Há viagens que duram alguns dias, outras que se prolongam durante meses e algumas que ocupam vários anos da vida de quem as empreende. Mas há uma diferença considerável entre dar a volta ao mundo, atravessar continentes ou percorrer milhares de quilómetros a pé e partir para uma caminhada que se prolonga durante quase três décadas, sem utilizar transportes para avançar e sem regressar a casa antes de chegar ao destino. Foi precisamente isso que Karl Bushby, um antigo militar britânico, decidiu fazer em 1998. Vinte e oito anos depois, a sua extraordinária aventura está prestes a terminar.
Uma caminhada de regresso a casa
A história começou no extremo sul do continente americano, na cidade chilena de Punta Arenas. A 1 de novembro de 1998, Bushby, então com 29 anos, iniciou uma viagem cujo objetivo era chegar à sua terra natal, Hull, no norte de Inglaterra, caminhando por uma rota contínua desde a América do Sul até à Europa. Chamou-lhe Goliath Expedition, um nome apropriado para uma aventura que acabaria por se revelar muito maior, mais difícil e mais demorada do que provavelmente alguma vez imaginara.
A ideia não surgiu inteiramente do nada. O pai de Bushby oferecera-lhe um cartão de aniversário que recordava uma conversa entre dois militares britânicos das forças especiais. Os dois discutiam se seria possível caminhar de Londres a Nova Iorque através do estreito de Bering, a passagem marítima que separa a América do Norte da Ásia. A questão ficou na cabeça de Bushby. Em vez de se limitar a imaginar como seria uma viagem destas, decidiu experimentar por si próprio. E foi mais longe: partiria do extremo meridional da América do Sul e regressaria a Inglaterra sem recorrer a transportes para avançar.
O plano assentava em duas regras simples. Não utilizar transportes para percorrer qualquer parte do trajeto e não regressar a Inglaterra antes de completar a viagem a pé. O que parecia uma aventura de longa duração transformou-se numa das mais prolongadas expedições pedestres da história recente. As dificuldades geográficas, os problemas financeiros, os vistos, as fronteiras fechadas e as alterações políticas acabaram por prolongar a caminhada muito para além das expectativas iniciais.
O Darién: uma floresta cheia de perigos
A primeira grande prova surgiu na América Central, na região do Darién, entre a Colômbia e o Panamá. Trata-se de uma extensa zona de floresta tropical, pântanos e rios, sem uma rede de estradas que permita atravessá-la normalmente. A passagem é conhecida pelas dificuldades naturais e pelos perigos associados à presença de grupos armados e redes de tráfico. Quando Bushby enfrentou esta região, entre 2000 e 2001, a situação era particularmente complicada.
A zona encontrava-se marcada pelo conflito entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o Governo colombiano e grupos paramilitares de direita. A presença de organizações ligadas ao tráfico de droga acrescentava outro nível de perigo. Não bastava avançar através de uma floresta densa, onde a progressão era lenta e fisicamente exigente. Era necessário fazê-lo num território onde a segurança não estava garantida e onde um encontro inesperado podia ter consequências graves.
Bushby viria a recordar o Darién como uma das etapas mais duras de toda a expedição. Depois de conseguir atravessar a região, ainda foi detido no Panamá e passou 18 dias na prisão. A experiência serviu para demonstrar que os obstáculos da viagem não seriam apenas físicos. Em muitos casos, conseguir atravessar uma fronteira ou obter autorização para continuar seria tão complicado como superar as dificuldades do terreno.

A travessia do estreito de Bering
O grande momento da expedição chegou em 2006, quando Bushby e o aventureiro francês Dimitri Kieffer se prepararam para atravessar o estreito de Bering, entre o Alasca e a Rússia. Esta era a passagem que tornaria possível ligar a América do Norte à Ásia sem utilizar um avião ou um barco para transportar os caminhantes.
