.

Decisão política de abrir ao público

A reabertura do Jardim Qianlong foi oficialmente anunciada como parte das comemorações dos 100 anos do Museu do Palácio.

A colaboração entre o WMF e o Museu representa uma ponte entre cultura global e património chinês. A fundação internacional trouxe não apenas financiamento, mas também competência técnica, enquanto o museu local ofereceu conhecimento profundo sobre o contexto histórico e artesanal.

Esse esforço ocorre num momento simbólico: o presidente chinês Xi Jinping esteve presente em uma das cerimónias, afirmando que o património cultural é “um símbolo importante da civilização chinesa” e que é necessário “proteger, restaurar e fazer bom uso dessas relíquias”.

Para as autoridades, a abertura do jardim serve a múltiplos propósitos — promover o turismo cultural, reforçar a identidade nacional, e demonstrar compromisso com a conservação do património.

Ao torná-lo acessível, o governo também sinaliza uma nova fase em que os visitantes podem experimentar mais intimamente a vida palaciana imperial, não apenas em grandes salões, mas nos recantos privados onde o imperador buscava refúgio.

O jardim e o seu significado

Com cerca de 1,6 hectares, o Jardim Qianlong é relativamente compacto para um recinto imperial, mas sua complexidade impressiona. Dois dos quatro pátios estão agora abertos à visitação, cada um com a sua própria atmosfera: alguns são densamente por pavilhões ricamente decorados, enquanto outros se abrem em pequenas colinas artificiais ou jardins rochosos, oferecendo uma sensação de harmonia entre arquitetura e natureza.

A topografia foi cuidadosamente pensada para permitir vários enquadramentos: ao caminhar por baixo dos pavilhões ou subir nas montanhas rochosas, os visitantes passam por diferentes pontos de vista que mudam conforme se movem, recriando a sensação de múltiplas paisagens dentro de um espaço limitado.

O pavilhão Juanqinzhai, no centro do jardim, é particularmente impressionante. As suas paredes e teto exibem murais de seda pintados com trompe-l’œil, simulando janelas, cortinas e estruturas arquitetónicas inexistentes — uma ilusão visual que combina o engenho ocidental com a estética chinesa. Dentro, há mobília de bambu, incrustações de jade e entalhes delicados, todos restaurados. Outros pavilhões oferecem ambientes mais tranquilos: o Fuwangge proporciona vistas elevadas, o Zhuxiangguan exala fragrância de bambu, e o Yucuixuan simboliza pureza pelo uso de jade no acabamento.

Além disso, foi inaugurada uma exposição permanente no segundo pátio, dedicada à história do jardim, sua arquitetura, o processo de restauração e as técnicas artesanais empregadas. No portão principal do complexo há uma galeria no alto, a Meridian Gate Gallery, que abriga parte da mostra “Um Século de Gestão: da Cidade Proibida ao Museu do Palácio”, com quase 200 artefactos retirados do vasto acervo do museu, oferecendo uma visão panorâmica da longa história do lugar.

Cinco Pátios Distintos no Jardim de Qianlong

Primeiro Pátio: Área de Lazer e Receção

O primeiro pátio era o local onde o imperador Qianlong relaxava com uma chávena de chá, dava passeios tranquilos ou recebia amigos após abdicar do trono. Ao aproximar-te, um conjunto de rochedos ornamentais em pedra deixa apenas vislumbres do que se encontra além, criando um toque de mistério. No interior, há balaustradas de mármore branco-jade decoradas com motivos de bambu e entalhes em madeira, além de telhados amarelos e azulejos vidrados seguindo as especificações reais.

Edifícios em Destaque:

Pavilhão da Recompensa e Refresco (Xishangting), Este pavilhão apresenta um curso de água esculpido na pedra com 27 metros (cerca de 90 pés) de comprimento e nove curvas. Aqui, o imperador Qianlong e os seus amigos praticavam a antiga brincadeira de “copos flutuantes no riacho sinuoso”, em que taças de vinho eram colocadas a flutuar e paravam diante dos convidados, que então compunham um poema e bebiam um gole — uma forma criativa e divertida de animar os encontros.

