15 de Janeiro de 2026

A escapadela para o sul do Rwanda está a correr bem. Ficaremos mais uma noite na simpática Huye, principal cidade da região. Mas para já vamos espreitar Nyanza, que se destacou como alternativa para as pernoitas por aqui. Huye ganhou a disputa porque a oferta de alojamento gritou mais alto.

As localidades distam uns 25 km uma da outra e é muito práctico viajar entre uma e outra. Ainda mais para nós, que temos o terminal de transportes ao fim da rua.

Chegando lá, logo alguém aparece para nos guiar. Se ganham uma comissão não sei, mas pelo menos ali não me pareceu. Acredito que se trata de gentileza. Seja como for é uma ajuda desnecessária. O recinto é calmo e organizado e logo veríamos a indicação de Nyanza junto ao veículo.

A viagem é barata, tanto que nem me lembro a quantia que larguei. O percurso é belo, como todos os que fiz neste país. Percorrer as estradas do Rwanda é em si uma actividade gratificante, sempre com algo de novo para ver, elementos que se destacam do omnipresente pano de fundo verde.

Em Nyanza ficamos a uns quilómetros do objectivo principal da visita: o Palácio Real.

Trata-se de um dos locais mais emblemáticos do país, um símbolo da herança da monarquia ruandesa, extinta com a independência, em 1962, centro da vida política, social e espiritual do reino até a sua abolição.

Nyanza tornou-se a capital do reino no final do século XIX quando rei Yuhi V Musinga estabeleceu ali sua residência. O actual pólo museológico inclui uma reconstrução do palácio tradicional, construída com técnicas locais em barro, madeira e palha, com a arquitetura circular e cónica típica da elite do reino. Existem duas outras construções idênticas, numa posição mais recuada, também elas réplicas, que eram usadas para tarefas auxiliares.

Nos fundos do palácio encontra-se o curral dos Inyambo, o gado cerimonial de chifres longos que simbolizava prestígio real, ainda mantido com tradições ancestrais. Estes impressionantes animais são trazidos para que os visitantes lhes possam tocar e tirar fotos com eles, enquanto o tratador os acaricia com uma vara e lhes canta uma melodia de embalar.

Ao lado da reconstrução há a residência palaciana, em estilo europeu, construída em 1932 para o rei Mutara III Rudahigwa, mostrando a influência colonial e preservando móveis e objetos da época. Da sua varanda vê-se, numa colina fronteira, o palácio que o rei decidiu construir, numa fase avançada da vida, depois de ter visitado a Bélgica. Infelizmente faleceu antes das obras estarem concluídas. Esse edifício alberga hoje outro museu.

A referir o agradável espaço para comer qualquer coisa ou tomar uma bebida, num pavilhão arejado, de forma circular, onde me dekiciei com uma Coca-Cola gelada.

A uns 600 metros encontra-se o mausoléu real. Não me pareceu especialmente interessante e não o visitei.

Reparei nuns painéis que indicam duas caminhadas que se podem fazer, uma de 8 km e outra de 10 km. Fiquei a matutar, considerando regressar no dia seguinte, pelo fresco da manhã, para fazer um destes passeios. Acabou por não acontecer.

Estava na hora de iniciar o regresso. Poderíamos ter apanhado uma moto-táxi mas a tarde estava agradável. E agora era a descer. Caminhámos. Pudemos então observar alguns detalhes: as pequenas hortas e o que por lá crescia, as casas, as pessoa que andavam por ali. Como as duas senhoras de vestidos muito coloridos, estereótipo da roupagem africana, ambas carregando volumosas enxadas.

Regressar foi tão fácil como vir. A estação rodoviária aqui é ainda mais pequena e organizada. Num instante já vamos de volta. Para mim é um prazer redobrado ver a paisagem. Diria mesmo que é uma rota panorâmica.

De volta a Huye, um passeio pelo centro da cidade. Apanhamos logo moto-táxis para a catedral, magnífica por fora, pobre por dentro.

A sua história começa na década de 1930, durante o período colonial belga no Rwanda. Quando os belgas governavam o país, a cidade de Huye foi denominada Astrida em homenagem à Rainha Astrid da Bélgica. Em memória dessa figura real, as autoridades coloniais e missionárias católicas lançaram o projeto de uma grande catedral na então capital administrativa. A construção, feita em tijolos vermelhos e com um desenho original dividido em três secções, foi concluída em 1937, transformando-se rapidamente no maior templo católico de Ruanda e num marco arquitetónico da região.

Desde o início, a catedral serviu como centro da vida religiosa católica na região e, após a criação da Diocese de Butare em 1961 pelo Papa João XXIII, passou a ser a igreja-mãe dessa diocese, continuando como sede episcopal mesmo após a independência do Rwanda da Bélgica em 1962.

Ao longo das décadas seguintes, a Catedral de Huye acompanhou as profundas transformações sociopolíticas do país: ela viu a expansão do catolicismo no Ruanda, influenciada por figuras como o Rei Mutara III Rudahigwa, que se converteu ao cristianismo na década de 1940 e incentivou uma vasta onda de baptismos.

Depois de visitado o local, sentámo-nos num pequeno café local mesmo em frente. Um bem recebido momento de repouso.

Entretanto a fome chegava. Fomos até ao simpático restaurante local da véspera. Repeti a dose, um Rolex, que desta vez não me pareceu tão bom. Certamente um cozinheiro diferente. Bem, agora queria tratar da minha pelagem da cabeça. Perguntei ao simpático funcionário onde podia tratar disso. Simples, disse-me ele. Segue-me. E fui, por um corredor interno, até uma porta. E lá estava, um barbeiro, bem escondido, nas entranhas do edifício.

Foi “apenas” o melhor trabalho de que me recordo. O tipo sabia mesmo do ofício. E não foi só o melhor, mas também o mais barato. A cabeça perfeitamente rapada sem um corte, a face escanhoada, tudo certinho ao milímetro, todo o requinte e muitos mimos. O preço? 1,80 Euros!

Entretanto chegam os outros. E quem são os outros? Um couchurfer de Kigali e o seu convidado, um jovem americano de origem indiana que ficará com ele um mês. Têm estado em viagem, aproveitando uns dias de folga, e ficarão em Huye esta noite.

Regressamos ao restaurante para eles comerem. Entretanto cai a noite e é já no escuro que caminhamos pela estrada principal. O Blaise era na realidade de Huye, apesar de viver na capital há muitos anos. E queria mostrar-nos, e à filha que vinha com ele, a sua escola primária, onde nunca tinha voltado…. até hoje.

Foi um serão longo. As senhoras quiseram – muito encorajadas pelo Blaise – ir para o alojamento, e seguimos para a noite. Entretanto tinham-se juntado a nós dois amigos de infância dele, e enquanto deitávamos abaixo umas cervejas, eles acertavam memórias em kinyarwanda, deixando-me a mim e ao americano-indiano à conversa.

No regresso, o Blaise regressou bem ao alojamento, mas os nossos moto-táxis deixaram-nos noutro local exactamente com o mesmo nome, um quarteirão adiante, onde aproveitei para deitar abaixo outra cerveja. Um dia animado, portanto.

 

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