Há ilhas que existem há séculos em relativo anonimato e que, de um momento para o outro, se tornam destinos. Ulva, uma pequena ilha do arquipélago das Inner Hebrides, na costa ocidental da Escócia, é o exemplo mais recente deste fenómeno – e também um dos mais extremos. Com apenas dezasseis habitantes permanentes e uma única ligação ao mundo exterior, a ilha chegou ao ponto de ter de se fechar aos visitantes um dia por semana para conseguir respirar.
A solução foi tão simples quanto drástica: suspender o ferry aos domingos durante os meses de verão. A embarcação, operada pela Ulva Ferry, faz a travessia de apenas cinco minutos entre Ulva e a vizinha ilha de Mull, e é o único acesso público ao território. Sem ela, não chega ninguém. O serviço já não funcionava aos sábados, reservados à manutenção da embarcação e ao descanso do operador. Agora, os domingos juntam-se a esse intervalo de pausa, deixando a ilha com cinco dias de semana abertos ao exterior.
A causa de tudo isto tem nome e formato: Banjo and Ro’s Grand Island Hotel, uma série da BBC Scotland em que o designer de interiores Banjo Beale e o marido, Ro Christopher, restauram a histórica Ulva House com o objectivo de a transformar num hotel boutique. A exposição mediática foi imediata e os efeitos fizeram-se sentir rapidamente. Os próprios operadores do ferry admitiram publicamente que ninguém antecipou a dimensão do impacto: “Nenhum de nós poderia ter previsto o aumento tão significativo no número de visitantes”, escreveram nas redes sociais.
Não é a primeira vez que um destino é literalmente descoberto pela televisão. Já aconteceu com aldeias islandesas depois de séries escandinavas, com vilas algarvias depois de documentários de viagem, com ilhas gregas depois de filmes de verão. O padrão é sempre semelhante: a atenção chega de repente, a infraestrutura não acompanha, e a comunidade local debate-se entre as oportunidades económicas e a pressão sobre o quotidiano.
Em Ulva, esse equilíbrio rompeu-se depressa. Sam Yates, que gere o Boathouse – o único restaurante da ilha, que trabalha com produtos locais e celebra a tradição gastronómica das Hébridas – foi um dos primeiros a sentir a pressão. A decisão de suspender o ferry ao domingo foi tomada em conjunto com os moradores e descrita por ele como uma forma de garantir descanso a todos durante os períodos mais intensos. Rhuri, o operador da embarcação, aproveita os sábados para manutenção e agora pode finalmente passar um domingo com os filhos.
Vale a pena contextualizar a escala do problema. Ulva tem vinte quilómetros quadrados de extensão, não tem estradas alcatroadas, a circulação faz-se a pé ou em pequenos veículos utilitários, e a população actual é o resultado de décadas de declínio demográfico – no século XIX chegou a ter mais de oitocentos habitantes, antes das chamadas Clearances forçarem o abandono em massa das terras escocesas. A ilha foi comprada pela comunidade local em 2018, com apoio do Scottish Land Fund, precisamente para tentar inverter esse esvaziamento e atrair novos residentes. A ironia é que o que ameaça agora o equilíbrio da ilha não é o despovoamento, mas o excesso de visibilidade.
A suspensão dominical não afecta quem tiver alojamento reservado na ilha – esses visitantes continuam a ser transportados. Quem fica de fora são os turistas de dia, que chegam de manhã e regressam ao fim da tarde. É precisamente esse fluxo, concentrado e sem contrapartida económica significativa para a comunidade, que os moradores querem conter. Como afirmaram os próprios responsáveis locais, o interesse dos visitantes é bem-vindo – o que não é sustentável é a forma como esse interesse chegou, de uma vez, sem aviso e sem preparação.
