31 de Dezembro de 2025

Do dia a mais em Mombassa fizeram-se dois. O voo, também da Skyward, para o primeiro dia do ano de 2026 seria a melhor opção. E descobri também que para festa de Ano Novo não havia grandes perspectivas. Perguntei aqui e acolá, e as pessoas encolhiam os ombros, “ah isso é mais do outro lado do rio” ou “talvez nos hóteis para turistas”. Tudo bem, de qualquer forma nunca dei grande importância à comemoração.

A manhã foi passada na preguiça. No fundo, sabíamos que Mombasa estava “esgotada” e que não havia muito mais a ver e fazer. Estava em modo de passar o tempo.

Já que tinha esta estadia forçada ia aproveitar para passar pelas presas de elefante, um ponto característico da cidade. Caminhámos até lá – ficava a um quarteirão de distância – depois do almoço.

Apesar do nome, não são presas reais nem têm qualquer ligação com marfim — são um monumento urbano. Ficam no centro de Mombaça, a atravessar a Moi Avenue, formando dois grandes arcos cruzados em forma de “X”, como se fossem quatro presas gigantes a criar um portal sobre a estrada.

Foram instaladas originalmente em 1952 pela administração colonial britânica, para assinalar a visita da princesa Elizabeth (que mais tarde se tornaria rainha Isabel II). A primeira versão era feita de madeira e lona. Em 1956 foram reconstruídas em alumínio, que é a estrutura que existe hoje.

O desenho em forma de presas tem um significado simbólico. Por um lado, representa o elefante, um animal muito associado à África Oriental e à sua fauna. Por outro, remete também para a antiga importância de Mombaça nas rotas do comércio do marfim, quando a região estava ligada ao tráfego de presas de elefante.

Dali apanhámos um tuk-tuk para a chamada “waterfront”, um espaço de lazer para a comunidade, sobre o qual tinha lido que podia ser animado. Foi uma aposta ganha. Quando chegámos já havia pessoas por ali, mas com o passar do tempo e a chegada de mais gente a coisa aqueceu e acabou por ser um dos momentos altos da passagem por Mombaça.

Na água de um azul profundo uma pequena multidão banhava-se, de forma mais ou menos conservadora como mandam os costumes locais. Junto às falésias as pessoas apreciavam o momento, procurando sombras quando possível. Grupos de amigos, casais, famílias, num ambiente festivo que prometia.

Afinal aqui haveria festa. Talvez não como estamos habituados noutras partes do mundo, mas mais à frente preparava-se um palco. Entretanto uma miriíade de vendedores propunha os seus produtos, com uma variedade incrível. Pipocas, algodão doce, milho assado, gelados, brinquedos coloridos, balões, sementes para ir roendo, bebidas misteriosas, bolos caseiros, sobremesas fritas, cigarros. E muito mais. Ao longo de centenas de metros.

Na área do palco, verdadeiros comes e bebes, com “roulotes” para todos os gostos. O fluxo de gentes engrossa à medida que a tarde avança. O calor torna-se tolerável e a hora dos espectáculos aproxima-se.

Mais à frente é a zona das diversões. que se alcança depois de passar por um caminho por entre árvores que oferecem uma bem-vinda sombra. Muita gente trouxe as suas cadeiras de casa, outros usam as dos pequenos negócios, espécies de cafés móveis instalados por um dia naquela parte da cidade.

A pequenada diverte-se tanto como os outros, com correrias, jogos de bola, comezainas… mas é no parque das atrações que ficam ao rubro. Enormes escorregas, uma pequena roda panorâmica, carrósseis e toda uma variedade de outros agitadores de adrenalina ouvem-se à distância, não tanto pelo ruído dos mecanismos mas mais pelos gritos de excitação das crianças, abanadas e centrifugadas de todas as formas.

Para melhorar a tarde, damos com uma série de fortificações, pequenas, discretas, construídas pelos britânicos no contexto da Segunda Guerra Mundial.

Mombaça era um ponto estratégico importante, ligando a África Oriental britânica à Índia, ao Médio Oriente e ao Mediterrâneo. O porto servia como centro logístico para transporte de tropas, abastecimentos e comunicações. Com a entrada da Itália na guerra e a presença italiana na Somália e na Etiópia, os britânicos passaram a considerar a região potencialmente vulnerável a ataques navais ou aéreos.

Daí estas construções que encontrei por acaso. Foram preparadas várias estruturas militares ao longo da costa, posições de artilharia costeira, com canhões voltados para o mar para proteger a entrada do porto. Também foram instalados bunkers e casamatas em betão, usados para abrigar munições, postos de comando e observação. Existiam ainda postos de vigilância para detetar navios inimigos a distância e controlar o tráfego marítimo.

Vi um grupo de raparigas vestidas de igual. Pareciam estar a divertir-se. Seguiam com um elemento masculino, talvez a condição imposta pelas famílias por este passeio num dia diferente. Seguia-as durante algum tempo, esperando a fotografia perfeita que nunca chegou.

A tarde aproximava-se do fim. A luz mudava, alarajando-se. Por causa das comemorações o trânsito estava interrompido e tivemos que refazer todo o caminho até onde parámos, o que ainda significava um par de quilómetros.

Voltámos a ver o estranho farol que na realidade era uma torre de pombos. Já havia menos pessoas ao longo da costa. Tinham-se deslocado para a zona do palco. No mar um enorme navio de carga afastava-se, internando-se no imenso oceano.

Conseguimos encontrar o nosso Uber e seguimos para jantar com o Malick, que tínhamos conhecido nas ruas da cidade antiga. Comeu-se bem, com boa companhia e boa conversa. Ainda hoje mantenho contacto com ele, vamos discutindo futebol no Whatsapp. E depois, casa. Para fechar o dia.

 

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