A travessia exigia avançar sobre o gelo marinho, num ambiente onde as temperaturas extremas, as correntes e o movimento constante das placas de gelo constituíam ameaças permanentes. A distância era de aproximadamente 93 quilómetros, mas a extensão do percurso era apenas uma parte do problema. O gelo podia partir-se, deslocar-se ou abrir passagens de água inesperadas. A superfície aparentemente sólida não oferecia qualquer garantia de segurança.
Bushby e Kieffer demoraram 14 dias a completar a travessia. Durante esse período, tiveram de enfrentar condições particularmente difíceis. O próprio Bushby descreveu o ambiente como assustador, com o gelo a desfazer-se e a água a movimentar-se à sua volta. Durante a noite, os ruídos provocados pelo gelo tornavam impossível esquecer a fragilidade da superfície onde tentavam descansar. A presença potencial de ursos-polares era mais um motivo de preocupação.

Para Bushby, esta foi a etapa decisiva da viagem. Até chegar ao Alasca, a ideia de atravessar o mundo a pé era sobretudo um projeto ambicioso. Ao alcançar a Rússia, tinha demonstrado que era possível estabelecer uma ligação terrestre entre os dois continentes, recorrendo a uma passagem que poucos aventureiros tinham conseguido vencer nas mesmas condições.
A chegada à Rússia, contudo, não significou que os problemas tivessem terminado. As questões relacionadas com a entrada no país e a documentação necessária continuaram a interferir com a expedição. Em 2012, as autoridades russas recusaram-lhe um visto, impedindo-o de prosseguir como planeado. A viagem ficou sujeita a longas interrupções, obrigando-o a procurar soluções para retomar o percurso.
Entretanto, a crise financeira de 2007 e 2008 tinha provocado a perda de apoios e patrocínios que ajudavam a financiar a aventura. Uma expedição desta dimensão exige muito mais do que resistência física e determinação. Há despesas de alimentação, equipamento, alojamento, deslocações logísticas, documentação e preparação para as etapas mais perigosas. Sem financiamento regular, até o projeto mais bem planeado pode ficar suspenso durante meses ou anos.
Bushby não abandonou o objetivo, mas o tempo foi passando. A viagem que imaginara como uma grande aventura de alguns anos começou a ocupar uma parte cada vez maior da sua vida adulta. País após país, fronteira após fronteira, continuou a avançar sempre que as circunstâncias o permitiam.
Atravessar o mar Cáspio a nado
A travessia do mar Cáspio, em 2024, tornou-se outra das etapas mais extraordinárias da expedição. As dificuldades em encontrar uma rota terrestre viável para continuar em direção à Europa obrigaram-no a considerar uma alternativa que poucos associariam a alguém cuja ambição era caminhar à volta do mundo.
Bushby decidiu atravessar o mar a nado, apesar de não se considerar um nadador particularmente competente. Brincou mesmo com a sua capacidade na água, comparando a forma como nadava à de um gato atirado para dentro de uma banheira. A descrição não era propriamente tranquilizadora para alguém que se preparava para enfrentar centenas de quilómetros de mar.
A travessia contou com o apoio de uma equipa e de embarcações de acompanhamento. Mesmo assim, exigiu uma enorme resistência física e mental. A natação prolongada em águas abertas, durante vários dias, impõe dificuldades muito diferentes das de uma caminhada. O frio, a fadiga, a orientação e a necessidade de manter um ritmo constante tornam cada hora um desafio. O percurso pelo Cáspio foi uma demonstração da determinação com que Bushby procurava respeitar o princípio fundamental da sua expedição: encontrar uma maneira de continuar sem recorrer a transportes para avançar.
Depois de atravessar o mar, prosseguiu pela região do Cáucaso e pela Turquia, aproximando-se finalmente da Europa ocidental. Em 2025, atravessou a ponte sobre o Bósforo, em Istambul, alcançando a parte europeia da cidade. A partir daí, a distância que o separava de Inglaterra começou a parecer mais tangível, embora continuassem a existir dificuldades administrativas e logísticas.
