10 de Dezembro de 2025
E a viagem está a chegar ao fim. Último dia de Maurítania, no qual pernoitaremos numa tenda tradicional junto ao mar. O local tem um nome: Arkeiss. Surge nos mapas como uma aldeia mas na realidade não há lá nada para além do camping. Para dizer a verdade não ia entusiasmado, mas acabou por ser bastante agradável, a situação ideal para começar a descontrair depois de todas as peripécias.
Da nossa localização até lá foi um saltinho. Isto à escala da Mauritânia, onde se fizeram milhares de quilómetros em duas semanas, uma boa parte deles por tudo menos estrada. O percurso não teve história. Já estamos todos cansados, o Sidi só pensa em dormir e o resto da gente em relaxar.

À parte uma paragem para xixis e a cigarrada dos mauritanos, foi sempre a andar até Arkeiss, que fica localizado no Banc d’Arguin National Park
Dizem que o Banc d’Arguin National Park é um dos parques mais importantes da África Ocidental e terá a sua relevância até porque a UNESCO o classificou como Património Mundial da Humanidade. Para os leigos, como nós, é contudo uma zona sem grande interesse. A paisagem é monótona e não tem pontos evidentes de atracção.

Mas é famoso por ser um dos maiores e mais importantes locais de reprodução e passagem de aves migratórias do mundo. Milhões de aves europeias passam por lá todos os anos, incluindo flamingos, pelicanos, garças e várias espécies de limícolas. Além das aves, as águas rasas e ilhas de areia do parque funcionam como uma “creche natural” para peixes e vida marinha.
Chegámos ao acampamento e o ar do mar, o som das ondas e a luminosidade foram suficientes para me cativar. Afinal foi bom incluir este ponto na nossa viagem. E daqui até à capital será um instante, por estrada asfaltada e sem sobressaltos esperados.

O almoço foi servido na nossa tenda. Um prato magnífico de peixe, ricamente acompanhado e decorado, num espectáculo sensorial de aroma, cor e… paladares.
O resto do dia foi passado como seria de esperar e era desejado. A relaxar, com pequenos passeios na praia, sonecas curtas, silêncios prolongados. Tempo para ler, processar imagens, anotar memórias de viagem e dar uma vista de olhos nas redes sociais.
Tinhamos o acampamento todo quase por nossa conta. Só outra tenda estava ocupada, por um homem provavelmente mauritano que viajava sozinho. Sossego assegurado.

A umas centenas largas de metros existia a aldeia, Arkeiss propriamente dita. Não a visitei mas no dia seguinte passámos por lá, sem parar.
Na praia um velho barco de madeira jazia abandonado. Três cães jovens erravam por ali, amigáveis, caminharam comigo até que cheguei ao território de outros cães, o que os fez regressar apressadamente à sua base.
Como praia não há ali muito. Algas, águas rasas durante uma boa extensão, areia suja. Mas depois de duas semanas de deserto a visão deste azul profundo foi muio bem-vinda.
E chegou a noite. A última desta viagem fabulosa, que não hesito em definir com a melhor que já tive. Não se dormiu bem, com frio a entrar por uma janela que teimava em não se deixar fechar. Mas não trocaria por nada esta última noite à beira-mar.




