Há mais de quatro décadas que o casco enferrujado do MV Panagiotis repousa numa baía isolada de Zakynthos, transformado, quase por acaso, num dos ícones turísticos mais reconhecíveis da Grécia. O navio encalhou ali em Outubro de 1980, e foi a sua lenta decomposição — mais do que qualquer plano de promoção turística — que deu à baía o nome pelo qual se tornou célebre: Praia do Naufrágio, ou Navagio. Agora, esse mesmo símbolo está em risco, e as autoridades gregas decidiram agir.
Um problema de metros, não de intenções
O diagnóstico é simples de enunciar, ainda que complexo de resolver: o mar está a comer terreno. O casco do Panagiotis encontra-se hoje a cerca de 25 metros da linha de água, uma distância que continua a encurtar com cada temporal de Inverno. Se nada for feito, a estrutura ficará cada vez mais exposta à ondulação, acelerando uma corrosão que já é visível a olho nu.
A resposta escolhida pelo governo grego, através da Growthfund — a entidade estatal que gere ativos públicos —, em conjunto com o Município de Zakynthos, passa por devolver espaço à praia. O projeto prevê depositar cerca de 45 mil metros cúbicos de gravilha e areão ao longo dos 193 metros de costa da baía, alargando o areal em aproximadamente 30 metros em direção ao mar. Na prática, isto significa afastar fisicamente o navio da água, criando uma zona-tampão que deverá reduzir o impacto direto das ondas sobre o casco. O estudo técnico que sustenta a intervenção foi conduzido pela Universidade Técnica Nacional de Atenas, ainda que alguns especialistas em geologia costeira tenham manifestado reservas quanto à real necessidade — e eficácia a longo prazo — de uma obra desta escala.
Uma praia fechada há anos, e que continua fechada
Vale a pena lembrar que, para quem sonha em pisar a areia branca da Navagio, essa possibilidade não existe atualmente — e não vai existir durante toda a época alta de 2026. O acesso à praia está interditado desde 2018, ano em que um deslizamento de rochas feriu sete pessoas junto às falésias que cercam a baía. Um sismo de magnitude 5,4 na região, em 2022, voltou a desencadear quedas de blocos rochosos, levando o Organismo grego de Planeamento Sísmico e Proteção a classificar a zona como estando sob risco elevado de deslizamentos extensos. Atualmente, nem sequer os barcos podem aproximar-se: é exigida uma distância mínima de 50 metros da costa, e a proibição de desembarque mantém-se em vigor pelo menos até 31 de Outubro.
Isto não significa, no entanto, que a baía tenha deixado de receber visitantes. Continua a ser possível admirar as águas turquesa e o casco ferrugento do Panagiotis a partir de excursões de barco pela costa sudoeste da ilha, ou através do miradouro instalado no topo da falésia — hoje o ponto de observação mais concorrido de Zakynthos, e provavelmente o único acesso viável enquanto as obras não avançam.
O que vem a seguir
Depois de estabilizado o areal, o plano prevê uma segunda fase dedicada à conservação estrutural do próprio navio, com fundos europeus do programa Interreg, e a trabalhos adicionais de contenção das arribas. Não existe ainda um calendário fechado para o arranque da empreitada, mas o horizonte apontado pelas autoridades locais estende-se até 2030 — um sinal de que, mais do que uma reparação pontual, se trata de repensar por inteiro a forma como este pedaço de costa vai ser gerido e protegido nas próximas décadas.
O primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, já classificou o naufrágio como um marco nacional que merece proteção institucional. É uma posição que resume bem o dilema por trás do projeto: como preservar aquilo que, precisamente por estar em ruína, se tornou insubstituível.