O último obstáculo: o canal da Mancha
O último grande obstáculo foi o canal da Mancha. Depois de quase três décadas a caminhar, Bushby precisava de encontrar uma maneira de passar de França para Inglaterra sem quebrar as regras que tinha estabelecido no início da viagem. A possibilidade de atravessar a pé um túnel de serviço associado ao túnel ferroviário do canal foi recusada por razões de segurança.
Restava uma alternativa que parecia quase absurda: atravessar o canal a nado.
Em outubro de 2026, Bushby conseguiu finalmente completar a travessia e chegou à praia de Shakespeare, perto de Dover. Depois de 28 anos, estava novamente em solo britânico. O regresso ao país natal representava um momento simbólico extraordinário, mas não significava ainda o fim da expedição. O seu destino não era Dover, nem Londres, mas a casa da mãe, em Hull.
A última etapa da caminhada deverá levá-lo a percorrer os cerca de 400 quilómetros que ainda o separam desse destino. O objetivo anunciado é chegar a casa até 1 de novembro, precisamente 28 anos depois de ter partido de Punta Arenas.

O preço de uma aventura de 28 anos
Por detrás dos números e dos episódios extremos, existe também uma dimensão pessoal que torna esta história menos simples do que uma sucessão de feitos desportivos. Durante quase três décadas, Bushby passou longos períodos longe das pessoas mais importantes da sua vida. Viu a mãe e o filho apenas algumas vezes ao longo da viagem, encontrando-se com eles ocasionalmente durante o percurso. Entretanto, tornou-se avô de uma menina que ainda não conhece pessoalmente.
O próprio reconheceu que as ambições pessoais têm consequências para quem fica à espera. As pessoas que mais amamos acabam por suportar parte do custo das nossas decisões, mesmo quando não participam nelas. Uma aventura pode ser extraordinária para quem a vive e, ao mesmo tempo, representar anos de ausência para a família.
Bushby também admitiu que, quando alguém lhe pede conselhos sobre viagens prolongadas, recomenda alguma prudência quanto à duração. Ter uma aventura é uma coisa; passar cinco anos ou mais longe de casa pode começar a afetar profundamente as relações familiares. É uma reflexão importante vinda de alguém que dedicou quase metade da sua vida adulta a um único projeto.
Há ainda outra questão: o que significa regressar a casa depois de 28 anos? A Inglaterra que Bushby deixou em 1998 não é a mesma que encontra agora. O país mudou, as pessoas envelheceram e a sua própria família seguiu em frente. Ele também mudou. Ao longo da expedição, houve lugares na América Latina onde chegou a sentir-se mais em casa do que no seu próprio país. Regressar não será simplesmente retomar a vida que deixou para trás, como se os anos não tivessem passado. Será necessário reconstruir relações, adaptar-se a uma rotina e descobrir qual é agora o seu lugar.
O que acontece quando a viagem termina?
Talvez seja essa a parte mais inesperada desta história. Atravessar selvas, caminhar sobre gelo marinho ou nadar através de mares são desafios que se podem enfrentar com preparação, resistência e alguma sorte. Regressar a uma vida que continuou sem nós é uma tarefa bastante diferente.
A expedição de Karl Bushby começou com uma ideia nascida de uma conversa entre dois militares e com a curiosidade de descobrir se seria possível caminhar de um extremo do mundo ao outro. Ao longo dos anos, transformou-se numa demonstração extraordinária de perseverança, mas também num exemplo dos custos que uma ambição pode ter quando se prolonga muito para além do que se imaginava.
Quando finalmente chegar a Hull, Bushby terá percorrido dezenas de milhares de quilómetros, atravessado continentes e enfrentado obstáculos que teriam levado muitas pessoas a desistir. Mas talvez o maior desafio comece precisamente nesse momento: aprender a viver sem a expedição que definiu a sua existência durante 28 anos.
Depois de tanto tempo em movimento, chegar ao destino poderá ser uma experiência tão estranha como partir. Afinal, quando uma viagem se transforma na vida inteira de alguém, o fim do percurso levanta uma pergunta inevitável: o que fazer quando já não há mais caminho para percorrer?