Pérgula do Velho Catalpa (Guhuaxuan, um edifício com destaques arquitetónicos únicos e várias lendas associadas. Clica para saber mais.)

Segundo Pátio: Área Residencial

Ao entrar no segundo pátio, encontras um espaço amplo e tranquilo, bastante diferente da diversidade do primeiro. Esta área, marcada pela simplicidade, foi concebida para o descanso e tem como centro o Salão da Realização dos Desejos (Suichutang).

Edifício em Destaque: Salão da Realização dos Desejos. O Salão da Realização dos Desejos possui um telhado de azulejos vidrados verdes com remates amarelos, acompanhado de cinco salas auxiliares em ambos os lados, ligadas harmoniosamente à estrutura principal por corredores cobertos. O nome “Suichu” significa “regressar às aspirações originais”, refletindo o desejo de Qianlong por uma felicidade simples durante a reforma.

Terceiro Pátio: Área das Rochosidades

Rochosidades no Jardim de Qianlong

No coração do Jardim de Qianlong, o terceiro pátio funciona como uma espécie de “zona de aventura”. Aqui há um labirinto de rochedos cinzentos, com escadas ocultas e túneis que convidam à exploração.

Edifícios em Destaque:

Pavilhão do Interesse Prolongado (Yanqulou). Este pavilhão de dois andares oferece uma experiência singular. O piso inferior está habilmente escondido atrás das rochosidades, enquanto o piso superior tem uma galeria que permite admirar os rochedos a partir de vários ângulos.

Pavilhão dos Três Amigos (Sanyouxuan). Trata-se de uma cabana assimétrica rara na Cidade Proibida, com o telhado apoiado de um lado e inclinado do outro. No interior, encontram-se motivos de pinheiro, ameixoeira em flor e bambu — símbolos chineses de integridade, confiança e sabedoria, as três virtudes que um bom amigo deve possuir.

Pavilhão da Beleza Elevada (Songxiuting). Localizado no ponto mais alto das rochosidades, este pavilhão quadrado oferece uma vista panorâmica de todo o jardim.

Quarto Pátio: Área de Vista Panorâmica

O quarto pátio foi concebido para pequenos banquetes e para apreciar vistas amplas. Aqui, rochedos, passagens cobertas e edifícios intrincados combinam-se para criar uma perspetiva tridimensional imperdível.

Edifício em Destaque:

Pavilhão do Bom Agouro Esperado (Fuwangge). Quadrado na forma, este é o edifício mais alto do jardim. Parece ter dois andares, mas na verdade tem três. A decoração interior é bastante singular: o espaço foi dividido de forma engenhosa em múltiplas áreas com estilos variados, podendo até provocar desorientação no visitante — daí o apelido de “edifício misterioso”. No corredor do terceiro piso, é possível contemplar a Cidade Proibida em várias direções, e até observar zonas além das muralhas.

Este pavilhão era usado como local de banquete no 21.º dia do último mês lunar, quando o governo concluía o trabalho anual e iniciava o feriado do Ano Novo. O imperador Qianlong oferecia aqui um banquete aos nobres e ministros, em agradecimento pelo esforço ao longo do ano.

Quinto Pátio: Teatro e Área de Lazer

No extremo norte do Jardim de Qianlong, o quinto pátio era o refúgio pessoal do imperador Qianlong para descansar e assistir a apresentações de ópera depois de ter abdicado do trono.

Edifício em destaque:

Estúdio do Cansaço pelo Serviço Diligente (Juanqinzhai). Conhecido como a “caixa de tesouro mais preciosa do palácio”, o Estúdio tem 30 metros de comprimento e 7 metros de largura. O lado leste é ricamente decorado, com paredes revestidas de seda de bambu incrustada com jade, tetos bordados em dupla face e portas e janelas molduradas em preciosa madeira de roseira. No interior, encontram-se várias camas em forma de trono.

Escondido no lado oeste fica um pequeno palco onde o imperador Qianlong costumava apreciar ópera. Em redor do palco estende-se um impressionante mural de 170 metros quadrados que mostra vinhas pendentes do teto, uma cena de pátio com grous e montanhas ao longe, criando a sensação de estar num jardim encantado, vivo e quase etéreo.

Como visitar

Primeiro, claro é preciso chegar a Pequim, o que se tornou mais fácil desde que a China dispensou os cidadãos portugueses de visto para a entrada no país.

Para comprar bilhetes online para visitar o Jardim de Qianlong, deves fazê-lo através do site oficial do Museu do Palácio (Cidade Proibida), onde os ingressos são vendidos como parte do bilhete de entrada ao complexo. As reservas só ficam disponíveis 7 dias antes da data desejada, a partir das 20:00 no horário de Pequim.

O espaço está aberto de Terça a domingo e fechado às segundas-feiras (exceto feriados nacionais tradicionais)

Horário de abertura | Última entrada

1 de abril a 31 de outubro: 08:30 – 17:00 | 16:00

1 de novembro a 31 de março: 08:30 – 16:30 | 15:30

Nota que é preciso adquirir uma sucessão de bilhetes, e neste artigo apenas abordamos o acesso ao Jardim. Para lá chegares tens que ter também bilhete para a Cidade Proibida e para o Museu do Palácio.

O custo é de 40 Yuan (c. 4,85 Euros) para o Museu e de 10 Yuan (0,50 Euros) para aceder ao jardim.

Quando fores fazer a compra, vais precisar do teu passaporte, pois ele é usado como identificação para entrar.

Se preferires evitar o site oficial, há agentes turísticos como a Trip.com que vendem bilhetes, embora com preços mais elevados.

Importância cultural e impacto

A reabertura do Jardim Qianlong representa um triunfo cultural. É um testemunho da capacidade de cooperação internacional no salvamento de património, unindo o savoir-faire tradicional chinês à tecnologia de conservação moderna. O projeto restaurou um património quase perdido e, ao mesmo tempo, incentivou a formação de novos conservadores: o WMF e o Museu do Palácio utilizaram o jardim como uma “sala de aula viva”, treinando jovens artesãos e conservadores em técnicas centenárias. Isso significa que, além da restauração física, há um renascimento do conhecimento artesanal antigo que corre o risco de desaparecer.

Além disso, a abertura desse espaço aristocrático e privado ajusta a narrativa do Museu do Palácio para incluir não apenas o poder imperial formal, mas a intimidade e as paixões de Qianlong. Agora, o público pode literalmente pisar nos mesmos pisos que o imperador utilizava para momentos de retiro e contemplação. Em termos turísticos, o jardim tem grande potencial para se tornar um dos pontos mais importantes da Cidade Proibida, oferecendo uma experiência mais pessoal e reflexiva, longe das grandes multidões dos salões principais.

Em suma…

O Jardim Qianlong é muito mais do que um conjunto de antigos pavilhões restaurados: é uma ponte entre os séculos XVIII e XXI, entre a arte real da Corte Qing e a ciência da preservação moderna. A sua reabertura ao público em 2025 marca um novo capítulo para a Cidade Proibida, mostrando que a história e a cultura imperial não precisam ser apenas admiradas através de muros, mas podem ser vividas e refletidas nas pedras, nas rochas e nas pinturas que sobreviveram ao tempo. Para visitantes e estudiosos, torna-se um convite não só para contemplar um retiro secreto do imperador Qianlong, mas também para sentir a delicadeza da arte e do poder, e apreciar o esforço humano que manteve esse legado vivo.

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